247 – José Serra é, para a política, o que Bruce Willis representa para o cinema. Em 2010, ao ser derrotado por Dilma Rousseff, fez seu discurso dizendo um “até breve”. Em 2012, após a derrota para Fernando Haddad, afirmou que saía da disputa “revigorado e com ideias novas”, ou seja, pronto para futuras batalhas.

Antes mesmo da apuração das urnas, quando não se conhecia o resultado oficial mas já se pressentia que Serra seria derrotado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso propôs a renovação do PSDB, ao dizer que “a renovação é necessária sempre e o Brasil está mostrando isso mais uma vez”.

Serra não gostou. E em telefonemas e emails disparados a aliados nos últimos dias, ele passou a dizer que “renovação é coisa do PT”, além de dirigir impropérios impublicáveis a FHC. Ou seja: ele se mostrou disposto a continuar lutando por espaços num partido que tenta se livrar dele. Muitos tucanos gostariam de já sacramentar Aécio Neves como candidato à presidência em 2014 e Geraldo Alckmin à reeleição no mesmo ano. A Serra, restaria tentar o Senado.

Ele, no entanto, não parece disposto a ceder. E assim como Bruce Willis pode protagonizar diversas batalhas – a série “Duro de Matar” já produziu cinco filmes e, em todas, o protagonista sobreviveu.

No entanto, nesta quarta-feira, um dos melhores amigos de José Serra (e também de FHC), o jornalista Elio Gaspari, sugere que o PSDB renove não apenas seus quadros, mas também suas ideiais, eliminando o que chama de “demofobia”. Leia:

Uma vinheta da eleição paulistana

Elio Gaspari

Em agosto, quando o candidato Fernando Haddad prometeu a criação de um Bilhete Único Mensal, pelo qual o cidadão poderia comprar um passe livre para os ônibus municipais, a marquetagem tucana acusou-o de propor uma taxa, um “bilhete mensaleiro”.

Dividia-se o eleitorado em dois grupos. Um, que já foi a Londres, Nova York ou Paris e sabia que esse tipo de bilhete com desconto não é uma taxa, pois ninguém é obrigado a comprá-lo. Noutro grupo estava a população que usa os ônibus. Para ela, bastava fazer a conta: se o novo bilhete custar R$ 150 e o cidadão fizer duas viagens por dia, a tarifa de R$ 3 cai para R$ 2,50.

Com o início da propaganda eleitoral gratuita Haddad tinha 16% nas pesquisas, bem atrás dos 35% de Celso Russomanno, que sobrevivia ao raquitismo de seu tempo de exposição e de uma ofensiva de parte da hierarquia católica. Uma semana antes da eleição, o “fenômeno Russomanno” começou a evaporar. Na véspera, tinha 27% das preferências. Abertas as urnas, ficou com 22%, fora do segundo turno. O que houve? No final de setembro Russomanno prometera a cobrança de tarifas diferenciadas nas viagens de ônibus. Simples assim: quem anda muito pagaria mais, como quem viaja muito é o trabalhador, lá vinha tunga. Até hoje a explicação mais convincente para a implosão de Russomanno está na migração dos eleitores mais pobres. Perceberam o perigo e saltaram.

O tucanato, que condenara o Bilhete Único Mensal acordou e, no segundo turno, correu atrás, propondo a extensão da sua validade. Desde 2004, quando a prefeita Marta Suplicy foi a primeira a instituir essa modalidade de tarifa numa grande cidade brasileira, governantes e candidatos do PSDB olham para a iniciativa com cara feia. Primeiro porque criticavam-na nos seus aspectos técnicos. Depois, porque ela parecia coisa do adversário. Acordaram com oito anos de atraso.

É uma exagerada temeridade atribuir o resultado eleitoral de São Paulo ao item do Bilhete Único, mas certamente ele foi um dos ingredientes do naufrágio, pela percepção oferecida ao eleitorado. No primeiro turno uma parte dele saltou de Russomanno porque o doutor queria cobrar mais caro pelas tarifas de quem fica duas horas no ônibus para chegar ao trabalho. Não se deve esquecer que os transportecas da prefeitura defenderam a instituição do pedágio urbano para veículos sobre pneus numa cidade em que a municipalidade nada cobra pelos pousos de helicópteros. Com uma cabeça dessas, um candidato tucano poderá ganhar a eleição em Fort Worth, no Texas, pois lá está a fábrica das aeronaves Bell.

A renovação de que o PSDB precisa e que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vocalizou é de nomes mas, sobretudo, de ideias. Não só de propostas novas, mas sobretudo de uma faxina nas velhas, demofóbicas. Os candidatos do PSDB deveriam ser obrigados a usar a rede de ônibus todos os dias, durante pelo menos uma semana. A experiência valeria mais que sete seminários com ex-ministros tucanos reapresentando ideias de um governo que acabou em 2002. Algo como barões do Império amaldiçoando a República em 1899, durante o governo Campos Salles.

(Brasil 247)

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