Pesquisa do Procon Municipal pesquisou 69 estabelecimentos por telefone, via tabela de preços e recepcionistas

Imagine a seguinte situação: você pretende se hospedar em um hotel de Fortaleza e liga para saber quanto custa uma diária no estabelecimento. Ao chegar no local, porém, o recepcionista informa que o valor é completamente diferente do que foi informado, seja para mais ou para menos. Conforme o Procon da Capital, essa é uma situação mais comum do que se imagina e que pode gerar problemas para os visitantes. Para se ter uma ideia, pesquisa realizada pelo órgão, entre os dias 23 e 27 de maio último, revelou que há diferença de até 180% no preço divulgado por telefone e aquele constatado em visita presencial.

É o caso do hotel Iracema Beach (quatro estrelas), localizado na Avenida Beira-Mar, que, segundo o Procon, informou por telefone que a diária em um quarto simples sairia por R$ 560. Ao fazer a pesquisa presencial, porém, o órgão registrou o valor de R$ 200 para o mesmo serviço, o que fez o estabelecimento apresentar a maior discrepância de valores (180%) entre os 69 hotéis apurados no levantamento. Para o quarto duplo, a diferença alcançou o patamar de 134% no mesmo estabelecimento.

Diferenças

Entre os hotéis de cinco estrelas, a maior diferença foi registrada no Gran Marquise, já que por telefone o valor de um quarto simples saía por R$ 1.029,25 e na consulta presencial o preço era de R$ 460 (124%). Na categoria três estrelas, o destaque negativo ficou por conta do Maredomus Hotel, com valores variando de R$ 268 para R$ 183 para um mesmo serviço (diferença de 32%).

A reportagem entrou em contato com os três estabelecimentos para saber o posicionamento dos hotéis sobre a pesquisa, mas nenhum porta-voz foi encontrado até o fechamento da edição.

Ainda entre os hotéis de quatro estrelas pesquisados pelo órgão, outros 14 estabelecimentos apresentaram valores diferentes na comparação das consultas por telefone e presenciais, seja para quartos simples ou duplos. Segundo o Procon, o levantamento deve ficar disponível integralmente nesta manhã no seu respectivo site (www.fortaleza.ce.gov.br/procon).

O que fazer?

Caso alguém se depare com uma situação onde exista diferença entre os valores cobrados por um mesmo serviço, o coordenador geral do Procon Fortaleza, George Valentim, ressalta que o consumidor tem o direito de optar pelo menor valor.

“Constatamos uma discrepância enorme entre formas diferentes de contratação dos serviços de hotel e é importante esclarecer que as pessoas têm respaldo, por força da lei federal e do Código de Defesa do Consumidor, a fazer opção pelo valor mais barato”, afirma Valentim.

Falta de informação

A pesquisa do Procon também constatou outra infração entre alguns dos estabelecimentos pesquisados em Fortaleza: a não exposição dos preços das diárias no saguão. De acordo com a coordenadora do Núcleo de Educação do Consumidor (Educom) da UFC, Shandra Carmen Aguiar, isso infringe o Código de Defesa do Consumidor.

“Essa falta de informação vai contra o artigos 6º e 31º do Código, que definem como direitos básicos do consumidor o acesso a dados adequados e claros sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, característica, composição, qualidade e preço”, explica Shandra Aguiar.

Conforme o levantamento do Procon, 19 estabelecimentos apresentaram tal infração.

Abih se defende

Questionado sobre os dados levantados pelo Procon, o vice-presidente da Associação brasileira da Indústria de Hotéis no Ceará (Abih-CE), Régis Medeiros, disse que a diferença pode ser explicada por uma falta de negociação entre os consumidores e os estabelecimentos. “Quando fazemos uma ligação simplesmente para perguntar o valor da diária, geralmente quem atende diz apenas o preço de tabela. Acontece que, muitas vezes, os hotéis acabam pedindo preços menores na prática ou negociando descontos com o cliente”, avisa. Régis também condenou os estabelecimentos que não possuem os preços expostos no saguão e garantiu que todos os hotéis filiados à Associação cumprem a lei. “Acredito que os problemas são pontuais, até porque, quem não exibe os valores, está fora do padrão”, comenta.

Preços

Além de conferir diferenças entre o que é divulgado por telefone e o que é cobrado no balcão, a pesquisa do Procon mostrou como andam os preços dos hotéis de Fortaleza. Entre os quatro estrelas, as diárias variaram de R$ 176 a R$ 560. Nos mais refinados, de cinco estrelas, os valores foram de R$ 314 a R$ 1.029.

ÁQUILA LEITE
REPÓRTER

O QUE ELES PENSAM

Direitos devem ser respeitados

“Colocar o preço da diária exposto e bem visível no saguão do hotel é obrigação de todos os estabelecimentos e isso não está sendo respeitado por diversos hotéis de Fortaleza. Com base no artigo 6º do Código de Defesa do Consumidor, os clientes têm direito à informação clara e adequada sobre os diferentes produtos e serviços. Nenhum local pode omitir isso”

Shandra Carmen Aguiar
Coordenadora do Educom da UFC

“Em um momento em que Fortaleza está prestes a receber uma grande quantidade de turistas, principalmente por conta da Copa das Confederações e das férias escolares de julho, é importante esclarecermos que o consumidor tem direito a optar pelo menor valor, caso se depare com preços contraditórios entre as formas diferentes de contratação dos serviços”

George Valentim
Coordenador geral do Procon Fortaleza

Entidades do setor defendem tarifas

Para entidades do setor hoteleiro nacional, as tarifas dos meios de hospedagem durante a Copa das Confederações e a Copa do Mundo que foram recentemente divulgadas em âmbito nacional como praticados por alguns meios de hospedagem não refletem a realidade da média de preços cobrados pela maioria dos hoteleiros no País.

Segundo o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (Fohb), a Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) e a Resorts Brasil, os preços mostrados por essas pesquisas, na maioria das vezes, não condizem com o que é realmente praticado no setor, mesmo que este atue dentro de uma realidade de mercado regida pela oferta e pela procura.

Em nota conjunta, as entidades afirmam que as tarifas hoteleiras praticadas durante os dois eventos esportivos “se encontram dentro de uma margem perfeitamente aceitável e justa, levando em conta o padrão dos hotéis, qualidade dos serviços, localização e a alta demanda gerada pelos próprios eventos”.

As quatro entidades que representam o setor hoteleiro no País explicam que as tarifas praticadas durante o período dos dois eventos foram comercialmente negociadas pela MATCH Services (empresa oficial da Fifa para assuntos relacionados a acomodações nos campeonatos mundiais de futebol) diretamente com os hotéis selecionados e estão disponíveis para consulta no site da empresa (www.match-ag.com). “Eventuais distorções podem estar fora desse contexto que engloba grande parte dos empreendimentos hoteleiros envolvidos”, ressaltam.

Investimentos

Ainda conforme as entidades, o parque hoteleiro do Brasil está preparado para hospedar os turistas que assistirão aos à Copa das Confederações e à Copa do Mundo. Isso “graças a investimentos privados da ordem de R$ 7 bilhões feitos pelo setor”.

Por fim, as entidades enfatizam que a hotelaria gera um milhão de empregos no País e que, para cada R$ 1,00 em circulação no setor, R$ 1,80 são gerados na economia. “O segmento seguirá investindo no aperfeiçoamento dos serviços e na sua própria expansão, ciente de que o retorno é uma conquista que se dá no longo prazo e não apenas em oportunidades sazonais”, finalizam.

(Diário do Nordeste)

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