luma

As pessoas xingavam, chacoteavam, espancavam. Ele, menino acuado, não entendia as razões e os porquês. Olhava espantado e não enxergava motivos. Aprendeu, então, que seu existir era incômodo. Sabia, sim, que tinha de colocar resistências para ser ou estar. Ainda assim, carregava uma culpa. Não sabia o motivo. Hoje, sabe: o ser diferente.

Luma Andrade nasceu no corpo de João Filho e assim o foi na infância e adolescência até aceitar-se e descobrir-se. No colégio, sentia-se constrangida de usar o banheiro masculino. Com dor, continha vontades até chegar a casa. A mãe não aceitava o desigual, mas respeitava. Do pai, nem respeito recebia, sobrando hoje apenas indiferença.

Usava o estudo como válvula de escape. Passar no vestibular, num município do Interior e da primeira tentativa, foi a consequência e o que abriu as portas para agora ser “ela”. Às aulas, ia como queria: vestidos, cabelos longos, maquiagem. Não sem esforço, conquistou um concurso, um mestrado e um doutorado. Fugindo completamente do estereótipo expansivo e de gestos espalhafatosos, dado às travestis, Luma é toda delicadeza e discrição. Qual barreira seria maior que o maior alcance da academia? “Agora eu posso ser quem eu quiser”.

 

O POVO – Como você se percebeu diferente dos outros meninos 
da escola?

Luma Andrade – Quando eu ia à escola, fui percebido como diferente dos demais por conta de sempre me identificar com as meninas. Acabava tendo uma empatia maior com elas. Alguns colegas não aceitavam. Achavam que eu tinha que estar junto com eles e gostar das mesmas brincadeiras. Isso refletia em muitos momentos de violência, em que eu era agredido simplesmente por ter uma singularidade muito feminina. Eles não aceitavam.

O POVO – Você entendia, quando criança, o porquê disso?

Luma – Não. Acredito que até eles (não entendiam). Praticavam o que viam os adultos fazerem. Discriminar, falar mal, rejeitar e não atentar para qualquer forma de diferença em relação aos papéis sexuais. Eles também são vítimas de um processo de formação que é focado de pensamento binário sexual: se você tem uma genitália masculina, tem que ter um comportamento social para esse órgão; se tem uma genitália feminina, é da mesma forma. É esse binarismo que, quando a gente nasce, somos obrigados a compreender pela pedagogia da dor. 

OP – Em que momento você passou a entender aquilo como ofensivo e preconceituoso?

Luma – Com o passar do tempo, a gente vai vendo o diferencial. O que os fazia me violentar física, verbal e psicologicamente? Era exatamente porque eles me percebiam diferente. E isso foi me fez perceber: ‘estou fazendo algo errado’. Esse ‘algo errado’ é porque não estou assumindo o mesmo papel social que eles. É uma espécie de pedagogia violenta e tenta justificar a violência em cima da diferença. Por não estar dentro dos padrões.

OP – Você acha que os estudos eram uma válvula de escape?

Luma – Com certeza. Ele foi a linha de fuga, como diz (Michel) Foucalt (filósofo francês). Porque me centrei (nos estudos) para fugir da questão da sexualidade. Eu estudava muito, ajudava colegas que tinham dificuldades. Existem diversas formas de fugas da realidade. Algumas pessoas preferem usar drogas, outras preferem canalizar a problemática da vida para o trabalho ou para as religiões. Eu tinha tentando as religiões e não deu certo. Continuei a canalizar para os estudos. Foi onde vi que estava fazendo algo coerente. Só conquistei a liberdade quando cheguei na faculdade (Luma cursou Ciências Biológicas, no campus de Russas, da Universidade Estadual do Ceará – Uece).

OP – Você diz que sua mãe aceitava você ser travesti, mas não entendia. Pode explicar melhor?

Luma – Quando é alguém da família, por mais que seja estranho, existe o respeito. Ela me respeitava, mas não aceitava. É diferente você aceitar e respeitar. Ela pode não aceitar, mas tem o dever, enquanto cidadã, de me respeitar. Outra parte da sociedade é exatamente dura: não aceita nem respeita. A violência e até o assassinato pessoas se justifica para que as pessoas não sigam aquele caminho ou não tenham aquela singularidade. É com ódio. Tanto, que se você perguntar para as pessoas que agem dessa forma, elas vão dizer que isso se justifica. É aí onde está o perigo dos discursos. Alguns discursos de religiosos fundamentalistas, em escolas, feito por pessoas machistas e homofóbicas podem levar adolescentes e crianças a entenderem que qualquer atitude para extirpar do outro, essa singularidade que não é hegemônica, se justifica. Existe uma pedagogia ensinando o tempo todo que isso (homossexualidade) não é certo. 

