NARCISISMO

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O cantor sertanejo Zezé Di Camargo acredita que o mundo seria um lugar melhor sob seu comando. Em matéria de imodéstia, Susana Vieira não fica muito atrás. A atriz acha que tem um talento natural para influenciar as pessoas. Zezé e Susana são artistas consagrados. Mas mesmo gente cujo currículo não vai além da participação no último Big Brother cultiva noções grandiosas da própria importância. Essa constatação confirma o senso comum: celebridades são vaidosas, convencidas. São narcisistas, enfim – e a imagem da socialite americana Paris Hilton mirando-se no espelho, estampada ao lado, remete à origem da palavra: o mito de Narciso, que se apaixonou pela própria imagem. Dois livros recém-lançados nos Estados Unidos debruçam-se sobre essa cultura da autoabsorção, que se revela no comportamento das celebridades, mas também é vista como um mal generalizado – uma doença moderna. Em The Narcissism Epidemic (A Epidemia do Narcisismo), os psicólogos Jean M. Twenge e W. Keith Campbell sustentam que uma compulsão narcisística permeia toda a cultura americana atual. As celebridades seriam as disseminadoras desse vírus. The Mirror Effect (O Efeito do Espelho) é fruto de uma empreitada curiosa: o psicólogo Drew Pinsky (com auxílio do cientista social S. Mark Young) submeteu 200 celebridades a uma sondagem psicológica. Concluiu que elas são 17% mais narcisistas que a média dos americanos (VEJA aplicou o mesmo teste em cinco brasileiros, inclusive Zezé Di Camargo e Susana Vieira, mas num espírito de brincadeira, sem os protocolos clínicos seguidos por Pinsky).

A noção psicológica de narcisismo surgiu no século XIX, com base no personagem da mitologia grega. Na versão de sua história narrada pelo poeta romano OvídioNarciso é um jovem belo condenado a admirar seu reflexo nas águas de um lago para sempre. Na teoria psicanalítica desenvolvida por Sigmund Freud, o narcisismo caracteriza uma etapa primitiva no desenvolvimento da criança – o período em que descobre seu corpo e suas vontades. Também se refere a certos traços que todo ser humano apresenta, em maior ou menor grau, na vida adulta. Mais recentemente, psicólogos americanos que não se vinculam à psicanálise freudiana definiram o narcisismo pela conjugação de sete características (veja o quadro abaixo).

Esses traços não se apresentam de forma necessariamente negativa. Artistas, políticos e esportistas têm o narcisismo em seu DNA. A tese de Pinsky é que não se trata de um subproduto da fama, mas da força primária que leva as pessoas a ansiar pelo reconhecimento público. “Celebridades não se tornam narcisistas. Narcisistas é que se tornam celebridades”, diz. Os mesmos mecanismos psicológicos que levam um famoso a se julgar o ser mais notável do universo, porém, também podem derrubá-lo. Quando atinge níveis intoxicantes, o narcisismo torna-se uma doença. Pessoas com o transtorno de personalidade narcisística – doença reconhecida pelo CID-10, catálogo de doenças e distúrbios psicológicos – têm dificuldade em manter relacionamentos e são autodestrutivas. Ao contrário do que frequentemente se imagina, o narcisista não tem um ego hipertrofiado. Ele sofre de inseguranças profundas e precisa do aplauso constante dos que o cercam. Age como um vampiro, que suga a energia alheia. “O sujeito fica dependente e estabelece uma relação parasitária com aqueles que o rodeiam”, diz o psicanalista Renato Mezan. O narcisista extremado é incapaz de empatia. “Os outros não existem. Só servem de espelho para ele”, diz a psicóloga Denise Gimenez Ramos.

Os autores de The Narcissism Epidemic identificam sinais do transtorno em virtualmente todos os aspectos da vida americana, até mesmo na economia. Os déficits elevados do governo e as dívidas dos cidadãos com a compra de bens muito além de suas posses constituiriam sintomas de delírio de grandeza. A escalada narcísica seria visível, ainda, na explosão no número de cirurgias plásticas. “Há mais narcisistas do que nunca. E os não narcisistas são seduzidos pela ênfase na riqueza material, aparência física, culto às celebridades e carência de atenção”, diz o livro. Para cada Britney Spears que alcança o sucesso, ficam pelo caminho centenas de cantoras dispostas a se exibir tanto quanto (ou mais que) a original – ainda que não consigam despertar a atenção dos paparazzi. A fama tornou-se um valor em si. A exposição da intimidade em blogs e sites da internet se tornou imperativa, especialmente para os adolescentes. Ao valorizar o empreendedorismo e a afirmação do indivíduo, a cultura americana produziu conquistas extraordinárias. Mas seu componente narcisista pode ter chegado ao paroxismo. Os autores propõem uma espécie de quarentena ao narcisismo, que incluiria a redução do consumo de revistas e programas de fofocas.

O diagnóstico de The Mirror Effect não é menos sombrio. As celebridades se comportam de forma patológica – e o público retroalimenta esse círculo dando-lhes atenção. O exibicionismo, porém, torna-se perigoso, como mostram tantos escândalos de celebridades. Há, ainda, a vaidade mórbida, comumente expressa na obsessão com o peso. O vício em remédios transformou Lindsay Lohan, a ex-estrela adolescente do cinema hoje mais conhecida pelos escândalos, num fiapo. E Michael Jackson, não satisfeito em se deformar com as plásticas, agora também exibe uma magreza somali (para fazer sua nova turnê na Inglaterra, a recomendação médica é que ele engorde ao menos 10 quilos – mas o cantor insiste em se alimentar como um passarinho).

