Joana Fomm quer viver uma velinha na TV (Foto: Isac Luz / EGO)

Aos 73 anos, Joana Fomm acaba de vencer a luta contra um câncer de mama. A doença, descoberta em 2007, a obrigou a se afastar da televisão e a se submeter a cinco cirurgias para corrigir os seios mastectomizados. Quando o tratamento do câncer chegou ao fim, a atriz descobriu que sofria de disautonomia. A doença afeta o sistema nervoso e compromete os movimentos do corpo. “Foi mais difícil de aguentar do que o câncer pelo fato de não ter cura”, afirma Joana.

A atriz notou que algo não ia bem quando, na praia, era derrubada pela marolinha das ondas do mar. Ao cair na areia, ela não tinha forças para se levantar. Para gravar “As Cariocas”, em 2010, aceitou a oferta do diretor Daniel Filho para atuar sentada em uma cadeira no set. “Meus músculos não tinham força para me sustentar e eu podia desabar a qualquer momento”, lembra.

Recuperada do câncer e com a disautonomia controlada, Joana quer trabalhar. Ela mora em um apartamento no Alto Leblon, na Zona Sul do Rio, com o único filho, o músico Gabriel, de 38 anos, e o gato Tom Jobim. Cada vez mais reclusa, a atriz vai lançar um livro de poemas e passa horas assistindo a séries e programas de entrevista na TV por assinatura. Em entrevista ao EGO, a intérprete de vilãs memoráveis como Perpétua, de “Tieta”, e Yolanda Pratini, de “Dancin’ Days”, contou seu drama:

EGO: O que você tem feito?
Joana Fomm: Acabei de escrever um livro. Costumo escrever poemas no Facebook e um editor me convidou para publicá-los. Escrevo coisas sem censura, loucas. Também faço pilates para recuperar meus músculos, pois emagreci muito por causa da doença. Tenho visto muita TV. Gosto de programas de entrevistas e retomei o gosto de assistir a novelas desde “Avenida Brasil”. Em “Amor à Vida” torço para o personagem do Luis Melo, Atílio, não morrer porque ele está fantástico”.

Você tem saudades de fazer uma novela?
Tenho. Gosto muito de novela. E quanto mais inteligente ela for, melhor. Há bastante tempo posso voltar. Já estou apta a tudo. Mas ninguém me chamou ainda. Meu contrato na Rede Globo termina agora. Quero trabalhar.

Como foi vivenciar o câncer?
O câncer foi a coisa que menos me deu trabalho. Ele não era invasivo. Não havia risco de progredir e nunca fiz quimioterapia. Durante cinco anos tomei um remédio que minha médica chamava de “quimiozinha”. Tomava uma pílula em casa. O que me atrapalhou profissionalmente foi a disautonomia, que te deixa sem parâmetros. É uma doença do seu sistema imune e causa uma queda de pressão  grande que te faz desmaiar. Levei muito tombo antes de saber que aquilo era a doença. Achava que estava “lelé e gagá”. Mas na verdade era o desequilíbrio da doença. A disautonomia foi mais difícil de aguentar pelo fato de não ter cura. Você pode tomar o remédio para equilibrar, mas é que nem pressão alta e diabetes. É preciso ficar de olho.

E como está a sua saúde hoje?
Agora me sinto bem. Antes caía como banana de bananeira. Desabava! Hoje já faço ginástica, consigo correr e quero fazer mais atividade física.

Como a disautonomia se manifestou?
Quando fiquei boa do câncer e recebi licença para ir à praia, entrei no mar, dei um mergulho e saí. Ao tentar levantar, a marolinha da beira do mar me derrubava. Foi aí que comecei a ficar encucada. Me perguntava: “Será que estou tão fraca assim?”. Era a disautonomia. Comecei a ter muita queda e meu médico mandou fazer um exame. O exame me deixava deitada, amarrada em uma tábua, e a minha pressão era monitorada. Quando me levantaram, a minha pressão marcava 7 por 3. Aí o médico diagnosticou a doença e isso me impediu de trabalhar. A doença te faz perder a força dos braços e das pernas. Quando fui para São Paulo sozinha me tratar, o que foi uma temeridade, ficava sozinha no apart hotel e saia para comer pizza. Caía no chão da rua e ficava esperando alguém passar porque não conseguia me levantar. Em casa, tomava banho na banheira e não conseguia sair de dentro dela. Tinha que esperar meu filho chegar três horas depois para me tirar de lá. Comecei a levar o celular para o banho e assim chamar a minha empregada para me ajudar.

Joana Fomm  (Foto: Isac Luz / EGO)
A atriz mantém o mesmo manequim do passado

Como você analisa essa fase?
Foi muito, muito triste. Quando o câncer foi embora, fiquei com defeito nos seios (ela fez mastectomia nas duas mamas). Fui para outro médico para corrigir esse defeito e ficou pior. Melhorou o lado de cá (seio direito), mas esse aqui (esquerdo) ainda está horrível. Eu sei que pode parecer bobagem fazer tanta operação (Joana se submeteu a cinco cirurgias para corrigir a mastectomia dos dois seios) para ficar bem, mas não é. Você quer ficar legal e faz operação até ficar bem. Mas ainda falta uma cirurgia.

