UM CATEDRÁTICO FINLANDÊS DISSE QUE NÃO HÁ REMÉDIO PARA O FUTURO DA EUROPA. “SE EXISTISSE, OS LÍDERES DA UNIÃO JÁ O TERIAM RECEITADO. NÃO TEMOS A CURA PARA ESSAS BACTÉRIAS MULTI RESISTENTES, NEM PARA A PREPOTÊNCIA HUMANA”.

20 de Abril de 2012 

Por Anne Palmers, de Gotemburgo, Suécia

Com uma reverência elegante, digna de uma grande atriz, a União Europeia se recolhe para tratar de seus males. Seus jovens emigram para outros continentes para ganhar experiência e dinheiro – apesar de serem indispensáveis a seus países de origem como contribuintes que possibilitarão o pagamento das aposentadorias de seus pais. A opinião geral é que mais vale tentar a sorte lá fora do que sair às ruas das suas cidades em manifestações de revolta e protesto.

Mil e oitocentos suecos emigraram para a China em 2011. Este é um número impressionante, levando-se em conta que o total de habitantes da Suécia é igual ao da população de São Paulo, 11 milhões. Estima-se que o exílio de europeus aumentará nos próximos anos a cifras vertiginosas. Um milhão de gregos já vive fora do seu país. Só a Austrália recebeu cerca de 300 mil deles. Milhares de portugueses vão para Angola, e espanhóis para a Argentina.

A mão de obra parada na União Europeia soma agora cerca de 16,9 milhões de trabalhadores. Destes, 2,7 milhões são britânicos, 24% dos quais são jovens com idade entre 16 e 24 anos. A Espanha tem 20% da sua população de 50 milhões sem salário regular. A média de inativos no continente aumentou 8%.

Em comparação com as 30 milhões de crianças trabalhando em regime de escravidão no resto do mundo, os 500 milhões de moradores da Europa são afortunados, vivendo num território sem aparentes sinais de conflitos bélicos. No total, a pobreza global diminuiu, e a carteira europeia permanece gorda como estava no ano passado. Mas, pela primeira vez em décadas, o “shopping” como estilo de vida não está na moda. Existem sinais bem visíveis de mudanças radicais no comércio. Ele não aumenta mais que 2,5% ao ano, quando até há pouco a média anual era de 7%.

 O Velho Continente está cansado. Sua história de guerras, perseguições e intolerâncias e sua infinidade de dirigentes incompetentes já pesam mais na balança do que suas magníficas obras de arte, sua arquitetura e seus inventos fantásticos tais como o avião, o cinema, a imprensa, os antibióticos, os explosivos e os semáforos automáticos.

“Arregacem as mangas!” ecoa o grito de guerra dos membros mais estáveis da União, Alemanha e França, com o suporte dos países escandinavos. Diante dessa proposta os povos mediterrâneos – que se sentem aprisionados num mundo político que não corresponde a seu modelo de vida – contestam em tons ácidos: “Não usamos camisas com manga”.

Em conferência recente, um catedrático finlandês pintava o futuro da Europa com cores bem escuras. No final, o panorama apresentado parecia tão desolador que seu público lhe pediu um remédio. “Não existe”, respondeu o professor. “Se existisse, os líderes da União já o teriam receitado. Não temos a cura para essas bactérias multi resistentes, nem para a prepotência humana”.

Esse estudioso estimava que os povos europeus sofrem hoje um severo choque com a perda de sua posição de modelo das finanças públicas democráticas. Pedem a volta dos mordomos do regime comunista que fugiram para Pequim levando consigo as melhores invenções e marcas produzidas no continente, bem como os seus lençóis de seda pura e os códigos de suas contas secretas nos bancos da Suíça.

O festival de espertezas começou ao redor de 1998, com a corrida de bilhões de dólares que migraram de conta com um simples clique em tecla de computador. Na rede, a realidade parecia simples ficção. A partir daquele ano, segundo se calcula, moveu-se o valor de fundos de pensão e de investimentos equivalente a 12 vezes o produto interno bruto global. Haviam tantas opções e possibilidades para se “produzir” contas positivas no ciberespaço – sem esforço corporal, sem responsabilidades – até que, em 2008, o xeique Mohammed Bin Khalifa Al-Thani, do Catar, desse cheque-mate num banco da Islândia. Ele ofereceu um serviço ao Banco Kaupthing para salvá-lo da crise. Comprou 5% das ações desse banco sem aportar nem um único centavo. O Kaupthing quase não tinha fundos, mas emprestou ao xeique a soma necessária para a compra das ações. A transação toda não passava de uma camuflagem e de uma falsificação da contabilidade, mas a operação dava ao mercado da bolsa a ilusão de que o Kaupthing estava sadio. Mas isso não era verdade. Com um simples clique o xeique retirou o valor correspondente aos 5% das ações. Resultado: o Kaupthing quebrou, arrastando consigo todo o mercado financeiro. 

