por Conceição Lemes

Tudo estava dentro do script programado. Repetir 2008, ou seja, uma grande aliança em torno da candidatura à reeleição de Marcio Lacerda (PSB) à prefeitura de Belo Horizonte, tendo um petista como vice.

Parecia até uma daquelas reportagens que vão sozinhas para a gráfica ou para o vídeo, de tão iguais que são ano após ano. Do tipo, “os cemitérios estão lotados no Dia de Finados”, ou “não vai faltar peixe na Semana Santa”.

Até que o PSB, dizem que por imposição do senador Aécio Neves (PSDB), decidiu não fechar chapa com o PT para a Câmara Municipal, rompendo um acordo feito anteriormente.  O PT decidiu então desembarcar da candidatura Marcio e lançar Patrus Ananias como candidato a prefeito de Beagá.

A militância petista de Minas que há tempos andava cabisbaixa, desanimada, está empolgadíssima. Foi por aí comecei esta entrevista com Patrus Ananias, que foi vereador, relator da Lei Orgânica do município de Belo Horizonte, prefeito, deputado federal e ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome no governo ex-presidente Lula.

Viomundo – Nos últimos dias, conversei com mineiros de Belo Horizonte, Brasília e São Paulo, que estão muito felizes com a sua candidatura a prefeito. O senhor pretende resgatar na campanha o PT histórico, de militância realmente na rua?

Patrus Ananias – Eu tenho mais de 30 anos de militância no Partido dos Trabalhadores. Só que a minha militância vai além do PT. É uma militância social também, pois sempre procurei exercer os meus direitos e deveres de cidadania e de participação política. E é claro que essa nossa história de compromissos, de engajamento, contribui para motivar não só a militância do PT como a dos partidos coligados conosco, como a do PCdoB e PMDB, e a militância social.

As minhas experiências na vida pública foram experiências muito bem-sucedidas, pois se basearam principalmente na ética, na democracia e na competência de gestão, sempre trabalhando em equipe. Essa é uma direção importante, porque tanto na vida quanto na política ninguém faz nada sozinho. Todas as grandes conquistas são coletivas, compartilhadas.

Cito, por exemplo, a minha experiência como prefeito de Belo Horizonte. Foi um divisor de águas na história da cidade. Depois, sobretudo a minha experiência como ministro do Desenvolvimento Social e do Combate à Fome. Nós implantamos no Brasil o ministério e as políticas públicas sociais. Foi uma grande marca do governo do presidente Lula.

Por tudo isso, há uma sintonia com as pessoas, o que me deixa feliz e mais motivado para fazer uma bela campanha. E, se ganharmos, fazermos um governo que atenda às melhores expectativas da população de Belo Horizonte.

Viomundo – Passava pela sua cabeça sair candidato a prefeito?

Patrus Ananias — Sinceramente, não estava no meu horizonte. Eu já estava com a vida devidamente programada em termos de atividades profissionais; retomei as minhas aulas na Faculdade de Direito da PUC—Minas.

É uma candidatura que não postulei, não pleiteei. As condições se colocaram e vieram. Eu aceitei com muita convicção, muita motivação, inclusive pelas condições em que a candidatura se colocou. Primeiro, assegurando efetivamente a unidade do PT. Depois, a unidade das forças políticas e sociais que se coligaram conosco.  Nós estamos num momento muito bom e as energias estão soprando de forma muito positiva.

Viomundo — Como é enfrentar um adversário que tem 70% de aprovação e as máquinas da Prefeitura e do Estado à disposição dele?

Patrus Ananias – Antes de tudo, o compromisso que eu tenho com Belo Horizonte, que me acolheu há mais de 40 anos. Uma cidade onde eu me constituí, constituí a minha família, me realizei profissionalmente, vivi as principais experiências políticas da minha vida.

Inclusive, vamos contribuir para o debate na cidade, o que é muito bom. E com isso poderemos debater de forma ética, democrática, os grandes desafios que nós vivemos hoje na capital dos mineiros. Então tem essa dimensão.

