Em 1996, Kathryn Lehman era uma funcionária republicana do congresso dos EUA intimamente envolvida na luta pela aprovação da Lei de Defesa do Casamento, uma regulamentação federal que definia o matrimônio como uma forma de engajamento social restrita a casais de sexos opostos.

Mas, desde então, o debate público sobre uniões homoafetivas se modificou e, com ele, também a forma de Lehman encarar sua própria vida. Ela, que era casada com um homem, decidiu assumir-se lésbica, e, agora, em quase completa oposição a seu passado, luta pelo fim da legislação que, um dia, ajudou a escrever.

Nenhum casal gay “era casado, isso não era permitido em lugar algum”, lembrou Lehman ao portal Huffington Post. Naquele tempo, ela recorda que gays “nunca seriam nossos conhecidos ou colegas de trabalho – pessoas como outras quaisquer”.

Como chefe de um dos conselhos constitucionais da câmara dos deputados, ela alega que jamais imaginaria que a Lei de Defesa do Casamento traria tantos danos à sociedade norte-americana. Hoje, seu texto impede que funcionários estendam a seus parceiros homossexuais o direito a pensões, seguros e benefícios oferecidos por empresas.

O momento decisivo de sua vida teria ocorrido após um encontro com o deputado democrata Barney Frank, político que se tornou célebre ao se assumir um legítimo representante das minorias por ser “judeu, gay e canhoto”.  “Posso me lembrar de Barney dizendo ‘eu não compreendo porque o meu casamento com meu parceiro fere sua capacidade de ser casada. Eu pensei ‘eu também não'”, conta.

Em 2001, viveria um divórcio “devastador”, que a obrigou a buscar terapia e assumir o compromisso de “recomeçar a vida”. Três anos depois, durante a Convenção Nacional Republicana de 2004, se encontraria com Julie Conway, uma militante política que havia conhecido há anos. O reencontro logo levou a um namoro que se mantém até hoje.

Lehman lembra-se de uma grande ironia daquele evento. Enquanto o ex-presidente George W. Bush fazia um discurso sobre a necessidade de proteção dos valores tradicionais do casamento, ela iniciava um amor homossexual e ria de situação.

Embora nunca tenha deixado de se considerar “conservadora”, Lehman rapidamente dividiu com seus colegas seu novo relacionamento com Conway. Em sua maioria, funcionários de poderosos parlamentares republicanos, não houve um sequer que reprovou o casal. “Na verdade eles apenas diziam, ‘bom, fale mais sobre Julie. Ela é republicana?’ E eu respondia, ‘sim’. E eles reagiam com um ‘Ak, ok!'”.

A reprovação surgiria apenas por parte de sua família. Para Lehman, dar a notícia para seu pai não foi “muito fácil”. Mas, de qualquer forma, ele teria ficado feliz ao saber que ela estava “ao lado de alguém que a fazia feliz”.

A militância de Lehman contra a Lei de Defesa do Casamento realmente ganharia força em 2009, quando Ted Olson, um advogado republicano, ajudou a confeccionar a Proposição 8, uma emenda à constituição do estado da Califórnia que bania o casamento homossexual.

Lehman acredita que seu país já cometeu erros, reconheceu-os e logo se livrou deles. “Tradicionalmente, mulheres não trabalham fora de casa. Tradicionalmente, no sul, negros sentam-se na parte de trás dos ônibus. Tudo isso faz parte de coisas tradicionais que mudaram para melhor”.

(OPERA MUNDI)

Anúncios