Voz das ruas dá grito de igualdade; estudantes vocalizam trabalhadores de todos os segmentos ao protestarem, no eixo São Paulo-Rio e em grandes capitais, contra sistema de ônibus caro, ruim e insuficiente; criminalizado nas ações brutalmente repressivas da PM dos governadores Geraldo Alckmin e Sergio Cabral, Movimento Passe Livre resgata vocação dos jovens em mudar e acelerar agenda conservadora; erro está em reclamar ou na barração ao diálogo para se encontrar soluções sobre problema crônico que envergonha o País? 

15 DE JUNHO DE 2013  

247 – Rasgando uma cortina de gás lacrimogêneo, manchada de sangue e ao custo de centenas de prisões ocorridas no principal eixo urbano do País – São Paulo-Rio de Janeiro -, a questão do transporte coletivo nos grandes centros urbanos ressurgiu. Ou melhor, literalmente explodiu.

Tiveram muito mais o som de um clamor popular do que simplesmente um ato político estudantil as manifestações dos últimos dias, ocorridas também em Porto Alegre, Goiânia e Natal, contra o aumento das passagens de ônibus. Em apuração do instituto Datafolha, 78% do público paulistano considerou serem justos os protestos contra o aumento nas tarifas e a baixa qualidade do serviço oferecido.

Em qualquer grau, a repressão policial não terá o dom de resolver esse problema. Porque se trata de uma questão real, e não inventada por um punhado de jovens de classe média interessados apenas em fazer baderna. Ao contrário. Assim como, noutra geração de estudantes, na virada das décadas de 1970 e 1980, os rapazes e garotas que foram às ruas ajudaram a conseguir a anistia e, mais tarde, sustentaram a campanha das Diretas Já, agora, outra vez, eles não estão sozinhos. Ao seu modo, eles estão forjando uma mudança na agenda conservadora, para dar a ela aceleração compatível com o novo momento do Brasil.

DESCASO COMO REGRA – É histórico e reconhecido tanto pelo governo, como pela oposição, o descaso permanente das administrações municipais e estaduais com os serviços de ônibus, trens e metrô. Em São Paulo, há quase 50 anos prevalece o cartel das chamadas “sete irmãs”, as companhias de transporte coletivo sobre rodas que dominam a grande maioria das linhas da capital paulista.

No Rio de Janeiro, a população se acostumou a ter a maior desconfiança do seu sistema de ônibus, com raras opções para se locomover além da costumeira: a de chacoalhar ainda hoje em trens da década de 1950 pela crônica falta de linhas entre os subúrbios e o centro da cidade.

Em praticamente todas as capitais, licitações para modernização do sistema de transporte urbano têm sido raras, assim como são comuns os descalabros em torno de obras do metrô. Neste capítulo, Salvador, a capital baiana, que em dez anos construiu apenas pouco mais de um quilômetro de metrô, a preço bilionário, é o exemplo negativo mais gritante.

RENOVAÇÃO E AR CONDICIONADO – A exceção positiva está em Brasília. O Governo do Distrito Federal, depois de enfrentar boicotes do duopólio das companhias de ônibus das famílias Canhedo e Constantino, que dominam o sistema desde a fundação da cidade, em 1960, empreendeu uma licitação internacional que vai mudar, no segundo semestre, a face da atual situação.

Em lugar de ônibus com carcaças antigas, assentos desconfortáveis, pneus carecas e sem conexão entre suas linhas, a capital do País vai ganhar coletivos novos, com ar condicionado e integração de itinerários. Uma verdadeira revolução feita pelo Governo do Distrito Federal que, espera-se, tenha repercussões em outras grandes cidades. Uma mensagem didática de que, quando quer, a administração pública pode atacar o quadro de atraso cinquentenário verificado no setor.

Mas essa repercussão positiva não será fácil de ocorrer. Predominam entre os governantes interpretações arcaicas a respeito do verdadeiro sacrifício diário a que milhões de brasileiros são submetidos, todos os dias, ao saírem de suas casas em direção a seus postos de trabalho. Em coletivos antiquados, inseguros e superlotados, cujas tarifas demandam, por caras, acordos trabalhistas específicos, de modo a aliviar o bolso dos empregados, transferindo o ônus para a iniciativa privada, a verdade é que, todos os dias, em todos os grandes centros urbanos, o povo brasileiro viaja como gado. A questão dos subsídios tem de ser enfrentada. A má qualidade do sistema já não é mais aceita.

PERDAS DE QUATRO HORAS DIÁRIAS – Em São Paulo e no Rio chega-se a gastar duas horas de ida e outras duas horas de volta no deslocamento residência-emprego-residência. Assaltos, sequestros e até estupros viraram rotina. Quem já não ouviu relatos que afiançam esta informação? Trata-se de um dado da realidade, lançado como imutável. Não fosse assim, as primeiras reações dos governadores dos dois Estados, respectivamente Geraldo Alckmin e Sergio Cabral, não teria sido a de criminalizar o Movimento Passe Livre. O diálogo para entender as razões das entidades organizadas em torno dessa bandeira ficou, desde logo, em segundo plano. Armou-se a guerra antes de se dar uma chance à paz. O cenário para que a situação durante os protestos saísse de controle, com as cenas de violência que se seguiram, se desenhou neste momento em que as portas da negociação se mantiveram fechadas.

Da direita à esquerda, o que ressalta nas manifestações contra o aumento nas tarifas de ônibus é a sua base de sustentação. Goste-se ou não, os estudantes à frente tem, sim, justificativas históricas para reclamar em vias públicas. Não apenas porque a Constituição garante os direitos de reunião e manifestação, mas sobretudo porque apenas os hipócritas acreditam que o Brasil em algum momento de sua história tenha tido algum transporte coletivo minimamente decente. Os sistemas nacionais nunca chegaram aos pés dos existentes em nossos vizinhos, como a Argentina, de metrô buonairense datado do início do século passado, e, muito menos, dos Estado do primeiro mundo. Os trens balas que cortam o Japão, numa extrema sofisticação de um transporte coletivo bem resolvido, são ainda vistos no Brasil do século 21 como uma sonho inalcançável. No emergentes, o metrô russo é repleto de afrescos históricos. Os exemplos de soluções são muitos. Por aqui, entretanto, o que temos é pouco metrô e ônibus fortemente poluentes. Não mais.

Por sorte sem nenhum morto, mas com dezenas de feridos e centenas de presos, as manifestações nacionais do Movimento Passe Livre parecem ter despertado as autoridades para o problema. Em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad resolveu abrir a palavra para seus representantes, que na terça-feira próxima falarão aos integrantes do Conselho da Cidade. É pouco? Sim, mas um começo que pode desaguar, como está acontecendo em Brasília, numa ampla renovação do velho e ultrapassado sistema de ônibus. Tardiamente, mesmo assim ainda é possível ultrapassar o modelo caótico que, de tempos em tempos, provoca manifestações e protestos. Repressão está trazendo, apenas, dor, vergonha e radicalização. Nenhuma solução.

(Brasil 247)