Também tenho a convicção de que o nosso projeto é o melhor. A nossa história política e pessoal é uma história de lutas, compromissos, com o povo de Belo Horizonte, de Minas e do Brasil.

Agora, além da disputa eleitoral, tem também a dimensão pedagógica, de construção da cidadania, de diálogo com as pessoas, especialmente com os mais pobres, com aqueles que ainda não têm vez e voz.

Então é uma oportunidade de discutirmos Belo Horizonte, lembrando que é o centro da terceira região metropolitana mais importante do Brasil, é a capital de Minas, que é um estado fundamental no projeto nacional. Vamos discutir Belo Horizonte, mas lembrando sempre que ela está inserida no contexto estadual e nacional.

Viomundo – Até semana passada o PT fez parte da administração do Marcio Lacerda. Como vai ser o seu discurso?

Patrus Ananias – Primeiro, nós temos uma diferença histórica. Diferença de projetos, de prioridades. O Partido dos Trabalhadores apoiou o governo Marcio, eu particularmente tive uma posição diferente em 2008, mas isso são águas passadas.

Viomundo – O senhor não apoiou o Marcio em 2008?

Patrus Ananias — Naquele momento, não. Agora, não vem ao caso o motivo, pois não tem incidência nas prioridades de hoje. O fato é que o partido apoiou. Mas foi, claro, apoio a uma pessoa diferente de nós, sempre enfatizando a necessidade de aperfeiçoar, de ampliar as políticas públicas sociais. E já adianto a você. Não faremos uma campanha negativa. Nós vamos discutir quem pode fazer mais e melhor para o povo de Belo Horizonte.

Viomundo — Quais são as suas propostas nesse sentido?

Patrus Ananias – Há três pontos fundamentais, que sempre orientaram a minha vida, a minha militância política e social. Eles estarão conosco na campanha e, se ganharmos, na prefeitura de Belo Horizonte também.

Primeiro, o compromisso com a ética. Não com uma ética teórica, mas com uma ética concreta, diuturna. O nosso compromisso, por exemplo, é de abrirmos efetivamente as contas da prefeitura e prestarmos contas à população de todos os nossos atos e gastos, o que arrecadamos e onde estão sendo aplicados os impostos pagos pela população da cidade.

O segundo ponto fundamental é a questão democrática. A participação popular. Nós vamos retomar num nível mais avançado a questão do orçamento participativo, do planejamento participativo. O orçamento, por exemplo, é condicionado pela Lei de Diretrizes Orçamentárias e pelo Plano Plurianual. Nós vamos abrir um debate na cidade sobre todas as leis e planos governamentais que incidem sobre a legislação orçamentária.

Nós vamos abrir também um debate sobre a relação de interlocução com a cidade, com os conselhos. Na minha experiência na prefeitura de Belo Horizonte e no Ministério do Desenvolvimento Social, aprendi que a ética, a transparência, a honestidade e a democracia no dia a dia são muito eficazes.  As pessoas – tanto os servidores públicos quanto a população – percebem quando a coisa é séria, é para valer, há um compromisso efetivo com o bem público, com o interesse coletivo. E quando isso acontece, elas aderem. Hoje, nós temos questões, como a ambiental, a do trânsito, o combate à violência e às drogas e tantas outras, que pressupõem uma adesão efetiva, consciente, das pessoas, das famílias, das comunidades, das instituições.

O terceiro ponto, desdobrando, é o nosso histórico. É o nosso compromisso com a justiça social, com os pobres, com os excluídos. Nós vamos governar para todos, dialogar com todos, potencializar todas as vocações da cidade, mas fazendo sempre a nossa opção preferencial pelos pobres.

Viomundo – Saúde é um problema visível em Belo Horizonte.  O que planeja para essa área?

