– A Vítima da Estação – Não lhe escapa nada: as calças às flores, os vestidos às pintas, as t-shirts com tachas, as malas que custam 4000 euros. Esta não vai às lojas e compra o que gosta. Vai às lojas armada de lista de tendências, recortadas das revistas. Assim que sai a ‘Caras Moda’, vai página por página ver o que é que as socialiaites têm vestido e compra igual. Acha que, comprando o top que veste a Vicki Fernandes, vai ficar igual à Vicki Fernandes. Para ela, ter o que se usa é uma espécie de acesso aos círculos mágicos do poder. Acha que, actualmente, uma pessoa é o que veste. Vantagem: tristemente, tem razão. Desvantagem: o que fica quando ela se despe arrisca-se a ser muito pouco.

– A Lista Negra – Veste-se sempre sempre de preto dos pés à cabeça. O efeito pode ser dramático ou desconsolado: o preto é a cor das fadistas mas também dos limpa-chaminés. A maioria das desenhadoras de moda vestem preto para terem a ‘vista limpa’ quando trabalham as cores. Mas geralmente, o preto constante demonstra falta de confiança e falta de imaginação: é tão mais fácil vestir de preto e não pensar mais nisso, não fazer novas experiências, não experimentar outras coisas, desculpem, cores…

 A Simples de Luxo – A pessoa normal veste umas calças de ganga esfarrapadas e uma t-shirt branca e os outros passam o tempo nos restaurantes a pedir-lhe cadeiras. A simples de luxo veste uma t-shirt branca e umas calças de ganga esfarrapadas e parece a Carolina do Mónaco. Ninguém percebe como nem porquê. É o exemplo supremo da injustiça do Universo. É muito pior do que as loiras. É a pior praga da Humanidade. Aquilo de que a maioria das pessoas que não são simples de luxo não se apercebem é que a t-shirt não foi comprada na Feira de Carcavelos, as calças de ganga são feitas de propósito para tirarem meio rabo a uma pessoa, as sandálias vieram de Paris como os bebés, e até o elástico é de marca. Quando melhor a marca, menos se percebe que é de marca: esse é o segredo. Outra coisa que as simples já perceberam há muito tempo e as pessoas normais não, é que a verdadeira beleza (se descontarmos a marca…) é a essência. E aquilo em que as pessoas normais também não pensam é que provavelmente a Simples de Luxo corre todos os dias uma hora na passadeira para ter aquele corpo.

– A Não Quero Saber de Moda Para Nada – De manhã veste as primeiras calças que lhe vierem parar à mão e uma camisola que comprou nos saldos. Ao contrário das simples de luxo, não fica gira. Fica com ar de quem vai lavar janelas. Cresceu a pensar na vida como um desafio eterno entre as que fazem excursões às boutiques e tratam das unhas, e as que fazem excursões às livrarias e tratam do espírito. Cresceu a pensar que vestir uma saia era vender o corpo, mesmo que a saia acabasse ligeiramente acima do tornozelo. Também cresceu a pensar que era feia, e nunca percebeu que, sem produção, até a Giselle Bundchen é feia. Pronto, ligeiramente menos feia do que nós.

– A Intelectual do Armário – Aquilo não é um armário, é uma obra de arte. A intelectual do armário aplica o seu amor pela ordem a tudo na vida, incluindo as roupas. A roupa está ordenada por cores, os sapatos estão em caixas com a descrição do modelo e a fotografia, os casacos estão escovados. Um armário arrumado, para ela, é o espelho de uma cabeça arrumada. Numa vida passada, foi aquele tipo de esquilo (ou esquila) que três meses antes do inverno já tinha a toca atafulhada de nozes, frutos secos, refrigerantes e batatas fritas, tudo arrumadinho tal como ela agora arruma as caixas de sapatos e a roupa. Claro que outras pessoas prefeririam gastar o seu tempo livre de outra maneira que não a arrumar sapatos dentro de caixas, mas se calhar numa vida passada estavam sem nozes a meio do Inverno.

