PREFEITO DE ANÁPOLIS DEPOSTO EM 2003, ERNANI DE PAULA AFIRMA QUE O MÉTODO USADO PARA A SUA DERROCADA FOI REPRODUZIDO PELOS MESMOS PERSONAGENS NO CASO MENSALÃO, INCLUSIVE COM PROVAS FABRICADAS; “DEMÓSTENES E CACHOEIRA OPERARAM PARA DERRUBAR LULA JOGANDO PELA CANDIDATURA DE PERILLO EM 2006”, DIZ

 

Marco Damiani _247 – Ex-prefeito da segunda maior cidade de Goiás, Anápolis, o empresário e fazendeiro Ernani de Paula tem experimentado o doce sabor da vingança por meio da leitura diária, linha por linha, do atual noticiário político. “O governador Marconi Perillo, o senador Demóstenes Torres e o contraventor Carlinhos Cachoeira estão provando do mesmo veneno que serviram a mim”, disse ele ao 247. “Fui cassado por uma armação entre eles, que agora estão pagando dobrado, em dimensão nacional, por suas armações”.

De Paula pertenceu ao mesmo grupo político do trio, mas da turma, em sua versão, foi expulso quando passou a representar uma alternativa de poder real em Goiás. Em 2000, filiado ao PPS, ele se mudou de Mogi das Cruzes, em São Paulo, para Anápolis, onde tinha uma fazenda, com a intenção de se candidatar à Prefeitura. Na ocasião, Perillo cumpria seu primeiro mandato de governador. Demóstenes era o secretário estadual de Segurança Pública. Carlinhos Cachoeira apenas começava a erguer seu império em Goiás. Com apenas dois minutos no horário político da tevê, de Paula surpreendeu e venceu os demais, entre eles o preferido do governador. Ao virar prefeito, porém ele saiu do PPS e entrou para o PSDB de Perillo, a pedido do próprio governador. O relacionamento, porém, nunca foi bom. “Meus pedidos eram sistematicamente recusados, era claro que ele não queria o meu crescimento político”, reclama o ex-prefeito. No poder, ele resolveu mudar para o PFL, onde achava ter maior liberdade de ação. Sua ficha foi abonada pelo deputado Ronaldo Caiado, desafeto de Perillo. Dentro do PFL, De Paula foi fundamental, com os votos que controlava na convenção partidária de 2002, para a escolha de Demóstenes como candidato do partido ao senado. Prova de sua força, naquele tempo, foi que sua então mulher, Sandra Melon de Paula, foi escolhida como suplente de Demóstenes. “Se não fosse pelo meu apoio, ele não teria sido escolhido”.

A trajetória sinuosa do ex-prefeito ajuda a descortinar um pouco mais o ambiente político em Goiás e joga mais um elemento de reflexão sobre o famoso caso Mensalão, que pode ser julgado esse ano pelo Supremo Tribunal Federal. Acompanhe a entrevista:

247 – Por que o sr. foi cassado do cargo de prefeito de Anápolis?

Ernani de Paula – Fui vítima de uma armação. O que houve, tecnicamente, foi uma intervenção do governo do Estado, chefiado por Marconi Perillo, na minha cidade. Até hoje não há uma sentença judicial sequer me tirando oficialmente da Prefeitura. A Câmara dos Vereadores votou a minha destituição somente noventa dias após a intervenção, quando a maioria que eu tinha foi subvertida por uma campanha muito forte. Não tive chances de me defender.

– O que aconteceu?

– Marconi, sob a alegação de que eu não tinha cumprido a destinação constitucional de verbas para o setor de Educação, determinou a intervenção, em 19 de agosto de 2003, e colocou no meu lugar o então vice-governador Alcides Rodrigues. Antes e depois da intervenção, foi criado um amplo clima político na cidade contra mim. Os métodos dessa pressão foram muito semelhantes ao que eles usaram, estou convencido, poucos anos depois na armação do esquema do Mensalão. Marconi fez um acordo com Demóstenes para a reconstrução da minha imagem.

