São Paulo – Uma das principais formas de atuação do Coletivo LGBT da CUT São Paulo é fazer com que os direitos desses trabalhadores sejam respeitados, independente de sua orientação sexual.

Nesta luta do movimento sindical cutista, algumas categorias já conquistaram avanços concretos, graças às pautas de reivindicações, que têm agregado as especificidades do público LGBT nos acordos coletivos, e à articulação em conselhos e coordenadorias que discutem o tema para criação de leis e políticas públicas.

Porém, o preconceito e a discriminação persistem e o desrespeito à diversidade pode se transformar em empecilho à ascensão profissional.

Leo Mendes, coordenador nacional da Articulação Brasileira de Gays (Artgay), é jornalista e ex-presidente da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Rádio e Televisão, filiada à CUT.  Em entrevista concedida à CUT São Paulo, ele conta que foi vítima de preconceito em seu emprego e  que, quando o gay ou lésbica assume sua identidade no local de trabalho, há tratamento diferenciado em relação aos demais trabalhadores.

“Não sofri diretamente a homofobia no sentido de ser demitido, mas não conseguia alcançar ascensão profissional. Outros colegas chegaram ao cargo de chefia de redação e de editoria, enquanto eu continuei no mesmo cargo por 10 anos pelo simples fato de ser homossexual assumido. Saí do veículo onde trabalhava e hoje me dedico mais ao movimento LGBT”, relata

Na sua militância, Léo diz constatar a permanência dessa discriminação e que a situação é ainda pior para outras identidades de gênero, como as travestis. “Elas não têm sequer a possibilidade de trabalhar no mercado formal, a não ser num salão de beleza ou algo do tipo. E as transexuais também têm uma dificuldade enorme de se colocar no mercado de trabalho”.

O vendedor A. T. S, que pediu sigilo de sua identidade, trabalha numa loja de artigos de luxo num shopping da capital paulista. Em entrevista durante a 17ª Parada do Orgulho LGBT, ele disse sofrer preconceito por ser assumido no local de trabalho – não dos clientes com quem trata diariamente, mas é vítima dos demais colegas. “Sou discreto e não coloco minha orientação sexual em primeiro lugar, mas as pessoas que trabalham comigo, sim. Muitas vezes sofro calado porque sou o único da loja nessa condição e, como arrimo de família, corro o risco de perder o emprego se fizer uma denúncia”.

Conquistas e mudanças na sociedade – Felizmente, também há trabalhadores LGBT devidamente respeitadas na sua profissão e daí a importância da luta travada pelo movimento sindical na conquista de direitos a todos e todas.

Bruna e Jéssica, casal homoafetivo que veio de Minas Gerais participar da 17ª Parada LGBT, contam que nunca sofreram preconceito em sua atividade profissional. “Sempre nos respeitaram e trataram como pessoas normais, já que é isso que somos – pessoas normais”, disse Jéssica.

Outro exemplo é do publicitário Cadu e o estudante de psicologia Tom, que são assumidos e não sofrem discriminação no trabalho. “No meio publicitário há muitos gays e a aceitação é bastante grande. É até difícil de entender a situação de amigos de outras carreiras que têm esse tipo de problema”, conta Edu.

Tom avalia que no mercado “ainda existe essa ideia patriarcal de que há uma posição ‘tradicional’ para um cargo ‘tradicional’ e de ‘respeito’. Mas essa posição de respeito tem que ser questionada. O que é respeito? Não ser travesti? Não ser feminino? Isso é o machismo da sociedade”, pontua.

Claudio Renato Correia é assessor do núcleo LGBT do Sindicato. A categoria é uma das que mais têm avançado na conquista de direitos dos LGBTs e garantiu, em convenção coletiva nacional, o reconhecimento da união homoafetiva, o que permitiu a inclusão dos (as) parceiros (as) como beneficiários (as) do convênio médico e como dependentes no caso de falecimento.

Correia destaca a importância do plano de saúde não só pelo impacto financeiro no orçamento do casal, mas também porque medidas como esta, assim como inclusão na declaração do Imposto de Renda e a possibilidade de comprar imóvel juntos, têm relevância na transformação da sociedade, que passa a encarar a união dos LGBTs com mais naturalidade.

“Tem que ter lei que criminalize a homofobia, mas também existem outros caminhos para reconhecimento da união homoafetiva que facilitam a aceitação social. Essas conquistas do cotidiano fazem com que a sociedade veja a questão com outros olhos”, comemora.

Flaviana Serafim, da CUT/SP

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