O último cemitério público de Fortaleza com vagas para sepultamentos, o Bom Jardim, não está mais disponível para enterros de adultos. A informação chegou à redação web do Diário do Nordeste por meio do ferramenta VC repórter. No último sábado (20) havia apenas quatro vagas para enterrar mortos, de acordo com o administrador do cemitério, Antônio Agostinho Filho. Os jazigos, entretanto, esgotaram na manhã deste domingo (21).

O lugar era o único cemitério público que ainda recebia mortos para serem enterrados na Capital. “Os outros quatro cemitérios, na Messejana, Parangaba, Mucuripe e Antônio Bezerra; já estão saturados”, afirma Agostinho. Ele diz que chega a realizar cerca de 15 sepultamentos, diariamente.

Procurado pela redação Web, o secretário executivo da Regional V, Júlio Ramon, confirmou a superlotação do cemitério e disse que só ficou sabendo da situação na semana passada, quando foi avisado pela administração do local. “No início do ano, quando assumimos a gestão, havia mil e poucas vagas, não lembro precisamente o número. Agora, com essa lotação, estamos procurando alternativas para tentar solucionar o problema com urgência”, disse o secretário.

Família não tem onde enterrar corpo

Uma família do bairro Ganibaú, em Fortaleza, perdeu o jovem Francisco Thiago Santana , de 25 anos, na madrugada deste domingo (25). A irmã da vítima, a manicure Tatiana Maria, afirmou que entrou em contato com o cemitério do Bom Jardim e foi informada que não havia lugar para enterrar o jovem, que era servente e foi assassinado a bala.

Tatiana disse que não sabe o que fazer com a situação. “Eu falei para a mulher do cemitério que isso era um descaso e ela me disse que o cemitério não tinha culpa e que essa situação tinha a ver com a prefeitura”, revelou. A irmã da vítima disse ainda que indicaram um cemitério em Caucaia. “Mas lá só querem enterrar quem é de Caucaia mesmo”, afirmou.

A situação é mais agravante ainda porque a família afirma não ter condições de pagar por uma vaga em um cemitério particupar. “É no mínimo R$ 1.600,00 e não vamos enterrar o meu irmão no nosso quintal”, declarou Tatiana. 

A manicure disse que a mãe dela está tentanto embalsamar o corpo do morto na funerária Previda, no Conjunto Ceará. “Eles estão pedindo R$ 500,00 para deixar o corpo lá, também não temos esse dinheiro. A gente vai pegar o corpo e ficar lá em frente ao cemitério para ver se arranjam uma vaga para enterrar ele”, afirmou.

O secretário, após ser informado da situação da família, disse que não tem como resolver o problema ainda este domingo (21). “Vamos resolver isso amanhã (22), porque você sabe que qualquer serviço público tem trâmites e que geralmente são demorados”, afirma.

Construção de novos jazigos deve começar nesta segunda

Em janeiro deste ano, a Prefeitura de Fortaleza abriu um processo licitatório para construir novos jazigos, segundo Júlio Ramon. Ele afirma também que a empresa vencedora da licitação, cujo valor é de um R$ 1,3 milhão, deve iniciar a construção a partir da segunda-feira (22), para atender à população.

A prefeitura estima que 5 mil jazigos serão construídos, mas ainda não sabe quando eles ficarão prontos. “Queremos abrir de 500 em 500 vagas e ainda vamos decidir a data de entrega das primeiras”, afirmou o secretário.

Encaminhar sepultamentos para privados pode ser solução

Enquanto os jazigos não ficam prontos, encaminhar os sepultamentos para os cemitérios particulares, custeados pela Prefeitura Municipal de Fortaleza pode ser uma das soluções imediatas, de acordo com Júlio Ramon. “Tentar uma solução para isso através dos cemitérios particulares para ver como podemos contornar. Já andei pesquisando os valores de alguns. Tudo tem que ser feito de maneira responsável, pois estamos lidando com o dinheiro público. Mas ainda estamos estudando essa possibilidade”. declara.

Ele também acrescenta que a Prefeitura estuda a construção de um crematório no local e destaca que o ossuário, local onde os ossos dos mortos ficam após 5 anos enterrados, “um dia pode se esgotar”. De acordo com ele, muitos mortos hoje não têm os cinco anos sepultados para serem removidos, o que impossibilita a abertura de novas vagas. “O cemitério nunca foi planejado, apesar de ter recebido grandes investimentos. Vamos tentar melhorar o atendimento que ainda é precário”, afirma.

Secretário afirma que precisa limitar critérios para enterros

Júlio Ramon questionou os critérios do cemitério do Bom Jardim no momento de receber os mortos para sepultamentos. “Que criterios são esses? Será que são as pessoas mais carentes? São os indigentes? Precisamos rever isso porque o cemitério Bom Jardim é o único que pode receber as pessoas mais carentes e eu acho que se esgotou de forma muito rápida”.

O cemitério enterra até pessoas de outros municípios, segundo o secretário. “Mas o objetivo é atender as pessoas mais carentes da cidade”, destaca.

(Aline Conde, Diário do Nordeste)

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