O Brasil e o Nordeste são muito diferentes de 60 anos atrás, quando, em 24 de junho de 1952, o Senado Federal aprovou a criação do Banco do Nordeste. Foi a última etapa antes da sanção pelo presidente Getúlio Vargas, em 19 de julho daquele ano. De lá para cá, a realidade regional melhorou bastante e, em boa parte por isso, o País também é melhor. No entanto, muito não mudou nada.

Uma semana após a aprovação no Senado, o então deputado federal cearense Armando Falcão (PSD) foi à tribuna da Câmara, em 3 de julho de 1952. Opositor do getulismo, aplaudiu o que chamou de “uma das poucas iniciativas concretas do atual governo em favor da região”. Não muito diferente dos protestos que ainda se repetem, presidente após outro, sobre a falta de tais políticas.

A sequência do discurso de Falcão o torna ainda mais tristemente atual. Ele dizia que o BNB seria “arma de dois gumes”. “Se entregue a homens competentes e de comprovado espírito público, poderá converter-se em poderoso instrumento de fortalecimento da combalida economia nordestina”. Por outro lado, alertava: “Na hipótese de ser constituída a diretoria ao sopro de meras influências políticas ou à sombra de compensações inconfessáveis, aí então o seu fracasso pode ser anunciado desde já”.

O receio de interferências políticas antecede a criação do banco, mas sempre esteve além da composição das diretorias – e não raro veio de fora.

Lobby café com leite

A ideia do BNB partiu do ministro da Fazenda de Vargas, Horácio Láfer, impressionado que ficou durante visita à região, em 1951, ao se deparar com os horrores da seca. O BNB é filho da estiagem e fundamentado em princípios desenvolvimentistas da então recém-criada Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). As décadas que se seguiram ajudaram a demonstrar que a problemática regional ia muito além do clima. 

Naquela época, surgiu articulação dos dois estados politicamente mais poderosos do Brasil – São Paulo e Minas Gerais – para que instituição nos mesmos moldes fosse criada para beneficiá-los.

O lobby sudestino não teve sucesso diretamente, mas o Governo Federal teve de dar satisfação ao resto do Brasil. A aprovação do BNB pelo Senado ocorreu quatro dias após a sanção da lei que criou o então Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, atual BNDES. Na prática, estabeleceu-se divisão na qual o BNB cuidava do Nordeste e o BNDES do Sul e, principalmente, Sudeste.

Mas, na condição de maior instituição da América Latina voltada ao desenvolvimento de uma única região, a ciumeira em relação ao BNB foi óbvia. Não por acaso, são constantes as investidas com objetivo de lhe extrair poder e atribuições.

O Nordeste está longe de ser o que precisa, mas já não é o que já foi, muito em função da atuação do BNB. Como você verá nas próximas páginas, a região de hoje seria impensável sem ele, em múltiplas dimensões.

O protesto de Armando Falcão contra a falta de políticas regionais permanece atual. A arma ainda tem dois gumes, mas cabe aos agentes políticos fazer com que prevaleça o instrumento do desenvolvimento e seja extirpado qualquer interesse outro.

O que persiste de miséria não é problema só do Nordeste, mas do País. Seu atraso puxa o Brasil para trás e seu crescimento o impulsiona. O BNB é esperança de solução não apenas para os nordestinos, mas para os brasileiros. 

Quando

ENTENDA A NOTÍCIA 

Os 60 anos da aprovação do BNB no Senado ocorrem em momento de crise, com a diretoria derrubada por denúncias de corrupção e em meio a disputa política para preenchimento dos cargos. 

NÚMEROS 

10,9

milhões de operações foram contratadas através do Crediamigo 

35,1

bilhões de reais foram alocados desde 1989 pelo BNB no semiárido 

827

mil contratações do Crediamigo já foram realizadas em 2012

 (Érico Firmo – O Povo Online)