Arena Castelão é a única obra entregue para o Mundial em Fortaleza. A cidade agora corre contra o tempo

Em 30 de outubro de 2007, o Brasil garantia o direito de sediar a Copa do Mundo do ainda distante ano de 2014. Restavam, naquele momento, 2.052 dias para o Mundial da Fifa.

Fortaleza ainda ansiava ser escolhida como cidade-sede _ o que seria confirmado em 31 de maio de 2009 _ e começava a listar os obstáculos a serem superados nos mais diversos níveis da sociedade para adequar o município para receber o torneio.

Hoje, restam 365 para a Copa do Mundo e, nesses 1.687 dias que se passaram, Fortaleza acumulou elogios e críticas, sendo elevada ao status de protagonista do campeonato, com seis jogos confirmados na competição, dos quais um da Seleção Brasileira na primeira fase, podendo receber outra vez o time de Luiz Felipe Scolari nas oitavas ou nas quartas-de-final.

Pesaram a favor da Capital a velocidade para cumprir os compromissos da Arena Castelão. Contudo, por outro lado, a dificuldade para gerir e desenvolver intervenções de mobilidade urbana é a outra face que a cidade mostra para o planeta, restando um ano para o evento.

Falta resultado

Às vésperas da Copa das Confederações, nenhuma obra de mobilidade urbana foi entregue em Fortaleza. Finalizada em dezembro de 2012, a Arena Castelão foi a exceção ao atraso.

Segundo o Portal da Transparência, R$ 486,9 milhões saíram dos cofres públicos para modernizar a praça esportiva. Em contrapartida, para estruturar a cidade, é previsto um gasto pouco maior, de, aproximadamente, R$ 586,7 milhões.

Para o jornalista esportivo Mauro Cezar Pereira, dos canais ESPN, os dados evidenciam um infeliz contraste de interesses nos bastidores do Mundial.

“Isso é uma contradição. Este é o retrato de o que pensam nossos governantes. Gastam milhões em uma obra, como foi no Castelão, e praticamente o mesmo montante é desembolsado para obras fundamentais para a sociedade. O retorno do estádio é mínimo; ele será usado uma vez por semana e por poucos, enquanto uma avenida, por exemplo, é usada diariamente e por milhões de pessoas”, avalia.

Já o secretário especial da Copa, Ferruccio Feitosa, mantém a confiança de que tudo estará pronto e ressalta obras realizadas pelo o Governo do Estado como pontos de auxílio para aprimorar o deslocamento na Capital, como a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).

“Estou certo de que tudo estará inaugurado em 2014. Está mantido o prazo para a linha Parangaba/ Mucuripe do VLT e confio no trabalho realizado pela prefeitura. As obras de mobilidade municipais casarão muito bem com as do Estado”

As intervenções de responsabilidade da Prefeitura de Fortaleza passaram por problemas de execução e evoluíram com mais destaque apenas em 2013.

Fortaleza impedida de cometer novos equívocos

A Arena Castelão colhe os frutos por ter sido o primeiro estádio pronto para a Copa do Mundo e Copa das Confederações. Um dos principais pontos positivos por ter honrado a meta de entrega foi a possibilidade de realização de testes preparatórios para os torneios internacionais que Fortaleza sediará. Isso, porém, deixa a cidade com a obrigação de não cometer mais erros.

Ao longo de seis meses, foram realizados 24 testes na praça esportiva. Três deles foram eventos culturais, sendo dois na esplanada e um no interior do estádio. Apresentaram-se Italo e Reno, Fagner e Paul McCartney, além de jogos do Campeonato Cearense, da Copa do Brasil e da Copa do Nordeste.

O secretário especial da Copa, Ferruccio Feitosa, ressaltou a importância dos testes neste período, mas alerta que ainda há o que melhorar.

“O Castelão foi o estádio mais testado do País. Isso foi fundamental para avaliar a grande maioria dos quesitos que necessitavam ser testados. Ainda assim, temos o compromisso de continuar sendo exemplo em execução e operação, na Copa das Confederações devemos estar atentos a tudo para fazer bonito na Copa do Mundo”, garantiu.

Ficou devendo

Apesar de ter sido referência em testes, nem tudo foi checado na Arena. Em nenhum momento chegou a implementar a cultura de assentos marcados, como ocorre nos torneios internacionais. A revista dos torcedores também continuou sendo manual, diferente do que será visto em 2013 e 2014.

Castelão pode se tornar um ´meio elefante branco´

“O Castelão é um semi-elefante branco”. Essa é a definição do jornalista Mauro Cezar Pereira para o palco da Copa do Mundo e da Copa das Confederações. O comentarista dos canais ESPN avalia a modernização da praça esportiva como desnecessária e reforça a ideia de que o Estádio Presidente Vargas – juntamente com o velho Gigante da Boa Vista – é o ideal para a demanda do futebol local e é pessimista em relação ao contrato de exclusividade do Ceará com a arena.

Um dos principais críticos da realização da Copa do Mundo no Brasil, Mauro Cezar não escondeu a desaprovação em relação a Arena Castelão. Para ele, o estádio cearense depende do bom desempenho das equipes locais para que, esporadicamente, mantenha a casa cheia.

“Enquanto o Ceará estiver na Série B e o Fortaleza na Série C, não há muita esperança de que o Castelão lote. Podem até dizer que haverá shows para reforçar a bilheteria, mas isso é surreal. Não há demanda no Brasil para tantos eventos que planejam para estes novos estádios. Creio que nem em Nova York, Londres e Paris juntas seriam capazes de oferecer tantos shows. É mais uma ilusão política”, pontuou.

Risco

Na opinião do especialista, o Ceará corre risco de se complicar nas quatro linhas com a assinatura do contrato de exclusividade com a Arena Castelão.

“Não tenho os detalhes do contrato, mas me parece claro que não é um bom negócio. O Ceará vai deixar o PV, que é um estádio menor e melhor localizado por um gigante. Os 15 mil que enchem o Presidente Vargas, não fazem nem barulho no Castelão vazio”, salientou.

Alternativa

O secretário especial da Copa, Ferruccio Feitosa, aponta alternativas para o Gigante da Boa Vista não virar um elefante branco. Inaugurada em dezembro de 2013, a praça lotou apenas três vezes, sendo um deles em evento extra-futebol, no show de Paul McCartney.

“O Governo do Estado tem estimulado a Arena Castelão a captar eventos. Além de shows, queremos trazer para Fortaleza grandes partidas de futebol, como jogos da Seleção Brasileira e duelos do Brasileirão”.

(Eduardo Buchholz, Repórter – Diário do Nordeste)

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