Fora dos quartéis e sem vínculos formais com as Forças Armadas, eles tinham “alma” de militar e contribuíram, em diversas frentes, com o governo de exceção (1964-1985) no país. A terceira matéria do Diário de Pernambuco da série sobre o prontuário do arcebispo dom Helder Câmara no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) revela que o religioso não era um nome de consenso na própria Igreja e que, dentro da instituição, havia colaboradores dos militares no monitoramento das atividades diárias de um dos maiores ícones dos direitos humanos no Brasil.

A receita desta possível parceria entre sacerdotes e investigadores custou caro à Cúria Metropolitana. Neste período, religiosos foram expulsos do país e outros assassinados, como o padre Antônio Henrique, em 1969. “Na minha casa, logo após a morte do meu irmão, apareceu a freira irmã Therezinha. Ela chegou num momento decisivo para coletar informações sobre a gente. Passou seis meses conosco e depois sumiu de nossas vidas”, lembra a irmã do padre, a professora Izaíras Padovan.

Na análise de documentos inéditos, o veículo identificou a parceria de possíveis agentes infiltrados ou até mesmo membros da Igreja com os militares através de cartas, bilhetes e outros documentos sigilosos que saiam da instituição e acabaram abastecendo o serviço de inteligência. Um dos documentos que “vazaram”, por exemplo, custou a expulsão do padre belga José Conblim do Brasil na década de 1960.

O relator do caso do padre Henrique, o conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e membro da Comissão da Verdade de Pernambuco Henrique Mariano, relatou que a atuação do regime envolvia colaborações em diversos setores da sociedade. “Havia uma ampla rede de colaboradores de modo que o indivíduo investigado era completamente monitorado. No caso de dom Helder, o esforço era maior pelo que ele representava. Ou seja, pela denúncia das condições das classes populares e busca por melhores condições de vida”, completou.

(Magno Martins, Portal do Sidney Rezende)

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