A Memória do Tempo

Artigo: Drawlio Joca

Fotografia: Chico Albuquerque

12 de setembro de 1894, rua Paraíso, célebre bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro. Nasce o dono da chamada voz orgulho do Brasil. Ainda se fazia longínqua a época em que a Bossa Nova instauraria um outro modo de cantar e o então recém-nascido, por dote e pela habitualidade do seu tempo, entoaria em vida a lírica de sua Coração Materno, tal e qual um rufar de tambores ou o soar das trombetas dos anjos e dos guardiões, fosse ao vivo através da boêmia noturnal carioca ou singrando sua portentosa voz por meio das ondas da era do rádio.

Nalgum impreciso dia de 1952. No canto superior esquerdo do quadro, o olho de um homem de 35 anos vê o que também agora vejo. V. Celestino, desta forma, com o prenome abreviado, assim está inscrita na grande peça triangular de lona de algodão, a designação batismal da pequena embarcação. Seu dono, por assim denominá-la, em óbvia homenagem ao singrante tenor, talvez desejasse que com tal força e eloqüência sua nau singrasse bravamente os verdes mares. Mais abaixo, mas ainda à esquerda do retângulo, dois homens de costas para o nosso observador postam-se sentados no madeiro conhecido por piúba, importado da mata amazônica paraense especialmente para a construção da embarcação, da qual desta não se pode ver o nome. Do mesmo pau de piúba, por certo o feitio da outra nau similar e na direção da qual eles olham, a primeira, a jangada Vicente Celestino.

O espectador, deslocando então seu astuto olhar para a direita através do quadro, mas por um breve instante fugindo à sua consciência o primeiríssimo plano, vê ainda neste dia já de um século e de um milênio passados, a fugaz passagem de um homem moreno que observa um outro, este por sua vez preguiça, alonga suas pernas sobre esteira à areia da praia e olha para o observante, sendo o único a fazê-lo e a denunciar-lhe a oculta presença. Prosseguindo em sua criteriosa observação, o recôndito desconhecido varre com seu olhar pertinaz toda a realidade exposta à direita da cena, minuciosamente, com perspicácia tal qual a do olhar eletrônico de um poderoso escaner. Vê então aos pés daquele mandriado que também o vê, um instrumento de trabalho construído de forma rudimentar a partir de paus amarrados em uma grande pedra e utilizado pelos bravos homens do mar para fundear suas embarcações à hora do ferrar panos: o toaçu. À direita desta elementar âncora, o samburá, espécie de cesto trabalhado por mãos desta cena desconhecidas, que entrelaçaram o cipó de tal maneira abaloada, para que este utensílio sirva para guardar os frutos da pescaria. Mais feliz o incógnito obreiro, quando o objeto do seu trabalho retorna da lida no mar, nas palavras do desta feita também contente pescador – samburá cheio e roda afora. Transbordando de peixe, assim a cesta deve estar para a predileção de todos, sempre que os rolos de madeira vistos pelo nosso observador à direita e abaixo da cena forem utilizados para deslizar a jangada de volta à firmeza da terra.

Terra. Entre terra e mar balouça a vida destes argonautas. Terra, a segurança continuamente conquistada e renegada, numa espécie de movimento circular que busca o porto seguro, mas retorna sempre ao incerto, fugaz calmaria que cede sucessivamente ao intrépido e incontrolável desejo de navegar. Terra. Em sua morada, o pescador descansa do balanço marítimo novamente se balouçando em sua rede de dormir, como numa dança mítica da qual seu corpo não consegue se apartar. Ainda que aportado, balouçam todos os seus órgãos, todas as suas células, todo o seu espírito neste bailado do mar, na contumaz embriaguez de sua maresia, no insofismável murmúrio de suas ondas. Tudo presente em seu âmago, gravado para sempre na memória de sua pele.