Em toda a Europa, aumentaram as divergências quanto aos conceitos filosóficos essenciais a respeito de como governar. O que aconteceu na Islândia não era apenas um jogo de números pouco comum. As novas técnicas, com suas possibilidades não visíveis, está transformando o meio ambiente humano. Novos paradigmas anunciam a sua presença. Na rede, cérebros brilhantes se conectam a cérebros enganadores. Sem qualquer controle, sem uma política analítica. O usuário da rede não está obrigado a seguir regras de veracidade e honestidade, nem a restringir propósitos associais ou contraditórios.

A rede é recebida de braços abertos tanto pelas populações isoladas como pelas grandes massas urbanas. Em vez de se deslocar durante algumas horas por uma estrada real para comparecer a um encontro, as pessoas agora se conectam em poucos segundos através das avenidas virtuais.

Poucos pensam no fato de que o que entra em circuito na rede, nela permanece de modo praticamente indelével. Numa fração de tempo isso pode arruinar a vida de fulano ou melhorar a vida de cicrano.

As consequências dessa evolução da atual cultura dos cliques estavam previstas desde o final do século passado. Mas não existe caminho de volta. Essa realidade está se manifestando como uma sensação de impotência coletiva. O comércio, a produção, o ensino, as guerras, a espionagem, a administração estatal, tudo está na rede universal, com nossos números de identidade, com nossos dados completos e também os dos nossos antepassados. Há apenas uma geração, milhões de trabalhadores europeus passavam a vida inteira ganhando um salário. Hoje, ele pode ser recebido com um clique pré-programado. Dentro em breve, o próprio cliente será caixa no supermercado onde faz suas compras.

Para os europeus do sul, essa mudança brusca está sendo percebida como um mal ainda pior do que a introdução do tear automático nas fábricas de têxteis no século 19. Na ocasião, milhares de trabalhadores tiveram que aceitar o desemprego. Eles se lançaram às ruas em protesto, até perceber que poderiam reciclar a si próprios aprendendo a manejar as novas máquinas de tecelagem automática. A outra opção era emigrar.

Embora o globo viva agora a fase mais próspera e promissora da Era Internet, o conceito político mundial de bem-estar não é unívoco. Novas teorias socioeconômicas advertem que a dose contínua de desinformação e de excesso de informação dispara conflitos sociais, depressões econômicas e divergências políticas, causando crescente insegurança e turbulência social.

Por enquanto o usuário comum não dispõe de instrumentos próprios para analisar a veracidade de todas as informações oferecidas pela rede. Com um clique de telefone celular é possível mobilizar-se 500 mil jovens para que compareçam dentro de meia hora a uma gigantesca festa rave em Sevilha, bem como para cometer violências que tirarão a vida de milhares de inocentes no Senegal.

Em 1997, o sociólogo espanhol Manuel Castells, então catedrático da Universidade de Berkeley da Califórnia Norte, nos Estados Unidos, publicou o primeiro tomo da sua trilogia “A Era da Informação: economia, sociedade e cultura”. Castells insistia na necessidade de se redesenhar o conceito político de governança, as finanças, o mercado de trabalho e, sobretudo, a educação. Propunha uma educação não tão técnica, mas sim geral, centrada no estímulo da capacidade de analisar combinações simbólicas. A sociedade europeia está a caminho de desatar seus laços tradicionais de família, pátria e trabalho fixo. Procura entender o que lhe está ao redor por meio de uma rede de informação através da qual, a cada dia, será mais difícil distinguir o correto do falso numa quantidade enorme de mensagens diferentes.

A União Europeia, que ainda é uma jovem rebelde, está nas mãos dos próprios europeus. A União os obriga a reformar a burocracia e o mercado financeiro, para que povos vulneráveis não percam a confiança no sistema democrático.

Os líderes do norte da Europa estão de acordo que um Estado de Direito regido pela lei deve erradicar a corrupção e aumentar o controle do sistema de finanças, enquanto boa parte dos líderes do sul ainda reluta em abandonar o sistema de propinas, pois ele faz parte da sua cultura. Nem todos estão de acordo em que a única maneira de sobreviver em condições pacíficas é se vacinar contra a prepotência e a avacalhação. 

Existem profundas divergências quanto a políticas domésticas entre os 27 membros da União. No momento, os húngaros não estão de acordo em que o bom êxito da evolução pacífica de um povo depende de uma economia estável e de instituições democráticas. Eles estão no caminho oposto. O mesmo acontece na Holanda. A Finlândia prefere uma maior homogeneidade da sua população, argumentando que isso torna a nação mais resistente. A Suécia prefere a diversidade de mercado e de cultura. A França argumenta que as sociedades demasiado abertas são mais vulneráveis. Mas ainda não é o momento de se atirar a toalha.

O remédio? Existe um movimento crescente no sentido de se constituir uma federação de Estados análoga à federação norte-americana. Será esta a solução para resolver as diferenças entre as nações europeias atuais? Quem, afinal, jogará a última cartada: os Estados Unidos da Europa?

(BRASIL 247)