lino

Motivos para celebrar não faltam. Em 2013, o estilista Lino Villaventura comemora 35 anos de uma das mais bem sucedidas carreiras na moda autoral brasileira. Nas próximas semanas, embarca para a Europa, onde mais uma vez faz show-room de suas peças em Paris e segue até Milão, para analisar, in loco, um convite para vender suas criações por lá. No entanto, Lino anda inquieto, preocupado. Uma decisão difícil está a lhe tirar o sono. Lino Villaventura pensa em deixar o Ceará. 

Paraense radicado em Fortaleza desde 1971, Lino levou a moda produzida no Ceará para além fronteiras, projetando o estado nacional e internacionalmente. Mesmo com lojas e pontos de venda pelo País e fora dele, sempre manteve aqui a sua base de produção. Agora, há grandes chances de isto mudar.

“É um pensamento que eu já venho trabalhando há um tempo”, admite o estilista, em entrevista exclusiva ao O POVO, por telefone, de São Paulo. “É muito mais dispendioso para mim manter esta estrutura toda a uma distância tão grande. Eu sempre fiz questão de permanecer no Ceará, manter minha fábrica aí, ter uma loja aí. Mas quem está sendo sacrificado por conta desta distância sou eu”, justifica.

São muitas as razões apontadas por Lino para transferir sua fábrica para o Sudeste. A primeira delas é a carga tributária que, segundo ele, é menor em São Paulo e em Minas Gerais (estados para onde ele estuda mudar a fábrica) do que no Cerá.

Outro fator determinante para a mudança seria a dificuldade de logística no Ceará, tanto para exportação quanto para distribuição em território nacional. Além disso, produzir as roupas da marca Lino Villaventura no Estado implica mais gastos ainda com frete.

“A burocracia é muito grande no Ceará. Para exportar, a partir daí, então, é uma loucura. As dificuldades no Ceará são maiores sim. Eu fico pensando se essa determinação em continuar produzindo a partir do Ceará não está virado um capricho meu, sabe?”, reflete.

É que, fora as questões práticas que motivam o incômodo do estilista, existem outras, de ordem um pouco mais subjetiva.

Lino Villaventura se sente desprestigiado pelo atual governo do Estado. Em anos anteriores, seus desfiles na São Paulo Fashion Week, maior e mais importante semana de moda do Brasil, recebiam um apoio governamental, o que não está mais acontecendo.

“Eu não preciso ser ajudado, mas eu preciso de coisas que minimizem meus custos. Produzir aqui encarece muito meu produto e não há nada para compensar”, aponta Lino. “O Estado precisa valorizar seus artistas e pessoas que possam dar dignidade para este Estado. Eu não vejo isso acontecer. Eu sempre levei o nome do Ceará e do Brasil para o mundo todo, mas se eu não sou mais importante, fazer o quê?”.

 

Repercussão

A possível transferência da base de produção de Lino Villaventura para o Sudeste foi recebida com pesar por duas das jornalistas especializadas em moda, que acompanham sua trajetória desde o princípio. 

“A se confirmar esta ruptura, eu acho que é uma perda para os dois lados”, analisa a jornalista e consultora de moda Cristina Franco. “A troca de conhecimentos que o Lino sempre teve com as artesãs do Nordeste enriquecia a ambos através do seu olhar apurado, era um processo simbiótico via estética. O ideal é que ele pudesse continuar no Ceará. Mas entendo as pressões, as demandas de mercado que profissionais que têm um trabalho autoral, como o Lino, estão passando”.

Para a jornalista e diretora da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Wânia Cysne Dummar, a possibilidade da partida de Lino é de causar espanto. “É lamentável que um criador do porte de Lino Villaventura, ícone da moda brasileira, não receba total reconhecimento de seu trabalho por parte das autoridades governamentais do Ceará. Como deixar sua produção estilística se transferir para outra cidade?”.

Enquanto pesa prós e contras do ficar e do partir, Lino Villaventura se desassossega. “Eu gosto do Ceará, das pessoas daí, da minha em Fortaleza. Ao mesmo tempo, eu acredito que tem coisas que sinalizam um momento da mudança. Na minha vida sempre foi assim. Acho que este é um destes momentos. Ele sinaliza que isso aqui não é mais o meu lugar, eu não sou mais daqui, isso aqui não tem mais a ver comigo. Falta delicadeza, falta educação, falta apoio. É muito difícil”.

ENTENDA A NOTÍCIA

Lino Villaventura é um dos mais importantes estilistas brasileiros da atualidade, reconhecido internacionalmente. Paraense radicado há 42 anos em Fortaleza, mantém fábrica e loja no Ceará. 

“O Lino é de uma sensibilidade enorme. É uma das pessoas desse País que sempre continuou firme nos seus propósitos de trabalhar com uma riqueza artesanal muito difícil de se achar. Será uma pena se ele tiver que abrir mão desse diálogo com o fazer artesanal do Nordeste” 

Cristina Franco

Jornalista e consultora de moda 

“É lamentável que um criador do porte de Lino Villaventura, ícone da moda brasileira, não receba total reconhecimento pelo seu trabalho por parte das autoridades governamentais do Ceará. Como deixar sua produção estilística se transferir para outra cidade?” 

Wânia Cysne Dummar, Jornalista e diretora da Fiec

(Émerson Maranhão, O Povo Online)

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