Sediar e controlar uma instituição com o vigor administrativo e o peso econômico do Banco do Nordeste (BNB) significa, fatalmente, desfrutar de força política. Com o BNB, o Ceará torna-se o eixo pelo qual circundam negócios e articulações que levam o Estado a um patamar diferenciado de relevância em relação a alguns vizinhos. É por isso que, agora, diante da crise que atinge o Banco, acende-se o sinal de alerta sobre a capacidade cearense de se manter no comando. Afinal, perder as rédeas da Instituição também significa, fatalmente, sofrer prejuízos na cota de prestígio político.

Com a saída de parte da diretoria do BNB devido a denúncias de irregularidade, e após o afastamento do cearense Jurandir Santiago da presidência por suspeitas de envolvimento no escândalo dos banheiros, o Governo Federal decidiu colocar um baiano no topo do BNB. Paulo Ferraro é ligado ao PT do governador da Bahia, Jaques Wagner, e assumiu o cargo interinamente, por tempo indeterminado.

Diante disso, a atuação do Ceará a partir de agora pode se dar em duas frentes: a primeira consiste em convencer o Governo Federal de que, após o período de transição, o controle do BNB deve permanecer com o Estado; a segunda, mais específica, versa sobre a indicação de um nome para assumir a presidência do Banco.

Por enquanto, deputados e senadores ouvidos pelo O POVO dão sinais de que o trabalho da bancada ainda não deslanchou. Nas duas frentes, as movimentações ainda se restringem aos bastidores. O grupo ainda não tem reunião marcada, oficialmente, para discutir o assunto e, segundo o senador Inácio Arruda (PCdoB), o diálogo entre os parlamentares se dá por meio de telefonemas e conversas nos corredores.

“A primeira questão é que a gente não comece pelo nome. Se cada um da bancada apresentar um nome, não dá certo. Além disso, os últimos episódios estão obrigando as pessoas a pensar mais sobre quem indicar. Primeiro vamos mostrar que o Ceará tem condições de apresentar opções de qualidade. E, mais que isso, vamos levantar o discurso do equilíbrio. Temos de considerar que Pernambuco e Bahia já têm outras instituições de grande porte”, avaliou Inácio.

Apesar do discurso do senador, alguns nomes têm sido ventilados como possíveis indicações dos partidos para o lugar de Ferraro – que a Bahia deverá brigar para manter. Enquanto os petistas optam pelo silêncio, no aguardo até que a poeira baixe, do lado do PMDB já se fala no secretário-geral do partido no Ceará, João Melo, e no atual diretor de Mercado de Capitais do BNB, Fernando Passos, como futuras opções.

Atuação do Governo

Na última quinta-feira, o governador Cid Gomes (PSB) disse que tentará ajudar na articulação da bancada cearense em busca de um consenso, embora afirme que não dará qualquer sugestão para o cargo. “Só indico quem eu tenho poder de demitir”, desconversou. 

Apesar das críticas à interferência partidária no Banco, o governador defendeu a vinculação política dos dirigentes. “A pessoa ter conhecimento técnico é importante, mas as forças se organizam é na política. O errado não é a indicação; o errado são os indicados se desviarem”, defendeu. 

ENTENDA A NOTÍCIA

Ao lado do DNOCS, o BNB é uma das principais instituições do Ceará e do Nordeste, com capital de R$ 2,3 bilhões e quase 60 anos de existência. O Banco atua em mais de dois mil municípios e financia de agricultores a empresários. 

NÚMEROS

 

25

parlamentares tem, no total, a bancada federal cearense 

 

4

bilhões de reais é o aporte que o BNB acaba de conseguir

 

Quadro

 

Galeria de ex-presidentes recentes do BNB e suas influências políticas:

 

Jurandir Santiago: é servidor de carreira da Caixa Econômica Federal e chegou ao BNB, em junho de 2011, ungido pelo PT, após articulações coordenadas pelo deputado federal José Guimarães (PT). O governador Cid Gomes (PSB) ajudou a emplacar o nome. Jurandir era secretário adjunto da Secretaria Estadual das Cidades. Deixou o comando do Banco há algumas semanas, por suspeita de envolvimento no escândalo dos banheiros.

Roberto Smith

Economista, com pós-doutorado feito na França, atuou como professor do curso de Economia da Universidade Federal do Ceará antes de ser indicado para o BNB, em 2003, também por influência do PT, partido ao qual é filiado. As articulações também foram orquestradas pelo deputado José Guimarães. 

Byron Queiroz

Chegou em 1995 ao BNB, durante o Governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) por influência do então governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), de quem ele foi secretário de Planejamento. Sua administração enfrenta acusações de crime contra o sistema financeiro, com denúncias sobre supostas operações irregulares de crédito.

(Hébely Rebouças – O Povo Online)