– Como foi feita essa desconstrução?

– Nas semanas anteriores à intervenção, um vereador, Dilmar Ferreira, passou a fazer discursos diários contra a minha administração que repercutiam na imprensa local. Criticava-se tudo o que eu fazia. Eu andava no meu carro particular, e isso era atacado. Eu transferi a sede da Prefeitura para uma casa na cidade, cujo aluguel, de cinco mil reais, eu pagava do meu bolso, e era atacado. Nunca tive uma greve do funcionalismo na minha gestão, mas eles falavam que eu atrasava os pagamentos e pagava pouco. O problema todo começou quando eu mandei apreender máquinas caça-níqueis na cidade e, mais tarde, demiti o procurador do município Ronivan Peixoto. Ele é primo do Carlinhos Cachoeira. Quer dizer, eu mexi duas vezes com o Cachoeira. Primeiro no jogo e, depois, com um afilhado. A partir daí, o grupo deles passou até mesmo a fazer coleta de assinaturas na cidade para criar um movimento pela minha destituição. Hoje, as assinaturas estão sendo pegas contra Marconi. Eles estão provando do mesmo veneno que serviram para mim. Minha vingança, pela qual eu não trabalhei, está chegando espontaneamente.

– Qual foi o motivo da demissão do procurador?

– Eu quis levar a empreiteira Queiroz Galvão para a cidade, para fazer o aterro sanitário e cuidar do lixo. Mas o Ronivan sempre colocava obstáculos, dava ‘chá de cadeira’ nos executivos e engenheiros da empresa, só criava problemas.

– Houve uma licitação?

– Não, eu podia fazer o contrato por situação de emergência. Hoje, quem está por detrás da indústria do lixo em Anápolis é o Cachoeira.

– O que aconteceu depois da demissão?

– Logo depois, o Ronivan passou a ir à Câmara fazer política contra mim, dando depoimentos, falando de picuinhas com ares de escândalo. A máquina de triturar adversários já estava girando.

– A base legal para a intervenção, porém, existiu.

– Eu tirei 500 mil reais da rubrica da educação, que não estavam sendo usados, para pagar os vencimentos dos aposentados da Prefeitura. Mas eu estornei essa quantia três dias depois. O movimento foi suficiente para o Marconi enfiar o pé na minha porta, como se diz, e colocar o seu vice no meu lugar. Por ato administrativo.

– Como foi sua convivência com o governador e seu grupo antes de cair?

– Fui escolhido para ser o coordenador da campanha de reeleição do Marconi, em 2002, na área de Anápolis, e, nessa condição, fui procurado pelo deputado Fernando Cunha (falecido). Ele me deu como missão arrecadar recursos para as nossas candidaturas. Eu perguntei como seria a relação com Cachoeira, que já era um dos caras mais ricos do Estado, e como resposta ouvi que não deveria me preocupar com ele. ‘Esse é de casa’, me disse o Cunha.

– E era mesmo?

– Sem dúvida. Eu cheguei a fazer uma reunião com o Cachoeira e o Marcelo Limírio, que era dono, então, da Neoquímica (fábrica de medicamentos genéricos), na sede da empresa, para fazermos listas de empresários que poderiam contribuir, mas eles não levaram isso para a frente. Acho que porque eram ‘de casa’ e eu não era.

– Mas, nos depoimentos à Câmara dos Vereadores, a sua gestão foi muito atacada.

– Pois é, mas com mentiras. O Dilmar Ferreira, depois que eu caí, veio me pedir desculpas, dizendo que tinha exagerado na dose. Mas aí já tinha passado. E um cara que me acusou de ter pego propina de vinte mil reais, com fitas gravadas e tudo, foi depois à Justiça fazer um documento em que confessou que tudo era uma armação contra mim (reprodução abaixo). Eu fui vítima de um complô entre bicheiros e políticos.

