Por Emerson Urizzi Cervi | Pensata

Bastaram chegar os novos meios de comunicação para os catastrofistas assegurarem que a imprensa estava com os dias contados. A internet engoliria a acabaria com tudo o que conhecemos até então como jornalismo no século XX, por ser mais rápida, barata e ágil. Não foram poucos os movimentos de boicote, no início, de jornais tradicionais e jornalistas aos novos meios. Porém, derrotados, todos aceitaram o lento e arrebatador trem da história. Os jornais migraram suas plataformas para a web, em especial para a interface internet. Alguns, rendidos economicamente, encerraram a circulação em papel e permanecem apenas como meios eletrônicos. Isso acabou gerando um efeito contrário ao que fora previsto pelos catastrofistas: o jornalismo se ampliou, diversificou suas fontes, tornou-se mais democrático e, principalmente, os jornalistas dos meios tradicionais passaram a enfrentar uma concorrência real – pela primeira vez na história da imprensa – de outra fonte de informação de massa, a dos produtores independentes de informações, também chamados de blogueiros.

 

O que seria motivo para a crise final do jornalismo acabou se transformando no principal fator de renovação da produção jornalística. Agora, não são mais as notícias produzidas nas redações dos jornais tradicionais as únicas fontes de informação. Aliás, foi preciso uma revolução como essa para muitos profissionais entenderem que notícia é um produto cuja matéria-prima é a informação, porém, não dá para acreditar as que se trata da mesma coisa. É verdade que não existe notícia sem informação, porém, nem toda informação está contida nas notícias. O noticiário nada mais é do que uma formatação específica, dada por profissionais e técnicas próprias, de informações. O que significa que qualquer pessoa é capaz de produzir informação de interesse público. Porém, só os jornalistas o fazem a partir da produção de notícias. Até o advento da internet essa diferenciação era difícil de ser materializada, pois não existiam meios com poder suficiente para difundir informações na sociedade que não fosse através das notícias, portanto, mediadas pelos profissionais e instituições jornalísticas. A principal mudança promovida pela internet foi permitir o acesso a informações que não receberam tratamento jornalístico. São diferentes de notícias, mas, ainda assim, dotadas de informação.

 

A consequência das mudanças promovidas pela internet foi que a sociedade passou a ter uma maior diversidade de visões de mundo nas informações que recebe e faz circular no espaço público. Para a sociedade que demanda informações isso não é melhor, nem pior que o momento anterior. É apenas diferente. Para o jornalismo tradicional, trata-se de um desafio. Os informantes sociais independentes, na internet chamados de blogueiros, concorrem diretamente com o jornalismo profissional. Foi essa concorrência que nos mostrou a verdadeira crise do jornalismo contemporâneo. Uma crise que não está relacionada com o meio de difusão dos conteúdos, mas sim com a forma de produzi-los.

 

O padrão de jornalismo dos anos 50 do século passado não se sustenta mais por ser um modelo inapropriado de produção de informações para a sociedade que tem formas alternativas de se informar. São necessários novos métodos, novas hierarquias, novas rotinas produtivas. Enfim, novas organizações informativas. Esse desafio é o motor para uma nova etapa do jornalismo na internet. A primeira delas foi a rejeição ao novo meio. Depois, veio a adaptação dos meios tradicionais ao formato da interface específica da web. O resultado foi uma mudança na roupagem das notícias, mas com preservação de um modelo de produção insustentável. A terceira etapa é a do surgimento de veículos noticiosos específicos da internet, sem existência fora da rede mundial de computadores. Desses “novos jornais” esperam-se práticas de produção e difusão de notícias mais próximas dos blogs do que dos jornalões tradicionais. Se não for assim, Não estarão cumprindo o papel de atualizar o jornalismo aos novos meios e aos novos tempos. A Gralha tem esse desafio à frente. O de produzir um jornalismo atualizado, não só pelo meio de difusão, mas principalmente pelas formas de produção da notícia. Um bom ponto de partida seria a diferenciação temática e de fontes de informação presentes nos meios de comunicação tradicionais. Se não fizer isso, estará apenas reproduzindo um modelo em crise.

