TEL AVIV – Uma árvore com guirlandas brilhantes, um candelabro com nove velas e o desenho de dois carneiros enfeitam o hall de entrada de uma escola diferente, no coração de Tel Aviv. Os três símbolos religiosos – que representam o Natal, Hanuká e a Festa do Sacrifício, as comemorações de dezembro de cristãos, judeus e muçulmanos – convivem pacificamente no Colégio Bialik-Rogozin, onde 900 crianças de baixa renda de 48 países, com idades entre 5 e 18 anos, encontram-se diariamente para estudar. Algumas nasceram em Israel, outras são filhas de refugiados ou imigrantes. Algumas enfrentam a ameaça de deportação, outras lutam por inclusão mesmo já tendo recebido cidadania. Todas, no entanto, têm algo em comum: histórias de conflito, pobreza e superação para contar.

A escola é cenário do filme americano “Strangers no more” (“Não mais estranhos”), vencedor do Oscar de Melhor Documentário de Curta Metragem de 2011. Os diretores Karen Goodman e Kirk Simon passaram um ano e meio acompanhando o cotidiano de três estudantes africanos que buscaram asilo na Terra Santa. Em junho, os cineastas visitaram a escola com a estatueta para mostrar aos alunos o fruto de seu trabalho.

— Se recebemos o Oscar, é porque essas crianças abriram seus corações para nós. Tudo o que fizemos foi registrar – disse Simon, durante a visita triunfal ao colégio, onde crianças com passados tão distintos conversam em hebraico.

O reconhecimento em Hollywood levou educadores de países europeus como Alemanha e França, que enfrentam o desafio da imigração em massa, a visitarem a Bialik-Rogozin em busca de dicas. O colégio também virou modelo dentro de Israel. Além de estudar o currículo regular e de receber almoço, os alunos podem ficar até o fim da tarde em cursos de música, artes e esportes. Como a instituição é pública, a mensalidade é simbólica: 230 shekels por ano (o equivalente a R$ 114). O financiamento do governo, no entanto, não é suficiente. A maioria dos serviços é fruto de doações e trabalho voluntário. Isso explica o alto percentual de diplomados: 87% dos estudantes completam os estudos.

Um dos personagens do filme é o refugiado sudanês Mohammed, hoje com 18 anos, que caminhou milhares de quilômetros de Darfur até Israel, passando pelo Egito, fugindo da guerra civil em seu país natal. Ele testemunhou o assassinato de seu pai e de sua avó, que o criavam, e só conseguiu fugir depois de se fazer de morto. Sem falar uma palavra de hebraico e nunca ter frequentado uma escola, Mohammed conseguiu completar o Ensino Médio em apenas três anos e hoje trabalha como mecânico numa oficina – um final feliz para quem poderia ter se tornado apenas parte de mais uma estatística do genocídio em seu país natal.

Pelos corredores da escola, a nigeriana Esther Onuca, de 8 anos, brinca com suas colegas de classe, uma sul-africana e uma tailandesa. O passado que as levou ao mesmo local não é o assunto. Elas estão preocupadas com o teste que acabaram de fazer. A cor da pele, a religião ou a língua de seus pais não têm importância na amizade das meninas, que veneram os mesmos ídolos da música e veem os mesmos programas de televisão.

– Adoro vir para a escola. É como se fosse a minha casa – revelou a nada tímida Esther, pedindo para posar para uma foto.

Só 20% dos alunos da escola nasceram de pais israelenses, tanto judeus quanto árabes. Os outros 80% são filhos de pais refugiados ou de trabalhadores estrangeiros. O status de muitos deles, mesmo os que nasceram em solo israelense, é nebuloso. Há mais de um ano, o Ministério da Imigração ameaça expulsar de Israel 400 filhos de imigrantes ilegais. Metade estuda no Bialik-Rogozin.

— Há dias em que, além do trabalho normal, me preocupo em tirar pais de alunos da prisão ou evitar a deportação de alguma criança – contou o diretor da escola, Eli Nehama.

Mas, apesar de todo os contratempos, o clima na escola é de descontração e de esperança. Entre tantos alunos de países distantes, um brasileiro aprende as lições da convivência. É o capixaba Alef Torres Oliveira Nigri, de 14 anos, que se mudou para Tel Aviv depois que seu pai foi assassinado e membros de sua família, jurados de morte por traficantes no Espírito Santo. Há cinco meses, ele aprende hebraico na Bialik-Rogozin, a começar pela letra que inspirou seu nome,”alef”, a primeira do alfabeto milenar.

– Nunca vi um colégio assim, com gente de tantos lugares. É como estudar numa Torre de Babel – resumiu.

(AGÊNCIA O GLOBO)

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