– O sr. era do grupo deles…

– O problema foi que, como a minha gestão em Anápolis era moderna e ágil, e eu era popular, ficou claro que eu seria candidato a governador de Goiás em 2006, quando o Marconi iria completar o seu segundo mandato. E eu queria mesmo ser governador. Daí, com esses métodos todos, começaram a me derrubar.

– O senador Demóstenes Torres trabalhou contra o sr. também?

– Trabalhou sim. Ele participou das articulações de Marconi e Cachoeira contra mim. Apesar de ter contado com o meu, e o deputado Caiado é testemunha disso, Demóstenes não deixou seu cargo um sequer para que a minha mulher pudesse assumir como suplente. Nada, nada, durante oito anos. Ele não confiava em mim, e agora sabe-se porque: eles tinham todo esse esquema que vai sendo revelado agora, e que nós não poderíamos saber. Na primeira gestão do Marconi, Demóstenes foi secretário de Segurança. Foi dali que começou a relação entre ele e o Cachoeira. Aliás, o Demóstenes só virou candidato a senador porque o Marconi passou uma rasteira no Henrique Meirelles.

– Como foi isso?

– Era uma eleição para duas vagas. A Lucia Vânia era candidata a uma das vagas. O Marconi filiou o Meirelles ao PSDB prometendo a segunda vaga para ele concorrer. Mas daí apareceu o Ronaldo Caiado, do PFL, defendendo uma vaga para o partido. O nome do Demóstenes surgiu como opção natural. Eles sempre foram amigos. Na convenção, o Marconi tinha o seu candidato preferido, que havia sido seu secretário de Fazenda. Mas nós, juntos, ganhamos dele a convenção e emplacamos o Demóstenes. Apertado, Marconi, então, passou uma rasteira no Meirelles, não abrindo mão da candidatura de Lucia Vânia. Sobrou para Meirelles sair para deputado federal pelo PSDB. Mais tarde se desfiliou e virou presidente do Banco Central. É outro que deve estar acompanhando toda a essa história com muito interesse.

– Como o sr. vê a situação atual no Estado?

– O grupo político que me tirou do poder está sentindo na própria pele o que eu senti. A diferença é que eles criaram mentiras contra mim e estão caindo, como já aconteceu com a chefe de gabinete e o presidente do Detran, por verdades verdadeiras. O que eu tenho clareza, agora, é que esse pessoal usou o que foi testado sobre mim, com sucesso, para promover uma farsa nacional chamada Mensalão. Observe que todos os principais envolvidos na origem da denúncia são de Goiás. O governador Perillo jogou pesado nisso, quando disse que esteve com Lula para dizer que ele cuidaria dos deputados dele, e o presidente que cuidasse dos seus. Isso ele nunca teve coragem de dizer ao Lula, não disse não. A base da história foi a declaração da deputada Raquel Teixeira (PSDB) de que teria sido procurada pelo Sandro Mabel, do PR, para receber cem mil reais para entrar para a base aliada. Isso é mensalão? Não. Só foi virando mensalão pela virulência do Demóstenes, na tribuna do Senado, e pela divulgação de uma fita, gravada em 2002, com o Valdomiro Diniz recebendo dinheiro do Cachoeira. O Cachoeira e o Demóstenes jogaram para desestabilizar o governo Lula. Desse balanço todo iria emergir, como se tentou, a candidatura do Marconi à Presidência da República em 2006 e, junto dele, o Demóstenes para governador. Marconi seria um cara jovem, renovador, vindo do coração do Brasil. Demóstenes, seu fiel parceiro. Cachoeira, a eminência parda por detrás de ambos. De novo era o mesmo trio, agindo em sintonia. Não deu certo, mas eles quase conseguiram. Enfraqueceram Lula e a história que eles inventaram se arrasta até hoje. Sorte do Lula que conseguiu resistir e a história do Brasil, graças a Deus, foi outra da que Marconi, Demóstenes e Cachoeira tentaram escrever. Isso tem de resultar na CPI do Cachoeira. Tem muito coisas sujas além de toda a sujeira que se está divulgando.

 

 

 (BRASIL 247)