Terra, retomando a realidade imediatamente observável, o observante vê ainda a sua direita algum casario que serve de morada e descanso para os pescadores. Adiante um majestoso coqueiro que ocupa precisamente o terço oposto ao peso maior da composição, conferindo-lhe equilíbrio. Ao fundo e quase a perder de vista, coqueiral e dunas. Acima e abraçando tudo o que é visível por este atento olhar, um céu limpo, céu de brigadeiro, típico destas terras setentrionais de sol impiedoso. Deste febo poderoso e brilhante vem toda a luz que ilumina e resplandece a cena. Luz que torna possível que a partir de um preciso ato do observador e de sua alquimia, vejamos ainda hoje tudo o que ele neste outro tempo vê. Mesma luz que abrasa e marca a pele de todo aquele que ali vive, outorgando-lhes para sempre a tez amorenada.

Tornando velozmente sua consciência ao primeiríssimo plano, o espectador observa diante de si a figura de um pescador portando chapéu de palha e roupas de algodãozinho de primaz brancura, mas ali tingido a castanho-escuro a partir do corante natural que larga da fervura da casca do cajueiro. Antes, durante e depois do ato terminante que embora há muito já o tenha feito, na cronologia desta narrativa, ainda realizará nosso observador, o pescador trabalharia na construção de sua embarcação. O feitio consistia na época em prender os troncos de piúba da jangada através de tornos, espécie de grandes pregos de madeira feitos de pau-ferro, por ser este um lenho de extrema dureza. Os tornos eram transpassados transversalmente aos paus de piúba a marretadas, unindo-os.

A tudo isto assiste atentamente nosso espectador neste breve instante deste dia já perdido no tempo.

Que olhar pervagante é esse que olha para todas estas coisas num átimo? Que consciência é essa que a tudo vê no tempo de um raio? Que sentimento é esse que determina o instante crucial desta cena?

Zuuuuum! Zune o zunido do choque da ferramenta com o ar. Tensão máxima na cena: eis o momento decisivo! O contumaz observador ouve, sente e vê o pescador deslocar rapidamente a marreta através do espaço e do tempo e no preciso instante em que o melhor desenho de tudo isto que até agora aqui narramos se faz, Chico Albuquerque aciona o disparador de sua câmara obscura e eterniza este momento, tornando-o uma fotografia, um documento.

Depois de ouvir o som sutil do disparo do obturador de seu instrumento, o fotógrafo ainda ouviria na fração de segundo seguinte, o estampido resultante da colisão da marreta com o pau-ferro. A partir daí, o que ele fez e o que todos os atores de sua cena se puseram a fazer, não cabe mais na narrativa desta sua fotografia. Dentro de sua câmara, no inimaginável intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo som, já estava gravada em seu fotograma a imagem latente.

2002. O tempo. Cinqüenta anos passados, encontro-me aqui debruçado sobre esta fotografia de Seu Chico realizada na lendária praia do Mucuripe e ponho-me a pensar sobre o ofício de um fotógrafo, seu particular tempo de observação, sua forma de olhar para o mundo, todos os seus momentos decisivos e ainda sobre as tantas histórias de vida silenciosamente guardadas em seus instantâneos. A partir da reconstituição poética que aqui fiz do momento da realização desta fotografia, situando sua historicidade, descrevendo seus aspectos e suas particularidades, uma impressionante quantidade de informações pôde ser obtida dentro da leitura descritiva de apenas uma única imagem. Eis a grande importância que a fotografia tem como fonte de pesquisa.

O mestre se foi, mas permanece a sua obra especialmente relevante para nossa memória iconográfica. Tudo o que dela pode se extrair fortalece a identidade e as reminiscências do nosso povo.

O fotógrafo se ocupa de registrar realidades que estão em constante processo de transformação e preservá-las enquanto documento visual. Fotografia é a memória do tempo que se esvai.

A crescente importância de um trabalho de fotografia se dá na razão direta da evolução do tempo. O que hoje nos parece comum, corriqueiro e até banal, muitas vezes guarda um sentido no qual está inscrita nossa própria história.

Fonte de pesquisa: Antero Ferreira Bezerra, Seu Tutuca, nascido em 1921 em Canoa Quebrada – certamente à época uma dessemelhante praia – autodidata, alfaiate por ofício, orquidófilo por satisfação, meu avô, deu ciência a este texto com preciosas informações sobre a vida dos homens do mar.  

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