– A Condizente – Em casa tem o tampo da sanita a condizer com o copo de lavar os dentes e o cortinado do quarto a dar com as latas de comida para o gato. Em termos de moda, ainda não saiu dos anos 50, quando uma senhora que se prezasse tinha a mala a condizer com os sapatos, a cor do cabelo a dar com a fivela do cinto, e o casaco na cor concordante com a saia. Tem imensa roupa porque uma camisola tem de dar sempre com as calças e as calças com o cinto e o cinto com a maquilhagem e a maquilhagem com o seu estado de espírito. Se tem umas cuecas amarelas e tudo o resto é azul, fica doente com asma alérgica, mesmo que ninguém veja as cuecas amarelas.

– A Bem-humorada – Anda por aí com ‘great bum’ escrito na parte de trás das calças de ganga, que já não se usa há seis anos mas ela usa porque sim. À maioria da população teriam de pagar para andar por aí com ‘Belo Rabo’  estampado no dito a lantejoulas cor-de-rosa, mas ela ama. Causa uma espécie de dilema filosófico a quem vai atrás a ler-lhes as várias coisas estampadas no traseiro: a pessoa normal não sabe dizer se ela acha mesmo que tem um rabo giro, porque é que achou importante divulgá-lo ao resto da Humanidade, se pelo contrário se está a rir dela própria, se lhe ofereceram aquilo nos anos e ela usam porque é poupadinha, se veste porque acha que se usa, se encontrou finalmente uma forma eficaz de manter os olhos de metade da Humanidade colados no rabo dela, se pensa que os homens são tão básicos que não sabem reconhecer um rabo giro sem ser o próprio rabo a afirmá-lo, ou se é só para aparecer.

– A Doida por Sapatos – A representante mais famosa era a longínqua Imelda Marcos, lembram-se, mas nos tempos que correm, arrisca-se a ser ultrapassada por várias criaturas com o mundo literalmente aos seus pés. Abre-se o armário e saltam sapatos por todo o lado. O que até se compreende. Comprar sapatos e malas é um investimento, ao contrário da maioria das peças de roupa. A pessoa comum anda com os mesmo sapatos uma semana seguida, se for preciso. A doida por sapatos sabe o que uns saltos podem fazer por uma pessoa. Sabe que uns sapatos certos podem dar as pernas da Naomi Campbell ao Danny DeVito. Tem geralmente espírito de coleccionadora. As mais endinheiradas chegam a comprar pares que não usam, só pelo prazer de ficarem a olhar para eles. Por outro lado, comprar sapatos é mais consolador do que comprar roupa. Ao contrário de um par de calças, um par de sapatos nunca nos grita “48! Que nojo! Vestes o 48!”

– A Dominatrix – É de todas a que tem mais sucesso com os homens, pelo menos a seguir à loira dependente da escova, porque a maioria dos homens acha que a dominatrix é o supra-sumo do feminino. Uma coisa se lhe garante: tem coragem. É capaz de aparecer como uma reencarnação da Cleópatra com pestanas falsas e os olhos pintados de azul-Tutankamon, e o cabelo à Madame Min. Mostra sempre as pernas, até porque geralmente tem pernas para mostrar. Os outros espécimes da raça feminina não conseguem enfiar uma perna normal, musculada das idas e vindas ao supermercado, no cano de umas botas inventadas por génios da moda que não têm noção do diâmetro de uma perna que não a da Barbie, mas a Dominatrix consegue. Também usa ‘animal prints’ como se tivesse saído do Badoca Parque. Quase todos os homens têm um fetiche com ela agarrada ao poste a estalar o chicote e a dar uivos de rainha da selva.

– A Original dos Acessórios – Uma pessoa normal compra um chapéu chinês e fica a parecer… bem, uma pessoa normal mascarada de chinesa. Ela compra um chapéu chinês e fica a parecer que saiu de um desfile. É a princesa das ‘lojinhas’, a rainha dos lugares meio-exóticos que mais ninguém conhece. É capaz de usar um superbotão na lapela e ficar chique, enquanto que outra pessoa usaria um superbotão e ficaria a parecer o palhaço pobre do Circo Chen. Há quem queira imitar, mas soa sempre a imitação. Aliás, o mais seguro é nem sequer tentar imitar.

Por Catarina Fonseca

Créditos: http://activa.sapo.pt/sexo/relacionamento/2013/05/28/voce-e-uma-vitima-da-moda-descubra-qual#ixzz2Ue4PpdQ0

Anúncios