OP – Em que campos de atuação a travesti é mais aceita?

Luma – Uma travesti professora é entendida para pais e professores como mal exemplo. O principal da escola é a questão do desenvolvimento humano, da formação do cidadão. Não é papel da escola tentar encaixar as pessoas numa forma e padrão. Porque hoje a sociedade é diversa. O que tem de ser extirpada da escola é a violência, e a não aceitação das diferenças. A melhor forma de eliminar a discriminação é fazer o jovem aprender com as diferenças. Na escola, você vai ter uma diversidade de cultura e trabalhar para que as diferenças consigam conviver pacificamente. A presença do homossexual é uma ‘ameaça’ porque vai, de certa forma, abalar sua masculinidade. Existe na nossa sociedade esse ‘perigo’. Ele não tem uma doença, mas é tratado como se tivesse. As pessoas precisam entender que não há contaminação. A gente tem a mania de querer padronizar as coisas. Uma vez, na sala de aula, um aluno perguntou: ‘como você se tornou homossexual?’. Eu respondi com outra pergunta: ‘como foi que você se tornou heterossexual?’. Não existe resposta. 

OP – Você falou do recuo para um pequeno avanço. Na relação com o seu pai, você usou desse recuo?

Luma – (pausa) Na verdade, a questão com meu pai vai muito mais além da não aceitação em si, do não respeito dele à minha diferença. Vai agregar outras questões que agregam o trato com minha mãe, minha irmã. O que nos distanciou dele foi a sexualidade. Ele me colocou para fora de casa porque não aceitava que eu levasse meu namorado para a casa onde eu morava junto com minha irmã – e ele nem morava lá. Quando saí, consegui comprar minha casa com muita dificuldade.

OP – Você já percebeu alguma aproximação das pessoas pelo fato de ter o doutorado?

Luma – Teve uma vez, quando eu fazia a terceira série (do ensino fundamental) que um colega chegou para minha professora na sala de aula, comigo chorando, e ela disse: “Professora, o meu colega está chorando. Machucaram ele”. E ela chegou bem perto da minha cadeira e disse: ‘Bem feito, quem mandou você ser assim?’. Eu não sabia do que ela estava falando, mas ela sabia. Estava dizendo que o que eu estava fazendo era errado. Anos depois, recentemente, eu soube que ela fazia questão de dizer que era minha professora. Fico feliz por ela estar orgulhosa por eu ter chegado a onde eu cheguei. Mas isso não apaga o que aconteceu. 

OP – A partir de que momento você passou a ter respeito consigo e a aceitar que era uma travesti?

Luma – Comecei a aceitar porque fui vendo que era isso que me fazia feliz. Quando assumi para mim mesma o que tinha vontade de ser foi o momento em que assumi para a sociedade. Isso me fez entender que era esse o caminho, de fazer com que as pessoas respeitassem a minha diferença. Consegui esse respeito dentro do centro universitário e é bem mais difícil. O fato de eu ter conseguido passar o vestibular da primeira vez que eu fiz. A universidade é um empoderamento na sociedade.

OP – O que a universidade trouxe para você, além de toda a 
teoria acadêmica? 

Luma – No primeiro momento na universidade, tentei ir todo masculinizado, para me esconder. Quando eu entrei, os alunos começaram a me vaiar, a gritar, a dizer nomes (palavrões). Eu pensei: ‘sabe d’uma coisa? Se é desse jeito aqui também, então vou ser eu mesma’. Comecei a usar as roupas que eu queria, bem femininas, a assumir o papel feminino dentro da universidade também. E por incrível que pareça, quando fui assim, passei a ser mais respeitada.

OP – O que representou a mudança no seu nome nos documentos de identificação?

Luma – Sou a primeira travesti da região Nordeste a conseguir mudar os documentos. Meu nome é feminino: Luma Nogueira de Andrade, não é mais o nome de nascimento. São degraus. Ainda hoje acontece preconceito., mas não como era antes. 

OP – Você acredita que a bancada evangélica representa uma espécie de prejuízo para o desenvolvimento da igualdade e da pesquisa no País?