Pinsky trabalha desde 1991 numa das principais clínicas de reabilitação da Califórnia, comanda um reality show e um programa de aconselhamento amoroso numa rádio. Foi nessas empreitadas que teve acesso às celebridades que se submeteram ao Inventário de Personalidade Narcisística, teste criado no fim dos anos 70 por psicólogos da Universidade da Califórnia em Berkeley. Numa escala que vai de zero a 40, os famosos americanos atingiram uma média de 17,8 pontos, contra 15,3 registrados num estudo com a população americana em 2003. Entre as celebridades, os índices mais altos foram alcançados por ex-participantes de reality shows. Pinsky aventa as razões para isso: “Os produtores buscam pessoas controladoras e antissociais para dar mais dramaticidade a esses programas. E quem se dispõe a participar o faz por um desejo incontrolável de se exibir”.

A comparação com o desempenho das celebridades brasileiras – ainda que se trate de uma amostra apenas simbólica – revela nuances curiosas. Dois modos de encarar o narcisismo convivem. Tanto Diego Alemão, vencedor do Big Brother Brasil 7, quanto o humorista Hubert, do Casseta & Planeta, marcaram só 9 pontos – metade da média das celebridades americanas. O filósofo Roberto Romano lembra que as diferentes heranças religiosas dos dois países podem estar na raiz disso. “Na nossa tradição católica, ser exibido é pecado – o sujeito tende a se adaptar à moral vigente e se resignar”, diz (o fato de tantos “coitadinhos” vencerem o Big Brother corrobora a tese). “Numa sociedade de formação protestante, o orgulho individual é tolerado.” Por outro lado, o narcisismo exacerbado também grassa por aqui. Ele está na política, do presidente Luiz Inácio “nunca antes neste país” Lula da Silva ao ex-governador mineiro Newton Cardoso, que recentemente reclamou que seu patrimônio suspeito foi subestimado no seu rumoroso processo de divórcio. Também aqui há estrelas que se envolvem em barracos, como Luana Piovani. E aquelas que bradam sua paixão desmedida por si mesmas, como Zezé Di Camargo: “Sou narcisista pacas”.

A fama subiu à cabeçaOs sete traços que caracterizam as personalidades narcisísticas – e seus sintomas exacerbados nas celebridades, segundo o psicólogo americano Drew Pinsky

Kazuhiro Nogi/AFP
AUTORITARISMO
Intolerante às críticas, a pessoa quer controle total sobre os que a cercam
Manifestações nas celebridades:explosões de arrogância como a do ator Christian Bale, que soltou os cachorros sobre um diretor de fotografia
O diagnóstico de Drew Pinsky:“Paradoxalmente, a atitude mandona desses narcisistas frequentemente diminui suas chances de obter aquilo que querem dos outros”
SUPERIORIDADE
O indivíduo imagina-se extraordinário e mais importante que os demais – atitude que não raro se conjuga a preconceitos raciais ou sexuais
Manifestações nas celebridades: os socos do rapper Chris Brown na namorada Rihanna são um exemplo extremo da superioridade machista
O diagnóstico de Drew Pinsky: “Quando uma pessoa com sentimentos doentios de superioridade tenta impor sua dominância, há o risco de descambar para a agressividade”
Frank Micelotta/Getty Images
Joel Ryan/AP
VAIDADE
Em suas fantasias de sucesso ilimitado, a pessoa preocupa-se exageradamente com o poder, a fama e a beleza
Manifestações nas celebridades: a obsessão com as plásticas – caso de Michael Jackson. E a exibição de outros itens materiais: o empresário Donald Trump processou um biógrafo por ele ter afirmado que sua fortuna era inferior a 1,6 bilhão de dólares
O diagnóstico de Drew Pinsky: “Os narcisistas precisam escorar-se nas aparências para afirmar seu valor”
EXIBICIONISMO
Não basta ser rico e bonito: é preciso expor detalhes íntimos de forma compulsiva
Manifestações nas celebridades: o quarteto Lindsay Lohan, Paris Hilton, Nicole Richie e Britney Spears fornece um compêndio das formas mais patológicas de exposição: flagrantes de nudez, vídeos de sexo “vazados” na internet, abuso de álcool e drogas
O diagnóstico de Drew Pinsky: “Expor-se em comportamentos assim obviamente requer um senso narcisístico de invencibilidade”
Jean Baptiste Lacroix/Getty Images

EXPLORAÇÃO DOS OUTROS
A pessoa vê os outros como serviçais. Oscila entre a supervalorização dos que lhe são úteis e o desprezo por quem não satisfaz suas vontades
Manifestações nas celebridades: Madonna já foi acusada pelo próprio irmão de ter se relacionado com o pai de sua filha Lourdes Maria só para usá-lo como reprodutor
O diagnóstico de Drew Pinsky: “Esses indivíduos preferem manter relacionamentos utilitários, sem se importar com o custo disso para os outros”

Ernesto Ruscio/Getty Images
AUTOSSUFICIÊNCIA
A admiração e a confiança em si mesmo são tão exacerbadas que o indivíduo se fecha em seu mundo
Manifestações nas celebridades: Tom Cruise demitiu sua relações-públicas para administrar a própria imagem — e fez esquisitices como pular no sofá da apresentadora Oprah Winfrey
O diagnóstico de Drew Pinsky: “As pessoas com excesso de autossuficiência têm dificuldade para colaborar e registrar pontos de vista diferentes”

PRETENSÃO A PRIVILÉGIOS
É o famigerado “sabe com que está falando?”: a pessoa julga que a beleza e a posição lhe conferem todo tipo de direito
Manifestações nas celebridades: Mariah Carey aterroriza gerentes de hotéis por exigir suítes adornadas em ouro e banhos com água mineral francesa
O diagnóstico de Drew Pinsky: “A ostentação de privilégios é um mecanismo de competição entre as celebridades narcisistas”

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