Ronaldo conversou com alguns veículos de imprensa neste sábado em Salvador – Bruno Winckler/iG

Da borda de uma piscina em que concedeu uma entrevista na manhã deste sábado para seis veículos de imprensa, Ronaldo viu os protestos que se espalharam pelo país baterem sua porta. Hospedado no hotel Sheraton de Salvador, o membro do Comitê Organizador da Copa e porta-voz oficial da entidade que coordena a Copa das Confederações sentiu os efeitos do gás lacrimogêneo disparado contra manifestantes que passaram pela avenida Sete de Setembro na capital baiana na última quinta-feira.

“Explodiram uma bomba aqui do lado do hotel. A gente estava na piscina e entrou gás lacrimogênio aqui, talvez pelo vento. A gente sentiu os efeitos logo. Foi muito feio e logo entramos para o hotel”, contou Ronaldo no início da conversa que durou 32 minutos. O iG participou do encontro ao lado de repórteres de Lance, Uol, ESPN, Globoesporte e Folha de S. Paulo.

Ronaldo se posicionou a favor das manifestações, aprovou discurso da presidente Dilma Rousseff, cobrou autoridades a prenderem suspeitos de desvio de dinheiro público e se eximiu de culpa em relação aos gastos abusivos nos estádios que recebem a Copa das Confederações e que sediarão a Copa do Mundo em 2014. “O povo está cansado de ver roubalheira, mas a Fifa e o COL não têm absolutamente nada com isso”, disse Ronaldo.

Veja a entrevista completa de Ronaldo em tópicos:

Gás lacrimogênio na piscina do hotel

Explodiram uma bomba aqui do lado do hotel. A gente estava na piscina e entrou gás lacrimogênio aqui, talvez pelo vento. A gente sentiu os efeitos logo. É um horror.

O que achou do discurso da presidente Dilma na sexta-feira? 

Acho que a Dilma saiu para dar uma satisfação ao povo, que está exigindo mudanças. Ela vem prometendo coisas que o povo está pedindo. O povo tem que ser a parte mais importante da nossa sociedade. Apoio toda a manifestação pacifica, mas desaprovo qualquer ato de vandalismo. O povo deu a demonstração de que se faz uma manifestação dessa magnitude consegue tudo que quer. Não podemos misturar os vândalos com os protestantes.

Tem medo dos protestos?

Não medo, porque eu sou do povo e reivindico o que o povo está reivindicando. Não tenho medo de sofrer qualquer tipo de represália. Meu sentimento é igual ao do povo. Quero um Brasil mais justo com o povo.

O que pensa sobre as reivindicações dos manifestantes?

Eu estou exatamente com o povo. Não é questão de vinte centavos (no preço da passagem). Ele quer dar fim à corrupção, aos dinheiros desviados em obras, o povo quer hospitais, educação de qualidade. Eu estou com o povo, não tenho rabo preso com ninguém e gostaria de ver o nosso país mais justo. Não é questão de falta de dinheiro é falta de investimento certo. O povo quer responsabilizar os culpados pelos desvios.

Os protestos são contra a Copa em muitos lugares. O povo não quer a Copa?

O povo não é contra a Copa. É contra desvio de dinheiro. O povo quer ver melhorias em tudo. A Copa era a grande oportunidade de o Brasil receber grandes investimentos. Mas isso não justifica os desvios, os altos custos com obras de estádios.

Os manifestos surpreenderam?

Foi surpreendente, mas compreensível porque o povo está cansado. Num país com tanta riqueza viver está um caos. A gente espera sempre ter bons atendimentos nos hospitais públicos, educação de qualidade. Mas o povo vem cansado de muito tempo e vai tapando os buracos. O poder da informação da internet é tão rápido. Se fazem mobilizações muito rápidas. Sem dúvida vamos ver daqui para frente um país melhor.

Que avaliação faz do que viu até aqui?

Avaliação que faço é sempre muito positiva. Estou com o povo e não abro. Quero os mesmos resultados que o povo espera. A Fifa e o COL estão acompanhando a movimentação. Queremos ver uma competição sem violência, sem ninguém sair ferido. Para isso foi pedido mais segurança para os árbitros, estádios, para que não haja violência. Mas no fundo todos estão gostando de ver como uma mobilização popular pode dar um rumo ao país.

                                                                                    Mowa Press

                                 Ronaldo é membro do Comitê Organizador Local da Copa

 

Fifa e organização são alvos dos protestos. Como vê isso?

A verdade é que o COL e a Fifa não constroem nada, não contratam a empreiteira. Só controla a competição. O povo está cansado de ver roubalheira, mas a Fifa e o COL não tem absolutamente nada com isso.

Qual sua opinião sobre a frase dita em 2011 em que diz que “Copa não se joga com hospitais”

Lógico que fiquei chateado, porque me envolveram de maneira maldosa. Eu venho de origem humilde, apoio as manifestações e tudo que conquistei foi com suor, sofrimento, muitas operações. Entendo o que o povo quer. Esse vídeo foi manipulado e tendencioso. Todo mundo sabe não se faz Copa do Mundo sem estádios e eles tinham que ser construídos. Isso não quer dizer que não se deve construir hospitais. O Brasil vem batendo recorde de PIB e os investimentos são altos. Mas eu não tenho cargo público, não administro nenhum órgão público. Quero as mudanças igual o povo quer.

Mas se arrepende de ter dito a frase?

Eu me arrependo da forma como foi dita. Mas eu tenho certeza que o contexto inicial continua sendo o que eu penso. O governo tem que ter as prioridades. Educação de qualidade, hospitais… De qualquer maneira peço desculpas aos que sentiram ofendidos.