Luma – Não quero dizer aqui que todos os evangélicos são pessoas fechadas, tradicionais ou fundamentalistas. Mas, infelizmente, os representantes que chegam ao parlamento e que fazem parte da igreja evangélica e, até mesmo, da religião católica, são representantes de um movimento tradicional fundamentalista. E para eles, o pensamento contemporâneo é uma afronta à divindade. Tudo que foge ao padrão pré-estabelecido é errado. Isso acaba promovendo um atraso para os direitos humanos, para a ciência – quando não se permite a pesquisa científica com células tronco. O tabu desse grupo em não aceitar outras culturas religiosas como o candomblé, o espiritismo. Enquanto o Brasil não se abrir para as diferenças sociais, não vamos conseguir um desenvolvimento com respeitos aos direitos humanos.

OP – Um aspecto simples, mas importante, é a relação das travestis com banheiros públicos. Quando você conseguiu usar o feminino?

Luma – Não era aceito que eu frequentasse banheiro feminino (da escola) e eu nem me sentia bem nos banheiros masculinos. Cheguei ao ponto de conter as necessidades fisiológicas. Tinha dias que era uma tortura. Às vezes, fazia na roupa. Com o passar do tempo, fui ficando mais adolescente, continuei sem frequentar. Às vezes, dava escapada e entrava no banheiro dos professores, porque não tinha vigilância. Quando eu lecionava na educação básica na rede estadual, continuei frequentando o banheiro masculino. Aos poucos, ia deixando de lado, entrava escondida no banheiro feminino, no horário que não tinha ninguém. Hoje, lá na Crede (Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação, onde trabalha), frequento o feminino. 

 

OP – Você mudou o nome nos documentos. Conseguiu mudar o sexo também?

Luma – A Justiça ainda tem essa dificuldade de reconhecer, porque, para eles, o sexo é o órgão genital que determina. Ela segue as questões das normas biológicas e da Medicina, que é o corpo que vai dizer quem você; é e não a sua mente. Mas no caso do nome social, eles estão conseguindo aceitar estudos da Sociologia. Tenho o sexo masculino, mas tenho um gênero que é feminino. E é o gênero que determina o social, o que eu quero. É o que a minha mente deseja e me faz feliz. A Justiça está dando ainda pequenas aberturas. Temos muito a evoluir. Não penso em mudar de sexo. Porque existe uma diferença conceitual, em certo ponto, entre travesti e transexuais e as definições não dão conta da realidade. Eu me identifico como travesti porque entendo travesti como a pessoa que é do gênero feminino, mas convive bem com seu órgão masculino. Já a transexual é do gênero feminino, mas tem órgão genital masculino e deseja extirpar o órgão. Ele é um incômodo, faz mal, não é prazeroso. É como se fosse um câncer. Não tenho desejo de extirpar meu órgão genital porque ele é uma fonte de prazer. Essas cirurgias são muito dolorosas. A pessoa passa por momentos de sofrimento. E mesmo que não fosse doloroso, eu não faria.

OP – O tema da sexualidade também norteou sua pesquisa no doutorado. Foi também uma forma de estudar um tema tão pouco investigado?

Luma – O tema do doutorado em Educação foi “As travestis na escola – assujeitamento e resistência à ordem normativa”. Era um estudo sobre as travestis nas escolas. Vivenciei todo esse sofrimento. De não poder frequentar um banheiro adequado ao meu gênero, de ser espancada e verbalmente maltratada. O doutorado é um instrumento do poder que legitima sua fala. Entender que boa parte da evasão de travesti na escola não é por interesse do próprio aluno. É uma consequência da vivência que ele tem na escola. O abandono de uma travesti é ocasionado por uma evasão involuntária. De certa forma, como fala Berenice Weissheimer, uma das grandes pesquisadoras do assunto, isso é uma expulsão. É uma evasão involuntária. E se perguntarem, na escola, porque esses alunos abandonaram, vão dizer: ‘Ah, é porque são irresponsáveis, não querem nada da vida’; ‘não têm capacidade de continuar na escola’.

OP – Existe algum fator novo que você percebeu na pesquisa?

Luma – A questão do documento, da chamada, o nome social na escola. Através da pesquisa, conseguimos chegar junto ao Conselho Estadual de Educação do Estado para que as travestis fosse aceitas e tratadas pelo nome social. Outro ponto a que chegamos foi a retirada da Carteira de Reservista, o constrangimento que é retirá-la. Ela é do sexo masculino, mas do gênero feminino. Ela é obrigada, para ser cidadã, ir contra os próprios princípios. E a sociedade impõe isso à força. Não era nem necessário ser pedida Carteira de Reservista para uma travesti porque ela é do gênero feminino. Poucas vão ter coragem de passar por esse processo. E como ela vai se integrar na sociedade, sem esse documento? É uma cidadania institucionalmente negada.

OP – Você e seu companheiro pensam em adotar uma criança?

Luma – A gente pensa, no futuro.

(Angélica Feitosa, O Povo Online)