Estou em viagem acompanhando a seleção brasileira há duas semanas. Hoje me senti um correspondente de guerra. Escalado para cobrir a manifestação em Fortaleza, que reuniu cerca de 15 mil pessoas, vivi situações assustadoras. Bombas de efeito moral, gás de pimenta, gritos de pessoas desesperadas, e pedras voando.

Sobrou até pra mim: por volta das 13h30, precisava seguir para o estádio. Havia uma barreira policial, para conter o protesto. De longe, mostrei minha credencial. Um dos guardas acenou em sinal de ‘pode vir’. Bem rente ao muro, passei. Fui surpreendido com uma ‘borrachada’ na bunda. “O que eu fiz, amigo?”, questionei ao policial que me agrediu. “Passou, levou”, respondeu ele. Com dor, saí andando.

Foi só um dos problemas encontrados desde as 9h, quando cheguei para cobrir a manifestação, que naquele horário tinha cerca de 100 pessoas. Por volta do meio-dia, quando a multidão chegou ao encontro da barreira policial, tudo ainda era pacífico. Quem protestava pedia passagem. Os militares faziam a segurança. Por algum tempo, tudo seguiu sem violência. Eu avistei, então, alguns membros da cavalaria pedindo para a torcida passar. Era uma armadilha: quando poucos avançaram, bombas de efeito moral foram disparadas. O cheiro era horrível. Segundo alguns policiais, foi só um ‘revide’ a pedras que teriam sido lançadas anteriormente.

Saí correndo, com a mochila nas costas e telefone na mão, passando retorno à redação do UOL, em São Paulo, do que acontecia. Por 30 segundos, não consegui enxergar nada, e respirava com muita dificuldade. Gás de pimenta também tinha entrado na história. Vi muita, muita gente desesperada. Os donos das casas nos arredores abriam suas portas cedendo abrigo, distribuíam água e vinagre, para amenizar os efeitos.

Fui um dos abrigados. Uma senhora me entregou uma garrafa de vinagre. “Joga na roupa e respira. Me devolve a garrafa”, gritava. Fiquei ali por dois minutos. O cheiro começou a chegar até ali e nem mesmo o vinagre era suficiente mais. Corri e cheguei a uma avenida onde mais manifestantes se aglomeravam. Sentei na sombra, vi gente passando mal ao meu lado. De lá, ouvi bombas explodirem.

Após 20 minutos, parecia que a situação tinha acalmado. Levantei e fui me informar como seguir para o Castelão. Avistei, de longe, muita fumaça. Cheguei perto, vi que um carro da polícia havia sido incendiado. Manifestantes faziam festa, como se fosse um prêmio e uma resposta à violência.  De onde eu estava, vi pedras, chinelos e o que mais estivesse pela frente sendo jogados nos militares.

De novo, me afastei. Esperei o tumulto acalmar. Manifestantes recuaram e começaram a se dirigir para o ponto de onde tinham partido. Achei que era o momento de ir à Arena Castelão. Com medo, passei pela frente do protesto. Pessoas, ajoelhadas, gritavam “sem violência”. Após tomar o golpe de cassetete, andei cerca de dois quilômetros e cheguei ao estádio. Cansado, e ainda com os efeitos do gás e das bombas. Pelo menos agora consigo respirar.

POSIÇÃO DA POLÍCIA MILITAR

  • Integrante do comando da operação da Polícia Militar do Ceará que entrou em confronto com manifestantes no entorno do Castelão, o coronel Cesar Augusto afirmou que é um “caso isolado” a agressão sofrida pela reportagem do UOL Esporte e por pessoas que participavam do protesto em Fortaleza. “Você (jornalista) viu como estava a polícia aqui”, afirmou o coronel, numa referência ao que ele aponta como prudência para qualquer ação que fosse tomada. “Se aconteceu, vamos averiguar”, completou.

POSIÇÃO DO GOVERNADOR, CID GOMES

  • “Eu lamento profundamente o que aconteceu com você. A polícia, desde o começo, em nenhum momento tentou impedir a manifestação. Mas tinham pessoas com ingressos comprados que tinham o direito de ir ao jogo. A polícia tinha o dever de deixar que isso acontecesse. São pessoas agredidas também. Tomaram pedradas. Mas, de novo, lamento o que aconteceu”

Link: http://copadomundo.uol.com.br/

(Luis Paulo Montes, Do Uol, em Fortaleza)

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