O que faria se estivesse na organização da Copa desde o início? (Ronaldo assumiu cargo em novembro de 2011 e o Brasil ganhou o direito de sediar a Copa em 2007)

É muito difícil falar de hipóteses. Como é que faz isso?

Acha que protestos servem de aviso para 2014?

Eu acho que nós vamos ver mudanças muito rápidas com essas manifestações. O povo tem que cobrar. Se tiver mudanças, bem. Se não, tem de continuar a nos unir a cobrar. Vivemos num país rico, pagamos muitos, muitos impostos e temos de ver mudanças e melhorias em todos os contextos.

Está decepcionado com o que vê da Copa das Confederações até aqui?

Não que eu esteja decepcionado e estamos há um ano da Copa. Estamos em um evento teste que é a Copa das Confederações. Vemos muitos erros, muitos defeitos. A Copa do Mundo é sim um evento que pode ter nenhum tipo de erro.

De tudo que há de errado em relação à organização, qual é a principal que observou?

Principalmente acessibilidade. O transporte tem sido ruim e é do que a gente mais vê o povo reclamando.

Com esse posicionamento, pensa em se tornar político ou ocupar cargo público?

Não. Eu não tenho nenhuma pretensão de virar politico. Mas precisamos de políticos novos que olhem para o povo para fazer o que o povo quer. A minha história é uma história muito linda. Um sistema onde eui não queria estar.

O que acha da atuação do Romário como deputado federal e das críticas dele à Copa?

Não tenho absolutamente nada para falar do Romário. Mas eu vejo agora, não é o caso do Romário, mas vejo muita gente se aproveitando para tirar proveito do momento e ganhar uma medalhinha, dizer que é o pai da criança. Este é um momento de reflexão. De pensar soluções para melhorar o Brasil e não só apontando o dedo para fulano e ciclano, sendo que o Brasil precisa de mudanças. Gostaria de mudar, mas não tenho cargo publico e não sou político.

Mas você iria para a rua para se unir aos protestos?

Eu iria, mas não sei se ia dar certo. Ia ser um confuso e acho que ia até atrapalhar a manifestação. Estou vendo uma grande maioria fazendo um protesto pacifico e assim tem de ser.

Pelé disse que povo deveria esquecer protestos e abraçar a Copa. Concorda?

Eu não concordo com o Pelé. O Brasil não pode esperar. Lógico que o que ele diz, de tratar bem o turista isso tem de ser. Mas o Brasil acordou e não pode esperar. Hoje vemos o maior movimento popular dos últimos anos, talvez o maior da história. E veio tarde esse movimento. Temos de aproveitar ao máximo e exigir mudanças no país.

A delegação da Espanha foi furtada dentro do seu hotel em Recife. Que imagem isso passa para o exterior?

Foram assaltados? Eu não sabia. Mas a gente lamenta qualquer ato no nosso país, principalmente com uma delegação do exterior. É lamentável, mas isso está sujeito no mundo todo. Já fui roubado no quarto de hotel no exterior. Não é agradável ser furtado dos seus pertences, mas de qualquer maneira, estamos todos passíveis a isso.

Os jogadores da seleção são muitas vezes vistos com alienados. Eles devem se posicionar sobre os protestos?

Não acho que o jogador seja alienado. A questão é que nesse momento que eles estão focados na competição e é difícil dar opinião sobre outras coisas. Até porque o jogador de futebol tem um poder grande de influenciar pessoas. É um momento de esperar, de reflexão, saber se vai haver mudanças. Cada um tem o seu interesse. É muito individual isso.

Como vê as críticas ao seu papel no COL e a falta de transparência da entidade?

Todo mundo quer mudança. Eu no COL sou o primeiro voluntário. Não ganho um centavo e aquele que provar que ganhei um centavo do COL eu venho a publico e vou preso. Peço para ir preso. Eu não tenho o porquê. A minha função no COL foi sempre de levantar o Brasil. Levantar a auto-estima do Brasil, que o brasileiro se sinta orgulhoso de ser atenção do mundo. Sabia que ia ter a possibilidade de falar com o povo. A gente tem de aproveitar isso também.

Mas há protestos contra a Copa também…

Não é bem assim. Veja bem. O povo não é contra a Copa do Mundo. É contra a corrupção, a sacanagem, os hospitais ruins. É contra tudo isso. Quem de nós não ficou feliz quando foi decidido que a Copa seria no Brasil? Não teve ninguém que não comemorou e viu isso como uma oportunidade de crescimento. Mas sabemos como funcionam as coisas no Brasil. Sabemos que existe corrupção, desvio, o povo está cansado disso. Queremos ver os responsáveis por fraude presos. A gente não vê as reações e por isso o povo está na rua.

Você apoia o Andrés Sanchez para ser presidente da CBF?

Isso aí a gente fala mais para frente. Agora vão vir perguntas de tudo.

Mas o que você faz no COL exatamente? Há diferença entre o dia em que assumiu e agora?

A minha parte no COL eu não tenho feito quase nada. Agora estou só estudando os adversários e a seleção brasileira. Com o comitê fui a um ensaio dos voluntários em Brasília. Minha participação mudou porque participo mais publicamente do que internamente. Participei bastante motivando os voluntários para estar orgulhosos.

Você foi criticado por ser comentarista da Globo e sua agência trabalhar para alguns atletas, como vê as críticas sobre isso?

Qualquer coisa que eu faço serei criticado ou elogiado. É botar na balança. Eu boto na balança. Vou continuar sendo honesto e fiel à minha honra, independente do que eu faço. Não tem nenhum conflito nas coisas que eu me envolvo.

(Bruno Winckler – enviado iG a Salvador)