Leonardo HefferDo NE10/Ceará

Mais um dia de trânsito parado. Era assim para Aline Montenegro, que estava na Avenida Historiador Raimundo Girão, e quase nem baixou o vidro quando os manifestantes passavam para conversar conosco. “Eles ao menos sabem o que querem?”, disse ela.

Bastava olhar para os cartazaes, os vários, que lançavam mensagens que diziam o “gigante acordou”, mas poucos realmente davam o tom do protesto. Uma faixa no começo do protesto que dizia não à PEC 37 (que tira o poder de investigação do Ministério Público) se perdeu poucos minutos depois do mar de gente que partiu do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (que chegou a suspender os shows desta sexta – marcados há semanas – por questão de segurança).

Era muita gente. Estimativa giram em torno de 30 mil, mas pode ter sido muito mais. Afinal foi pouco espaço  para o aglomerado que se formava. Para quem conhece Fortaleza, a avenida Historiador Raimundo Girão ficou tomada entre a Avenida da Abolição até a estátua de Iracema guardiã, na Praia de Iracema.

A intenção é nobre. O manifesto dessa sexta-feira (21) tinha como objetivo protestar pela educação em Fortaleza e no Ceará. A página na internet tinha mais de 20 mil pessoas confirmadas até a manhã do protesto. Mas, de repente, o percurso se tornou do Dragão do Mar, avançar pela Praia de Iracema, chegar a Avenida Beira Mar, voltar pela Avenida da Abolição e terminar novamente na Praia de Iracema, no local onde será construído o Acquário do Ceará.

A discussão é que “se tem dinheiro pra construir um Aquário de US$ 250 milhões, porque não tem pra educação nem pra saúde”, afirmava um manifestante. O percurso era longo. No caminho, uma passada no hotel onde está hospedada a seleção espanhola. Eles, ao que parece, nem estavam lá, foram para o Centro de Treinamento, preparativos para o jogo de domingo em Fortaleza contra a Nigéria, mas mesmo assim, os manifestantes passaram e deram o recado. “Sejam bem vindos. Não somos contra vocês. Somos contra à corrupção no nosso governo e aos gastos supérfluos feito por eles”, afirmaram em coro.

Dali foram para o próximo ponto, que seria o final (pelo menos era o que se pensava): o Acquário. No caminho, os primeiros momentos de indecisão. Manifestantes, que aparentemente eram da organização (usavam motos como batedores, para verificar o melhor caminho e se estava livre ou não da polícia), não se decidiam quanto a qual percurso a tomar. Foi o memso que ver os primeiros momentos de divisão do grupo. Enquanto manifestantes seguiam pela Avenida da abolição para pegar a Avenida Monsenhor Tabosa, outra parte gritava “É por ali, é por ali”, na tentativa de guiar o grupo desgarrado para a Avenida Historiador Raimundo Girão.

O primeiro momento tenso do percurso foi quando manifestantes começaram a informar que a polícia estaria preparando o cerco do manifesto. Polícia? O efetivo estava apenas para proteger o patrimônio público. Nenhum deles chegou a barrar o percurso.

Na Historiador Raimundo Girãõp por volta das 19h30 (3h30min depois do início da caminhada), dois grupos de manifestantes se encontraram e o número de participantes aumentou ainda mais. Porém aumentaram as dúvidas. “Prefeitura”, gritavam uns. “Acquário” diziam outros. No fim, o futuro equipamento turístico foi o destino. Seguiram pela Historiador Raimundo Girão, Passaram pela Avenida Almirante Barroso, e chegaram ao equipamento.

Outro momento de indecisão e perda do controle. O Acquário, que seria o último ponto de protesto, se tornou apenas mais um. “Prefeitura”, gritavam uns. Como parte da organização permanecia fazendo ato em frente ao Acquário, os manifestantes que queriam ir para o paço municipal seguiram. E não teve outro jeito, senão seguir a grande maioria.

O percurso ainda foi pela Avenida Dom Manuel, Rua Costa Barros, até chegar ao Palácio. Sem pautas, os manifestantes nem chegaram a negociar com prefeitura, diferente do que havia acontecido na quinta-feira, em frente a Assembleia Legislativa.

VANDALISMO – Na Prefeitura, o protesto ganhou ares de vadalismo. Os que agiam na intenção de depredar o patrimônio, quebraram a barreira formada pela PM e foi necessário uso da força da PM. Bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e pela primeira vez o uso de balas de borrachas.

Por parte dos manifestantes, também foi a primeira vez que vidros, pregos e bombas caseiras foram arremessadas contra policiais. Com o vandalismo o movimento se dispersou. Permaneceram ainda alguns poucos, que foram novamente dispersados com a cavalaria da PM.