O senador Cristovam Buarque, homem a quem admiro por sua cultura, afirmou na semana passada que o PT envelheceu, suas  caras ficaram velhas e que há um esgotamento da população em relação à sigla.

Como nem sempre cultura é sinal de compreensão política, peço licença ao professor para discordar e lembrar a ele que  um partido como o PT não envelhece porque faz parte de momentos decisivos da história deste país e a maioria de seus militantes tem certeza do que quer, permanecendo firme onde está mesmo nos momentos difíceis.

Cristovam parece ter se esquecido de que, só chegou onde está,  porque um dia foi eleito devido à força e à garra dos militantes deste partido que durante 13 anos lutaram com fibra para eleger Lula e chegaram lá.

Em 2005, quando resolveu abandonar o partido, Cristovam me disse que o PT estava liquidado para os próximos 15 anos, no mínimo, e que seu projeto pessoal não lhe dava tempo para esperar por isso. A análise de Cristovam era similar a de homens como a do senador Jorge Bornhausen que, referindo-se ao PT,  disse à época: “ esta raça está sendo extinta por pelo menos 30 anos ”.

A caravana passou, os cães ladraram e a conclusão é óbvia. Suas excelências não contam com algo imprescindível a grandes políticos: previsão histórica. Em relação a Bornhausen nenhuma surpresa mas a Cristovam, que decepção! Foi petista mas não vivenciou na prática a história do PT. Por ali apenas passou.

Estamos onde estamos mas trazemos vivas conosco as lembranças de nossa fundação, do contexto político da época e de tudo que passamos para chegar até os dias de hoje.

Era 1979, e o general João Baptista de Figueiredo estava no poder. O Brasil vivia ainda sob o processo de “abertura lenta e gradual”, iniciado com Geisel. Houve anistia aos atingidos pela Lei de Segurança Nacional e com a volta dos exilados políticos, discutia-se a reformulação do quadro partidário, bipolarizado entre Arena e MDB desde o golpe militar de 1964.

Para apressar a queda da ditadura, os políticos cogitavam formar uma frente ampla de oposição, considerada por  Lula ampla demais, pois contava com ex aliados do regime militar , que na certa não defenderiam os interesses dos trabalhadores. Ciente disso, fundou em fevereiro de 1980 o Partido dos  Trabalhadores com sindicalistas, intelectuais, políticos e representantes de movimentos sociais, lideranças rurais e religiosas.

Em seu primeiro ano de fundação o partido enfrenta a fúria da ditadura. Em luta por melhores salários e condições de trabalho os metalúrgicos do ABCD, liderados por Lula, aprovam uma greve geral e a zero hora de 1 de abril, 140 mil metalúrgicos de São Bernardo do Campo cruzam seus braços.

A paralisação é considerada ilegal e a repressão policial-militar investe com violência contra trabalhadores, homens, mulheres e crianças reunidos no estádio de futebol da Vila Euclides.

Helicópteros do Exército, com portas abertas exibindo soldados e metralhadoras, sobrevoam 100 mil manifestantes, uma multidão de alma petista. Impedidos de ouvir os discursos sob o barulho ensurdecedor das aeronaves, entoam todos juntos e de mãos dadas o Hino Nacional.

Decretada a intervenção no sindicato, Lula é afastado da  presidência com toda a diretoria e preso juntamente com outros 17 dirigentes sindicais com base na Lei de Segurança Nacional, no Departamento de Ordem Política e Social -DOPS, órgão responsável pelos maiores horrores da ditadura, ai permanecendo 31 dias.

O movimento resiste até 11 de maio e uma semana depois a prisão preventiva dos sindicalistas é revogada. Julgado pelo Conselho Permanente de Justiça da 2ª Auditoria Militar de São Paulo em novembro de 1981, Lula foi condenado a três anos e seis meses de prisão, decisão posteriormente anulada pelo Superior Tribunal Militar.

Em julho de 1980, é barbaramente assassinado no Acre, com três tiros nas costas, a mando de fazendeiros locais, o presidente do Sindicato dos Seringueiros do estado, Wilson Pinheiro. Lula e Zé Francisco da Contag comparecem as manifestações de protestos contra a morte do líder sindical. Isso lhe rende outro processo por incitação à violência.

No dia do julgamento no STM em Brasília, era necessário estar de terno para entrar. Como a maioria dos companheiros petistas não tinha terno, arrumamos emprestado um paletó e uma gravata e revezávamos entrando um de cada vez com o paletó, assistindo uma parte e saindo para que outro fizesse o mesmo. E assim foi durante todo o julgamento.

Em 1982, com apenas dois anos de vida o PT já estava implantado em quase todo o território nacional e tinha cerca de 400 mil militantes quando Lula disputou o governo de São Paulo recebendo, como  quarto colocado, 1.133.695 votos. Já na primeira eleição que concorreu o PT elegeu 8 deputados federais, 12 estaduais e 78 vereadores.

Em 1985, ano da greve de maior envergadura de canavieiros em Guariba (SP), o companheiro Zé Genoíno é acusado de incentivar a morte de policiais mortos juntamente com trabalhadores em confrontos entre eles. O partido continua crescendo enquanto muitos fatos semelhantes a estes se repetem na história do PT na luta pelo fim da desigualdade social neste país.

Um ano depois, na eleição da Assembléia Nacional Constituinte,  Lula é  eleito o deputado federal mais votado do país, com 650.134 votos e a bancada federal do partido passa a ter 16 deputados. Em 1988, o PT teve uma performance histórica com a eleição de 36 prefeitos e mil vereadores em todo o Brasil.

Quando em 2002 Lula se candidata pela quarta vez à Presidência da República e se elege, 22 anos já haviam se passado desde a fundação do PT. Depois de muita luta e aprendizado o partido está amadurecido, constrói uma ampla aliança com outras forças partidárias e reúne sindicalistas, ONGs e empresários de todos os segmentos em prol de um projeto de nação soberana.

Hoje estamos onde estamos, certamente não livres de errar, e de com isso aprender. Somos humanos. Mas com certeza temos um norte e na busca dele seguimos sem desistir. O PT não envelhece e não vai morrer porque não é apenas um partido. Ser petista é uma profissão de fé, e a fé se renova  a cada dia.

Dep.Chico Vigilante

Líder do Bloco PT/PRB