FOTO MERAMENTE ILUSTRATIVA

Alunos do período noturno de uma escola pública tentaram agredir uma professora após a chegada de PMs

O clima está pesado nas escolas públicas de Fortaleza. A violência tem reinado: furtos, assaltos, brigas, tráfico de drogas ameaçam o aprendizado. As vítimas agora foram alunos da Escola Municipal Maria Bezerra Quevedo, Novo Mondubim. Um vídeo que circula na Internet, e já teve mais de 3 mil visitas, mostra estudantes agredindo professores, repudiando a presença de policiais militares que iriam proferir palestra sobre a paz. Na tentativa de controlar o fenômeno, a Secretaria Municipal de Educação (SME) mapeou 36 escolas tidas como de “altíssimo risco”.

O incidente, ocorrido no último dia 20, foi prova da vulnerabilidade existente nos corredores escolares. Tendo o entorno dominado pelo tráfico, pelas gangues e brigas, a escola foi palco de verdadeiras cenas de guerra.

O vídeo mostra três alunos chutando portas, tentando bater em uma profissional. Um jovem chegou a ser detido e dois foram transferidos. O estopim foi a presença de PMs que foram chamados para tentar mediar o clima.

“Estudantes foram convidados para ver uma palestra sobre paz. Alguns rejeitaram o convite, a diretoria mandou fechar o portão e pancadaria começou”, afirma Luciano Nery, coordenador do Distrito de Educação V. Nessa mesma unidade, no dia 3 de julho do ano passado, um vigilante foi assassinado a tiros.

A diretora e uma professora já foram demitidas e uma junta interventora está no local para tentar acalmar os ânimos. A unidade estava “abandonada, faltava pulso”, diz. Segundo ele, espaço agora terá normas e código de conduta rígido. A SME condena a atitude de fechamento dos portões e pede diálogo. O órgão afirma que “nada justifica o ato de destruição do patrimônio”.

Problemas

Infelizmente, essa cena não é isolada. Para a coordenadora do Departamento de Mediação de Conflitos Escolares, Lady Lima Vieira, o uso de drogas e o tráfico estão “tomando conta”; não há mais segurança e tranquilidade.

“Infelizmente, em alguns momentos temos que pedir ajuda policial. Estamos tentando criar núcleos de mediação nas unidades mais complicadas, vamos fazer trabalho de parceria com diversos sujeitos para levar paz, ordem e dignidade”, garante.

Na Secretaria Executiva Regional (SER) I, por exemplo, oito escolas já têm espaços para mediar. Conforme estudo feito pela SME, tendo como base as vulnerabilidades sociais, há, na Capital, 36 escolas que merecem mais atenção da gestão: cinco no Distrito de Educação (ED) I, quatro no ED II, quatro (ED III), duas no ED IV, 11 no ED V e 10 no VI.

Para Rejane Hélvia, assessora técnica de Gestão Escolar da Secretaria de Educação do Ceará (Seduc), a realidade também se estende para o Ensino Médio.

Uma importante orientação é a implantação em todas as escolas estaduais das Comissões de Prevenção à Violência. “Quando acontece uma situação de violência, a orientação é que seja encaminha diretamente aos conselhos tutelares. Ainda não temos um instrumento específico de acompanhamento dessas denúncias. Outra forma de denunciar é através da ouvidoria do Estado”.

´Presença da Polícia não seria melhor solução´

Para o assessor comunitário do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca-Ce), Laudeni Gomes do Nascimento, a presença da Polícia não é a melhor solução. “Os policiais não têm referência na juventude em mediação de conflitos. Pelo contrário, em muitos casos, algumas práticas de abordagem da Polícia são exageradas, desta forma construindo uma imagem negativa da instituição. Segundo, porque que a presença da Polícia num ambiente já hostil irá tornar o ambiente mais complexo”, afirma Laudeni Gomes.

Para ele, não há, no entanto, uma receita já pronta, diante de um tema tão polêmico. Uma saída pode ser “aplicação de medidas preventivas de participação, estabelecendo diálogos entre alunos, pais, professores. Parceria entre escola e comunidade”.

Para o tenente-coronel Paulo Sérgio Braga Ferreira, comandante do Batalhão do Ronda do Quarteirão, o grupamento tem vários projetos de mediação comunitária, entre eles o Programa de Resistência às Drogas e Violência (Proerd) que já atendeu 300 escolas no Ceará e mais de 270 mil alunos. Sobre o caso na Escola Maria Bezerra Quevedo, informou que não irá se pronunciar até apurar mais o fato.

IVNA GIRÃO – REPÓRTER, via Diário do Nordeste