O que você achou da decisão de Angelina Jolie de fazer a mastectomia nos dois seios para evitar o câncer?
Ela está tão correta! Porque ela fez uma escolha deslumbrante. Há o risco de ela ter câncer. O que é melhor? Fazer antes, tirar tudo logo, colocar prótese, ficar tudo lindo ou esperar vir o câncer para tirar o seio e aí a cirurgia não deixar os seios perfeitos? Achei maravilhoso. Conheço pessoas no Brasil que fizeram isso. Se eu tivesse sabido antes, faria a mesma coisa.

Você desconfia do motivo que a fez desenvolver o câncer?

Acho que bobeei porque deixei de fazer o exame de mama durante um ano. Quando fui fazer já tinha a doença. Foi minha irresponsabilidade ter deixado de fazer o exame anual. Eu também tomei hormônio durante muitos anos e entrei pelo cano. Tomava os hormônios para a pele ficar mais jovem e para ter uma umidificação maior na vagina, porque nunca sofri os sintomas da menopausa.

Como você recuperou a autoestima após a doença?
Foi na segunda aula de pilates. Na primeira fiquei muito cansada. Depois parecia que tinha soltado as coisas que estavam firmadas no meu corpo. Saí de lá descendo a escada meio correndo. Comecei o pilates há seis meses. É muito bom!

Você tem uma vida social ativa?
Nunca tive vida social muito intensa. Pelo incrível que pareça, apesar da minha idade e da profissão que tenho, sou tímida. Não vou à festa, não vou a lugar que tenha muita gente, agora então só quero dormir na gaiola (risos). Não saio daqui de jeito nenhum. Saio para ir ao cinema. Aproveito quando quero ir ao médico para fazer algumas loucuras, como comer doce.

Você está solteira?

Estava namorando quando fiquei com câncer. Mas eu briguei com ele. Um dia o meu médico me disse: “Se o namorado dá mais problema que a doença, chuta o namorado”. Chutei. Acho que nós nos gostávamos muito, mas ficou insuportável.  Desconfio que ele esteja maluco até hoje. Ele começou a beber, entrou em um caminho que eu, com os meus problemas, não poderia jamais segurar os dele. E acho que ele queria isso, que eu fosse o seu braço forte. Mas eu estava louca para ter um braço forte. Aí, não namorei mais. Até porque não saí de casa. Namorei bastante por telefone e vou ver se recupero esse seio novamente para voltar a namorar. Porque com esse aqui (aponta para o seio esquerdo) não tenho coragem de namorar. Agora estou namorando pelo telefone.

Quem é ele?
Ah, isso é segredo. Mas é bom.

Você não sentiu falta de um namorado para ajudar a enfrentar a doença?
O que mais me prejudicou durante essa fase em que estive doente foi não ter essa pessoa. Se eu tivesse um namorado, um amante, um amigo que me amparasse, que segurasse a minha  barra, teria sido ótimo. Mas não tive ninguém presente. Foi bem difícil.

A doença que tenho não tem cura. Tenho que tomar remédio pelo resto da minha vida para controlá-la.”
Joana

O seu filho não te apoiou?
Ele me dava apoio do jeito dele. Meu filho é músico e sabe como é músico, né? Quem me dava apoio sempre era o meu gato, Tom Jobim, que percebeu que alguma coisa não estava ocorrendo direito comigo e não me larga mais.

O que falta fazer na vida?
Além de comer e beber? Namorar. Não gosto muito de experimentar coisas que me tirem da realidade. Uma vez tomei lisérgico injetável com um médico e cheguei à conclusão que era péssimo. Tomei por experiência. Era um psicanalista de São Paulo que cuidava de pacientes com lisérgico. A classe artística inteira foi para ele e a maioria ficou muito mal. Tomei quatro vezes. Você fica com percepção de cor incrível. Olha para o mato e vê 700 mil cores entre os verdes. Olha para madeira da porta e vê todos os veios e vários desenhos que não enxerga normalmente. Mas quando a viagem é ruim, é ruim. Comecei a sentir arrepio nas costas por todas as covardias que tinha tido e é um inferno, é muito ruim. Achava que ia ficar sadia e que podia ser minha cura.

A falta de trabalho a assusta?
Me assusta ficar sem trabalhar porque vivo disso. A doença que tenho não tem cura. Tenho que tomar remédio pelo resto da minha vida para controlá-la. O último trabalho que fiz foi do Daniel Filho em “As Cariocas” (2010). Naquela época, estava muito mal de disautonomia. Mal conseguia ficar em pé. O Daniel foi maravilhoso. Para eu poder gravar, ele deixava uma cadeira sempre perto de mim e eu fiz bem o papel (ela foi Denise, mãe da personagem Michele, interpretada por Grazi Massafera). Hoje gostaria de viver uma velhinha no programa do Eduardo Moscovis (“Louco por Elas”).

E qual é o saldo que você tira de tudo que viveu?
Está  bom, mas quero mais.

(Portal Ego/Globo)

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