Patrus Ananias – Eu considero que o SUS é uma grande conquista nacional. Como prefeito de Belo Horizonte, nós fomos a primeira capital que municipalizou a saúde no Brasil. Mas hoje nós temos de dar uma atualizada no SUS, para que ele continue cumprindo os seus objetivos de universalidade, integralidade e equidade.

Viomundo – O que significa atualizar o SUS?

Patrus Ananias — Primeiro, se queremos serviços públicos de boa qualidade, eficientes, nós precisamos ter também servidores públicos motivados, qualificados, dignamente remunerados, dentro das possibilidades do erário público. Nós vamos trabalhar para a profissionalização do servidor público, incluindo o servidor da área da saúde. É a questão da carreira.

Depois, vamos trabalhar também o sistema, de maneira que as unidades mais complexas, os hospitais, não fiquem sobrecarregados. Atendimento efetivo, eficaz no nos postos de saúde, assim como nas unidades intermediárias também. Enfim, para que tenha atendimento de qualidade nos diferentes níveis dentro do sistema. Vamos avançar também na experiência da saúde da família, que vem se mostrando positiva.

A experiência que tive na prefeitura, depois no ministério, me ensinou que tanto no plano teórico quanto no prático as políticas públicas devem ser integradas. Então, é claro, que a saúde tem os seus aspectos específicos de atendimento, prevenção, combate às enfermidades, atendimento de urgência e emergência. Mas é preciso integrar a saúde também com outras dimensões.  Por exemplo, com segurança alimentar e nutricional, moradia, saneamento básico…

Viomundo – O senhor citou várias vezes a militância. Que recado gostaria de mandar a ela?

Patrus Ananias – Nós estamos vivendo um grande momento e vamos trazer para as ruas de Belo Horizonte a nossa militância. Nós sabemos que quando a militância do PT, dos partidos coligados, dos movimentos sociais, do movimento sindical e as pessoas comprometidas com a ideia de uma sociedade mais justa e melhor para todos saem de casa,  elas começam a multiplicar o seu voto. E, ao conversar com outras pessoas, parentes, familiares, amigos, vizinhos, colegas, a campanha vai ganhando força.

As pessoas sabem que quando o militante pede o voto a um amigo, a um vizinho, a um colega de trabalho,  ou está com a sua bandeira na rua, ele não está fazendo isso por dinheiro, está fazendo por convicção. Isso cria um clima muito positivo que contagia e mobiliza outras pessoas.

Então, estou vendo com muita alegria a perspectiva de retomarmos as ruas de Belo Horizonte com muita paz, muita celebração, mostrando que estão vivas a militância do PT, a militância social. As pessoas se vestem e saem de casa para um projeto que vai além de cada um de nós.

Outra coisa fundamental para mim é que Belo Horizonte é uma cidade esplêndida. Eu tenho uma relação profunda de amor com Belo Horizonte, porque ela preserva muito a nossa dimensão do interior, do sertão, as nossas raízes rurais, roseanas, para lembrar Guimarães Rosa, mas ao mesmo tempo é uma cidade universal. É uma cidade que dialoga com o Brasil e com o mundo. Uma cidade que produz uma cultura de ponta em todas as áreas: dança, teatro, cinema, literatura, música, teatro de rua.

Então, essa retomada de Belo Horizonte como espaço produtor de possibilidades políticas, sociais, culturais, artísticas, inclusive aproveitando melhor os recursos que estão surgindo no Brasil com as políticas sociais, é um desafio muito estimulante e eu sei que as pessoas vão crescer nesse processo.

Viomundo — Só mais uma pergunta. Na verdade, uma provocação. O apoio do Kassab [Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo-PSD], não constrange o senhor?

Patrus Ananias — Não. Nenhum apoio me constrange. Confesso que não tive nenhuma participação no processo de adesão do PSD à minha candidatura. Tenho um grande apreço por militantes do PSD em Minas, especialmente pelo seu presidente, o Paulo Simão, que é muito amigo, uma pessoa com quem eu dialogo e sempre foi um grande parceiro.  Nós acolhemos todos os apoios.

 (Fonte: Viomundo)