JABALYA, Faixa de Gaza – Maior hospital da Faixa de Gaza, o al-Shifa se tornou ponto de encontro e refúgio de palestinos atingidos pelos bombardeios israelenses e de pessoas que aproveitam para prestar solidariedade aos mais de 385 feridos nos ataques dos últimos dias. A maioria das vítimas chega ao hospital durante a noite, em geral com fraturas e ferimentos no peito e abdômen provocados por estilhaços e pedaços de vidro de janelas quebradas pelas explosões. Segundo os médicos que trabalham no hospital, o cenário não é diferente de outras ocasiões em que Israel atacou o enclave, mas a falta de suprimentos já causa preocupação.

– Até agora não tivemos tantos feridos quanto na última guerra – disse o cirurgião Hani al-Shanti ao jornal britânico “Guardian”. – Mas estamos na expectativa, pois ela (a guerra) ainda está apenas começando.

Assim que Israel começou sua ofensiva, o hospital pôs em ação seu plano de emergência, que inclui plantões médicos de 24 horas por dia para garantir que todos os feridos sejam tratados o mais rápido possível. Embora não sofra com falta de especialistas e funcionários, o al-Shifa enfrenta limitações no fornecimento de combustível, cujos estoques estão baixos desde que o bloqueio a Gaza começou há cinco anos. Atualmente, boa parte do suprimento de combustível do hospital é feito por meio do contrabando do Egito através da rede de túneis que liga o país à Faixa de Gaza, um dos principais alvos dos ataques israelenses. Com isso, as reservas usadas para alimentar os geradores ligados durante os frequentes e longos cortes de energia estão acabando.

– Temos combustível suficiente para apenas 48 horas de uso contínuo – contou Luay el-Khaldi, outro médico do al-Shifa, ao jornal britânico. – Se ficarmos sem combustível, nosso plano é evacuar os pacientes para o Egito. Ambulâncias egípcias já estão à espera na fronteira.

Procissão de mortos e feridos

Mas enquanto o al-Shifa permanece de portas abertas, a procissão de mortos e feridos não para. Na sexta-feira, durante sua visita a Gaza, o primeiro-ministro do Egito, Hisham Kandil, chegou ao hospital no mesmo momento em que duas ambulâncias deram entrada com vítimas de uma explosão. Eram um jovem ferido e uma criança de menos de 2 anos, Mohammed Yasser, já morta. Kandil ajudou a carregar o corpo do menino para dentro do hospital, ostensivamente sujando a camisa com seu sangue e beijando sua fronte. Ontem, foi a vez de Rafik Abdessalem, ministro de Relações Exteriores da Tunísia, também visitar o hospital e criticar a ofensiva israelense.

– Israel tem que entender que existe uma lei internacional que ele tem que respeitar e parar com a agressão ao povo palestino – afirmou Abdessalem.

Ainda na sexta-feira, a família Abu Wardah acordou cedo com a notícia de que haveria uma trégua durante a visita de Kandil. Assim, depois de dois dias sem sair de casa para evitar os ataques israelenses, o patriarca Abed Abu Wardah foi ao mercado comprar comida, enquanto seu filho Aiman, de 22 anos, partiu em busca de gás de cozinha. Ainda durante a manhã, porém, uma forte explosão atingiu a vizinhança, matando Aiman e seu vizinho Mahmoud Sadallah, de 4 anos, que saíra à rua para brincar, contrariando pedidos de um primo para que permanecesse dentro de casa. Ambos também foram encaminhados para o al-Shifa.

– Não vimos nenhum combatente, todas as pessoas (que chegaram ao hospital) são civis – afirmou Shanti, acrescentando que crianças como Sadallah e Yasser são as principais vítimas dos bombardeios até agora.

Segundo as autoridades palestinas, pelo menos nove já morreram desde quarta-feira.

E os casos do tipo continuam. Em uma enfermaria no segundo andar do hospital, Abdullah Abu Amsha esfregava o peito do filho de 2 anos, Mohammed, com a cabeça coberta de bandagens devido a uma fratura do crânio provocada por estilhaços.

– Qual a falha dele? Qual sua culpa? – gritava Abu Amsha, contando que está ao lado do filho, sem dormir, desde que ele foi atingido na quarta-feira. – Quem consegue dormir com todas estas bombas e explosões? O Exército de Israel tem que ser punido por isso.

Também numa cama do al-Shifa ainda está uma das primeiras vítimas dos ataques israelenses. Mohammed al-Shorfa, 36 anos, teve o estômago aberto por estilhaços depois que saiu para ajudar vizinhos cuja casa tinha sido atingida por um míssil. Pai de cinco crianças, Shorfa ignorou os apelos dos filhos para que ficasse dentro de casa e ajudou a carregar os feridos para uma ambulância impedida de se aproximar devido aos escombros na rua.

– Foi quando o segundo ataque nos atingiu – lembrou.

Diante da escalada da violência nos últimos dias, no entanto, os médicos do al-Shifa não esperam ter uma folga tão cedo.

– A situação está séria – resumiu Shanti, acrescentando não saber quando finalmente poderá voltar para casa. – Há 48 horas não vejo minha esposa. Estou com saudades dela.

(Agência O Globo)