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Desfile de Lino Villaventura

Por Pedro Willmersdorf

Em pleno corredores do Fashion Rio, em bate-papo com o professor de jornalismo de moda Rafael Moura sobre a nossa passagem pelo Dragão Fashion Brasil 2013, semana de moda realizada em Fortaleza, entre os dias 13 e 18, ouvi vários comentários feitos por ele a respeito do evento na capital cearense. Resolvi, então, dividir com você. Se aqui, na coluna, a gente prega tanto a democratização da moda (tema, inclusive do desfile incrível da grife Reserva, de Rony Mei

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sler, que tem como lema “roupas de verdade para pessoas de verdade”), considero que uma pensata by Rafael também precisa ser democraticamente compartilhada. 

“Em sua última passagem pelo Brasil, o filósofo francês, Gilles Lipovetsky  disse crer que a moda e o superficial estejam hoje no centro das relações sociais. “Foi à moda que nos arrancou da sociedade disciplinar, autoritária, convencional, em proveito de uma sociedade hiperindividualista, na qual os indivíduos vivem em self-service, onde podem escolher seus modos de vida”, afirmou.

Lipovetsky diz que a moda deixou de ser uma fonte de criatividade, e que hoje é melhor ser observada por seu poder de distribuição. Esta indústria, antes baseada essencialmente em criação, segue hoje a lógica da individualização, mas não da originalidade. Segundo ele, compras hoje servem para atender gostos passageiros e não para manter os consumidores na moda.

Andando na contramão desse conceito, lá em Fortaleza, estado considerado atualmente um dos destinos turísticos mais procurados do Brasil, vêm o Dragão Fashion Brasil, que encerrou, dia 18, sua 14ª edição, pensando na moda autoral brasileira.

Em uma conversa com Cláudio Silveira, diretor e idealizador da semana de moda, ele declarou de maneira certeira: “O Nordeste tem de ser visto de uma forma diferenciada. O Nordeste é a síntese do Brasil. É aqui que tudo acontece e se mistura”. E complementa de maneira alegre comemorando 15 anos de Dragão Fashion e do Centro Cultural Dragão do Mar, os 287 anos de Fortaleza, os 100 anos de morte do líder dos jangadeiros Chico da Matilde, o Francisco José do Nascimento (1839-1914), verdadeiro Dragão do Mar, abolicionista brasileiro e participante do Movimento Abolicionista Cearense.

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Cláudio Silveira, criador do Dragão Fashion Brasil

E se aqui no Rio, muitos evitam ter seu nome “correndo a Boca de Matilde”, lá no Ceará é exatamente o que deseja Cláudio, pois, o tema desta temporada do evento “Onde há fumaça há fogo”, teve a intenção de mostrar para o Brasil e para o mundo, que existe uma moda autoral, além Sudeste, e que passa muito longe do folclore, como a maioria, equivocadamente, acha.

E realmente nessa fumaça teve fogo, pois, a cidade se vestiu para receber esse festival de artes integradas que mistura moda, design, música, gastronomia e business. “Os eventos em outros estados têm um foco mais comercial e uma grande visibilidade dentro do país, por sua localização. O que queremos é mostrar que coisas bacanas existem além dos grandes centros”.

Lembrando que Fortaleza é a quinta cidade mais populosa do Brasil, Cláudio diz que “o crescimento do Dragão Fashion está profissionalizando todo o estado do Ceará”. Vide o apoio do Sesc/Senac Iracema que levou nomes para palestras e workshops como: os estilistasMário Queiroz; a expert dos bordados de luxo Martha Medeiros; além do estilista Pedro Lourenço, nosso nome nas passarelas francesas e muitos outros feras.

 

“É gostoso ver que a cidade está abraçando essa causa. A cada edição temos revelado mais talentos. Foi um prazer ter a abertura dos desfiles com uma apresentação em comemoração aos 35 anos de moda de Lino Villaventura. Queremos fazer com que as pessoas respirem essas novidades. Nossa missão é descobrir talentos pelo Brasil”, analisa Cláudio.

 

E a cidade, que segundo o Ministério do Turismo, tem recebido um número cada vez maior de turistas estrangeiros, especialmente de Portugal, Itália e França, teve o prazer de abrir sua praia e trazer para as salas de desfiles o estilista português Nuno Gama, especialista em moda masculina, além da dupla italiana do Leitmotiv com seus surpreendentes prints, byFabio Sasso, amante da alfaiataria, e Juan Caro, que adora uma pesquisa artística mesclada com o gótico. A marca está entre as melho­res do mundo, segundo a Vogue Itália.

 

O evento que passa longe de bairrismos e regionalismos, mesmo valorizando a cultura local, importou desse país tropical, abençoado por Deus, outras 24 marcas para mostrar suas novidades para o próximo verão – Blue Man (que se apresentou também no Fashion Rio),Jadson RaniereRonaldo SilvestreWeider Silverio (que integram o line up da Casa de Criadores), a baiana Marcia Ganem  que faz um belo trabalho com fibras e Mario Queiroz, que lançou uma linha feminina de moda-praia no evento.

“O Dragão Fashion é uma vitória para o Nordeste. Eu luto tanto e me sinto vitorioso por ver o Dragão dar certo, buscando sempre as artes e as raízes do Brasil”. Será que essa garra do Cláudio vem do lema da cidade (presente em seu brasão) é a palavra em latim “Fortitudine”, que em português significa: “força, valor, coragem”?”

(Heloisa Tolipan, Jornal do Brasil )

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