Fonte: Valor Econômico

Por Murillo Camarotto | Do Recife

A Odebrecht divulgou na semana passada a configuração interna da Arena Pernambuco, um dos quatros estádios do Nordeste que receberão jogos da Copa do Mundo de 2014. No projeto, o número de cadeiras destinadas ao torcedor de maior poder aquisitivo, seja em camarotes, cadeiras especiais ou congêneres, chega a um terço dos 46 mil lugares. O percentual é superior ao das arenas de Fortaleza e Salvador, onde esses lugares não passam de 10,5% do total.

O diretor de Investimentos do Consórcio Arena Pernambuco, Jayro Poggi, informou que a distribuição dos assentos foi definida com base em análises do mercado local, que incluíram pesquisas e entrevistas individuais e em grupo. Os estudos, segundo ele, identificaram uma demanda importante por acomodações mais sofisticadas. “Há um segmento bem amplo desse público que tem uma condição melhor e quer ter privacidade e acesso a serviços diferenciados. E tínhamos que atender a isso”, explicou o executivo.

Quem quiser pagar mais terá à disposição 11,5 mil cadeiras especiais, mais espaçosas e com visão privilegiada do campo de jogo. Também estão previstos 1,6 mil lugares em camarotes e outros 1,9 mil em frisas, espécie de cercado com mesas e cadeiras onde os torcedores poderão ter acesso a serviços de alimentação, por exemplo. Ao todo serão 15 mil lugares “privê”, ou 33% da capacidade da arena. No Castelão, em Fortaleza, serão 10,5%, contra apenas 7,5% da Arena Fonte Nova, em Salvador. Em Natal, as obras da Arena das Dunas estão atrasadas e ainda não houve definição.

Poggi informou também que cada setor do estádio terá mais de uma faixa de preço. Segundo ele, haverá pelos menos dez opções para quem quiser assistir futebol ou algum show musical na Arena Pernambuco, prevista para ficar pronta no final deste ano. Para a Copa do Mundo, o executivo lembrou que a FIFA tem autonomia absoluta sobre a comercialização dos bilhetes.

Um dos fatores que pode explicar a quantidade de acomodações “vip” é o contexto em que o estádio está inserido. Localizada no município de São Lourenço da Mata, região metropolitana do Recife, a Arena Pernambuco será a grande estrela da Cidade da Copa, projeto bilionário que está sendo erguido pela Odebrecht no conceito de “smart city ” (cidade inteligente). Serão construídos edifícios residenciais de médio e alto padrão, universidades, shopping center e hipermercado, entre outros empreendimentos. O local também fica próximo das duas unidades pernambucanas da Alphaville Urbanismo, cujas vendas estão bastante aquecidas.

Além das questões mercadológicas, a maior presença de “áreas nobres” na Arena Pernambuco, quando comparada aos outros estádios do Nordeste, pode ter influências culturais. Na avaliação de estudiosos, há na sociedade pernambucana – com maior ênfase na parte de cima da pirâmide – uma tendência um pouco mais acentuada para a distinção espacial entre as classes sociais, herança que ficou dos tempos, não muito distantes, em que os senhores de engenho comandavam a política e a economia.

“O pernambucano, especialmente o da capital, se vê diferente dos demais cidadãos do Nordeste, devido a uma importância política e econômica que o Estado já teve nos tempos áureos do açúcar. É uma espécie de complexo da aristocracia frustrada”, analisa o cientista social Tulio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco. A perda de importância em nível nacional, ele avalia, pode estar por trás da constante necessidade de auto-afirmação de uma parcela dos pernambucanos.

“Salvador, por exemplo, tem um perfil social mais homogêneo que o de Recife, creio que por conta de nossa elite, que é um tanto mais segregacionista”, analisou o estudioso, que também desenvolve pesquisas sobre as relações entre o futebol e a sociedade. “Com a ascensão das classes mais baixas, o rico vai buscar seu espaço. E o Recife parece ter uma elite mais disposta a ir ao estádio”, completou.

Na mesma linha, a historiadora francesa Christine Dabat, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), observa que os padrões de distinção entre as classes sociais que foram estabelecidos pelo senhor de engenho continuam presentes. “É uma singularidade histórica essa configuração ideológica do que é ser pernambucano”, afirmou a professora, que há 30 anos estuda os reflexos da cultura do açúcar em Pernambuco.

Faz parte do folclore local, por exemplo, ter na ponta da língua a lista dos símbolos da grandeza de Pernambuco, como a maior avenida em linha reta do mundo, o maior teatro a céu aberto do mundo e o maior bloco de carnaval do mundo, entre outras.

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