 

Os gráficos a seguir são resultado de uma pesquisa realizada em 2011 por alunos dos cursos de comunicação social da Universidade Estadual de Ponta Grossa e de ciências sociais da Universidade Federal do Paraná. É um estudo da tematização dos impressos brasileiros. Para isso, foram coletadas as informações de todas as chamadas de primeira página publicadas entre janeiro e outubro de 2011 em seis jornais diários brasileiros, dois com circulação nacional (Folha de São Paulo e Estado de São Paulo), dois com circulação regional (Gazeta do Povo e Folha de Londrina) e dois com circulação local, apenas na região dos Campos Gerais do Paraná (Diário dos Campos e Jornal da Manhã). Ao todo, os seis jornais publicaram mais de 18 mil chamadas de notícias nos 10 meses analisados. Os assuntos dessas chamadas foram classificados em função do tema predominante em “partidos políticos”, quando tratavam da vida partidária; em “ético e político institucional”, quando falavam das instituições estatais brasileiras; em “políticas públicas”, quando predominava um tema de qualquer uma das principais políticas públicas, tais como educação, segurança, saúde, etc…; em “internacional”, quando o assunto se referia a outro país; em “variedade e esportes”, quando tratava de assuntos sem importância para o debate público, como vida de esportistas, resultados de jogos, celebridades, etc…; e “outro” caso não se enquadrasse em nenhuma das categorias anteriores.

 

 

A primeira informação extraída do gráfico é que de maneira geral os jornais ocupam suas primeiras páginas mais ou menos com a mesma proporção de determinada temática. Excetuando a presença do tema “internacional” nos dois jornais de circulação nacional (FSP e OESP), os veículos de comunicação reproduziram de forma muito similar os temas gerais apresentados ao debate público. A maior proporção foi de chamadas sobre “políticas públicas”, seguidas muito de perto das chamadas sobre “variedades e esportes”. Em terceiro lugar vem “ético e político institucional”. Uma conclusão possível a partir desse gráfico é que o tema “políticas públicas” não predomina nas capas dos periódicos. Ele tem uma participação maior nos jornais de circulação local do que nos nacionais, é verdade. No entanto, continua girando em torno da metade do total de chamadas nos jornais de circulação limitada e em torno de 1/3 nos de circulação nacional. Além disso, a proporção de chamadas sobre “variedades e esportes” manteve-se estável em todos os jornais analisados, girando em torno de ¼ do total, ou seja, 25% do espaço nobre das capas dos diários tradicionais é ocupado por temas com apelo comercial e nenhuma relevância para o debate público.

 

Além da tematização, que pode ser mais ou menos concentrada em determinado conjunto de assuntos, outro indicador da qualidade do serviço prestado pelo jornalismo é a presença de fontes no noticiário. Quanto maior a diversidade daqueles que “falam” nas notícias, mais plural está sendo a cobertura jornalística. Seguindo uma classificação presente na literatura internacional a pesquisa coletou informações sobre todas as fontes citadas nas primeiras páginas dos seis jornais durante o período analisado. Essas fontes foram categorizadas em três tipos: “fontes oficiais”, são as que falam em nome de uma instituição, são representantes institucionais, pode ser o presidente da república ou o presidente da associação de moradores local; “fontes disruptivas”, são as que falam por serem identificadas com algum distúrbio social, como manifestantes em vias públicas, grevistas, etc…; e “cidadão individualizado”, é a fonte citada não por promover algum distúrbio social, nem por representar uma instituição. Ela é procurada pelos jornalistas por ser especialista em determinado assunto. A primeira informação importante extraída da pesquisa é que apenas 10% das chamadas de capa dos jornais citam alguma fonte externa aos jornalistas, ou seja, a capa é o espaço por natureza da visão de mundo do próprio jornalista.

 

 

Ao considerarmos apenas as chamadas com presença de fontes, percebemos que em todos os jornais há um predomínio das fontes oficiais. Esse predomínio é maior nos jornais de circulação local, representando 90% do total. Nos jornais de circulação nacional as fontes oficiais são responsáveis por 50% do total e nos jornais de circulação regional, por cerca de 30% do total. Nos jornais de circulação regional há predomínio de fontes disruptivas sociais. Mas, em todos eles os especialistas (cidadão individualizado) têm presença secundária ou irrelevante.

 

O resultado, válidos para as capas dos seis jornais no período analisado, é que os periódicos de circulação local dão mais espaço proporcional para temas de política pública, porém, restritos à visão das fontes oficiais. Já os periódicos de circulação regional falam menos de políticas públicas e dão mais espaço para eventos factuais que envolvem algum transtorno no cotidiano da sociedade. Enquanto isso, os jornais de circulação nacional dão mais espaço para especialistas, porém, para falar sobre outros temas que não políticas públicas. Isso ajuda a entender porque houve uma redução na qualidade do debate público a partir dos meios jornalísticos tradicionais. O desafio do novo jornalismo, o jornalismo que não precisa respeitar as hierarquias, práticas e rotinas produtivas tradicionais e produzir notícias que sejam mais socialmente relevantes, menos dependentes do mercado e com maior pluralidade de visões de mundo. Esse é o desafio do A Gralha.

 

Emerson Urizzi Cervi é cientista político e professor da UFPR.