por Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO
Médica – fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_

Contradizendo o senso comum que mulheres são mais ciumentas do que os homens, os crimes passionais, ou “crimes de paixão”, têm incidência mais expressiva em homens, inclusive em casos de ciúme patológico seguidos de suicídio.

Em geral, homicídios perpetrados por mulheres acontecem em legítima defesa de suas vidas e são em número tão ínfimo que causam enorme surpresa.

Exemplifico com o assassinato e esquartejamento, sem características aparentes de premeditação, do bilionário Marcos Kitano Matsunaga, diretor executivo da Yoki, pela sua esposa Elize Araújo Kitano Matsunaga, em 19 de maio de 2012, sob a alegação de que atirou após de ter sido agredida e ouvido que, em caso de separação, ele queria a guarda da filha: “Eu conheço teu passado; vou levar teu passado para a Vara da Família”. Eis como uma criança perdeu o pai e a mãe.

Em análises de tragédias matrimoniais em que elementos de ódio estão presentes – assassinato seguido de esquartejamento -, cabe a desconfiança rosiana (“Há qualquer coisa no ar além dos aviões da Panair…”) e os rigores da lei. Nem mais, nem menos.

Tentando não cair numa disfunção dos lobos frontais, é preciso cautela para não fazer juízo de valor, supervalorizando os motivos pelos quais alguém pratica homicídio, pois nenhum motivo é grande o bastante que justifique matar. Todavia, no fundo, no fundo, a convivência cotidiana é a forma mais precisa de conhecimento do contexto de crimes catalogados como de defesa da própria vida, como disse Ana de Assis: “Eu é que posso escrever sobre Euclides… Vivemos juntos. Dormimos no mesmo quarto”.

Como no conto da escritora acreana Leila Jalul “Rosa dos ventos”: cansada das traições em série do marido, Maristela, com a ajuda dos irmãos, deu um basta: com uma peixeira amolada, e faiscando de ódio, rasgou “as calças do sestroso e, vapt! vapt! Não deu conta de decepar o rolete por inteiro, deixando para Mário o final da tarefa. Feito isso, suando e estuporada, pede que sejam feitos quatro filés e os acomoda num saco plástico”: jogou um filé de pênis na soleira da casa da amante; o segundo, na casa da mãe dele; o terceiro, na porta da igreja onde casaram; e o quarto, lavou, salgou e colocou para secar no Sol! “Não sabia a razão do gesto, mesmo assim, não custava” (in “Minhas Vidas Alheias”, Clube dos Autores, 2011).

O advogado de defesa, Luciano de Freitas Santoro, afirmou que “Elize perdeu tudo. O crime não teve nenhuma motivação econômica… O mais vantajoso era ela se separar e pedir uma pensão, mas perdeu a cabeça”. Em tese, pois os casamentos, desde sempre, são negócios que podem prescindir, inclusive, do amor.

Na Idade Média, a escolha do noivo era questão de família e/ou o noivo “comprava” a noiva: “o casamento como um ato de aquisição”, exceto na Inglaterra, onde o padrão de nupcialidade era tardio, mas considerava as possibilidades financeiras: “Somente constituíam família quando dispunham de renda suficiente”.

O comum ainda é o casamento entre iguais, sendo os ditos “contos de fada”, tipo Elize & Marcos, raríssimos até hoje, como corroboram dados demográficos que constatam que, majoritariamente, os casamentos se dão entre pessoas do mesmo meio social. Ou seja, no jogo de interesses do casamento contemporâneo, o caráter intraclasse é a regra, sendo as exceções inerentemente complicadas no cotidiano, pela supremacia de poder de quem detém o dinheiro, que se acha dono da vida e da alma da pessoa pobre e da pobre pessoa com quem convive. 

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