POR JUSTIN DILLIS – AGÊNCIA O GLOBO

Nova York – No final de um dos mais bizarros anos climáticos na história da América, a pesquisa climática continua num encruzilhada. Depois de eventos extremos, como a seca no Texas e as enchentes em New England, cientistas dizem que poderiam, em teoria, fazer um trabalho muito melhor respondendo à questão: o aquecimento global teve alguma coisa a ver com isso?

Mas, por algumas razões, os esforços de publicar relatórios com as causas dos eventos extremos estão, essencialmente, definhando. Entre as principais dificuldades que cientistas enfrentam, destaque para a política ambiental hostil no que tange a nova ciência climática, além de um orçamento federal em crise: o dinheiro está apertado.

Por outro lado, na medida em que o tempo se torna mais errático a cada ano, as pessoas querem saber o que está acontecendo. Quando 2010 acabou, parecia ter sido um ano com surpreendentes problemas climáticos. Porém, nos Estados Unidos, se não em outros lugares, 2011 tem sido ainda pior.

De acordo com as estatísticas, um ano típico no país conta com três ou quatro desastres climático cujos custos excedem US$ 1 bilhão (R$ 1,8 bilhão) cada um. Porém, em 2011, a Agência Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês) registrou uma dúzia destes eventos, incluindo incêndios nas florestas no sudoeste, enchentes em múltiplas regiões do país e mortes durante a temporada de tornados. A agência não terminou a contagem. No final, os custos certamente excederão os US$ 50 bilhões (R$ 92,9 bilhões).

– Eu sou meteorologista há 30 anos e nunca vi um ano que esteja perto de alguma comparação com 2011 em número de surpreendentes casos de eventos climáticos extremos – afirmou no último mês Jeffrey Masters, cofundador da popular página na internet Weather Underground. – Olhando nos registros históricos, que vão até o final dos anos 1800, não consegui encontrar nada que se compare.

Muitos eventos individuais em 2011 têm precedentes nos registros históricos. E o clima do país tem se caracterizado por outros períodos concentrados de clima extremo, incluindo o frio intenso no início do século XX e devastadoras secas, além de ondas de calor em Dust Bowl na década de 1930.

Apesar de ser incomum, se não for sem precedentes, muitos eventos extremos ocorreram em um tempo tão curto. As calamidades em 2011 incluíram incêndios que devastaram milhões de hectares, enchentes no meio-oeste americano e no vale do Rio Mississippi, além de ondas de calor que bateu os recordes em muitas partes do país. Em outras partes do mundo, inundações atingiram a Austrália, as Filipinas e grandes áreas do Sudeste asiático.

A grande questão hoje é se a frequência de eventos climáticos extremos está relacionada à ação do homem e pelas mudanças climáticas. A ciência do clima já oferece algumas pistas. Pesquisadores têm mostrado que a temperatura da superfície da Terra está aumentando, e eles estão certos de que o lançamento de gases-estufa pelo homem, sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, é a maior razão. Por décadas, eles previram que isto iria causar as mudanças na frequência de eventos climáticos extremos, e estatísticas mostram que isto já começou a acontecer.

Por exemplo, cientistas esperam, há muito tempo, que o aquecimento global causaria alternância de extremos, de temperaturas baixas de intenso calor. De fato, pesquisas mostram que cerca de dois recordes de máximas foram registradas nos Estados Unidos para cara recorde de baixa. E padrões similares foram detectados em outras partes do globo.

Especialistas em leis da física sugerem que o aquecimento global poderia reter mais umidade. Cientistas têm mensurado esta umidade do ar e confirmaram que ela está crescendo, abastecendo as chuvas pesadas e tempestades.

– Estamos mudando a grande escala de propriedades da atmosfera, sem sombra de dúvidas – disse Benjamin Santer, do Laboratório Nacional de Lawrence Livermore, na Califórnia. – Você não pode participar deste vasto experimento planetário, o aquecimento global, a umidade na atmosfera, e não causar impacto na frequência e duração dos eventos extremos.

Mas se a contribuição do homem para o aquecimento e precipitação está clara, cientistas estão em terreno mais frágil ao analisar muitos outros eventos. Tornados, o desastre de maior letalidade nos Estados Unidos, ainda desafiam os pesquisadores.

As estatísticas climáticas sugerem que os tornados se tornaram mais numerosos com o aquecimento global. Porém, tornados são pequenos e difíceis de contar. Além disso, cientistas têm pouca confiança em relação à precisão de dados antigos. Ou seja, não dá para ter certeza se realmente houve este aparente crescimento. E, ainda,, os programas de computador usados para analisar os dados meteorológicos não fazem um bom trabalho na representação de eventos como pequenos tornados.

Alguns cientistas apresentam teorias acerca de como o aumento do aquecimento e da umidade podem ter deixado os tornados mais frequentes, mas estas teses ainda precisam passar por análises rigorosas. Também faltam dados sólidos para atribuir o crescimento destes eventos à atividade humana.

– Está claro que nós realmente temos ferramentas científicas e estatísticas necessárias para começar a responder este tipo de pergunta – disse Santer.

Mas fazer isso numa base regular provavelmente exigiria um novo pessoal espalhado por vários grupos de estudo, com forte incentivo do governo federal, que tende ser a maior fonte de recursos nas pesquisas climáticas. Porém, Washington praticamente congelou o assunto mudanças climáticas.