Todo mundo que reclama, com inteira razão, do nível do jornalismo brasileiro, não deve apenas bater nos pobres coitados que trabalham nas redações. Como em qualquer lugar, há bons e maus profissionais, gente com e sem caráter, embora a mediocridade seja a regra geral: são poucos os que se arriscam a sair do lugar comum, da rotina do dia a dia, da cobertura de entrevistas coletivas burocráticas, da pauta sem criatividade, de um fastio generalizado que se intensificou com a decisão do patronato de demitir grande parte da força de trabalho.

 
A verdade é que só neste ano, fazendo uma conta rápida de cabeça, dá para dizer que mais de 100 jornalistas foram mandados embora das principais redações paulistanas: Folha, Estadão, Abril, Valor.

 

É muita gente, principalmente se for levado em conta que os cortes estavam sendo feitos havia algum tempo, mais discretamente.

 
A conclusão óbvia é que o patronato pensa em manter a mesma rentabilidade – ou até aumentá-la – com um quadro de funcionários menor, ou seja, pretende que os profissionais sejam mais produtivos, ou, simplesmente, trabalhem mais para suprir a falta dos demitidos.

 
O resultado é essa tragédia exposta nas páginas dos jornalões, das revistas, dos portais de notícias, nas rádios e televisões.

 
Erros para todos os gostos: gramaticais, aos montes, e de informação, à vontade. 
Sem contar com frases mal construídas, sem sentido ou de sentido dúbio, sem lógica nenhuma, títulos que contrariam a notícia, ausência absoluta do que distingue um jornalista de uma ave palradora: o repórter tem por obrigação saber sobre o quê o entrevistado está falando, conhecer o assunto que está cobrindo, pelo menos de modo a não publicar bobagens antológicas, dados falsos, esse tipo de coisa que está virando rotina.

 
Repetir literalmente as declarações de uma pessoa não é um trabalho jornalístico, isso é o que faz um papagaio. O gravador, até mesmo esses modernos, digitais, não pode, nunca, substituir o bom senso: ora, se o entrevistado falou uma asneira, o repórter tem por obrigação alertá-lo sobre isso, para que a informação, o núcleo do seu trabalho, esteja correto.

 
O erro que o fulano cometeu, a sua gafe, pode até constar da notícia, mas nunca ser a notícia: muitas vezes o engano é inconsciente, por motivos vários; em outras ele é deliberado – há muito espertalhão por aí que usa e abusa da ingenuidade e falta de preparo dos repórteres para soltar o que se chama da gíria jornalística de “balão de ensaio”, uma informação que serve só para quem a deu medir a sua repercussão.
Hoje estava lá, no site da Folha, um título-chamada para a revista Serafina, que resume bem a indigência técnica, intelectual – moral, até – da nossa imprensa: “Alexandre Herchcovitch pensa em pedir asilo político em outro país.” 

 
Na matéria não existe nenhuma frase que corrobore essa intenção absurda. Asilo político a pessoa pede quando se acha perseguida politicamente em seu país, com risco de ser preso, quando não tem mais garantia nenhuma de que poderá continuar a levar a sua vida normal, exercer a sua profissão etc e tal.

 
Para sair do Brasil, o estilista em questão não precisa pedir asilo político para nenhuma nação: basta ele comprar, pela companhia aérea de sua preferência, na classe que quiser, a sua passagem de ida e viajar para onde bem entender. 

 
O Brasil ainda é um país livre, embora muitos estejam fazendo de tudo para que essa, a maior virtude de uma democracia, seja jogada no lixo da história.
Quem fez o tal título ou deve ser um ignorante ou então um mau caráter. 

 
O duro é a gente perceber que as duas categorias, infelizmente, estão em alta no Brasil atual.

 

 

Via http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/