O aposentado Cândido Ribeiro do Nascimento, 59 anos, mostra a “solução” para a falta de esgotamento sanitário na casa dele, na comunidade do Pirambu, em Fortaleza: ele mesmo quebrou o chão e instalou um cano, que sai do banheiro nos fundos da casa e segue até a calçada, onde joga no meio da rua a água utilizada.

PIRAMBU - FORTALEZA-CE

A comunidade é o sétimo maior aglomerado subnormal urbano do país, com população de 42.878 segundo pesquisa divulgada nesta quarta-feira (21) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Foi o jeito, não tinha para onde mandar a água”, afirma Cândido. Assim como ele, outras 2.173 famílias vivem sem esgotamento sanitário, o equivalente a 19% da população da comunidade.

Francisca Carla Rodrigues, 24 anos, filha de Cândido, afirma que na Rua Frota Cavalcante, localidade de Colônia, dentro do Pirambu, o abastecimento de água feito pela companhia de água e esgoto só chegou há dois anos. “Na época, cadastraram todo mundo aqui para fazer o esgoto, mas até hoje não veio ninguém”.

Segundo o levantamento do IBGE, no Ceará, dos 120.936 domicílios em aglomerados subnormais, 112.194 possuem rede geral de distribuição. O restante utiliza poços, carros-pipa, cisternas, entre outras medidas. Em toda Fortaleza são 108.903 domicílios nesses aglomerados. O maior da capital, o Pirambu, tem 11.522 domicílios e, desses, 1.514 ainda não possuem abastecimento de água.

O vizinho da família, o pensionista Paulo Sérgio, 38 anos, afirma que todos na rua utilizam fossas para despejar os dejetos. Alguns, segundo ele, lançam no meio da rua. “Quando enche, chamo o caminhão para sugar e preciso quebrar a parede. Ainda tenho de pagar R$ 80,00 pelo serviço”.

Energia elétrica
Outro problema é a fiação da casa alugada onde mora, que é toda exposta. “Eu quis ajeitar para descontar no aluguel, mas a mulher (dona do imóvel) não quis”, afirmou. A casa dele não está entre as 716 da comunidade que não possuem energia elétrica, segundo o IBGE.

Em todo o Ceará, esse número é de 832 domicílios em aglomerados subnormais a não possuirem energia elétrica, sendo que 659 são em Fortaleza. Ainda entre as moradias que possuem energia elétrica, 7.898 (6,5%) não usam o serviço da companhia distribuidora.

Lixo
A coleta de lixo, segundo os moradores, passa às terças, às quintas e aos sábados. Mas, a dona de casa Flávia Rodrigues relata que a sujeira do esgoto e do lixo já deixou seu filho de três anos doente diversas vezes. Na comunidade, 232 domicílios não utilizam o serviço de limpeza, segundo o IBGE. Em toda Fortaleza, são 2.906 que não recebem esse tratamento, o equivalente a 2,5% da população desses aglomerados na capital cearense.

Ceará
De acordo com o IBGE, aglomerado subnormal é o equivalente a assentamentos irregulares conhecidos como favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, mocambos, palafitas, entre outros. É considerado aglomerado um conjunto constituído por no mínimo 51 (cinquenta e uma) unidades habitacionais (barracos, casas… ), ocupando ou tendo ocupado até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular) dispostas, em geral, de forma desordenada e densa, e carentes, em sua maioria, de serviços públicos e essenciais.

No Ceará, 121.165 domicílios particulares são ocupados em 226 aglomerados subnormais, distribuídos em distribuídos em 14 municípios. São 441.937 pessoas que residem em domicílios particulares ocupados em aglomerados subnormais, o equivalente a 5% da população total do estado que, de acordo com o censo do IBGE de 2010 contabilizou 8.180.087.

A média de moradores em domicílios particulares ocupados em aglomerados subnormais é de 3,5. Isso é quase o equivalente à média de moradores em domicílios particulares ocupados nas áreas urbanas, que é de 3,6.Segundo o IBGE, 88,2% dos domicílios em aglomerados subnormais estavam em Regiões Metropolitanas com mais de 1 milhão de habitantes e apenas 11,8% destes domicílios estavam em municípios isolados ou Regiões Metropolitanas com menos de 1 milhão de habitantes.

Brasil
Em todo o país, foram identificados 6.329 aglomerados subnormais em 323 municípios. Neles residem 11.425 .644 pessoas. Os mais populosos estão entre os que possuem mais aglomerados subnormais que são São Paulo (2.087), Rio de Janeiro (1.332) e Minas Gerais (372). O Ceará aparece em 7º no ranking, com 226 aglomerados subnormais, sendo o terceiro da região nordeste, atrás apenas de Pernambuco e Bahia. Na Região Nordeste, os 70 municípios com aglomerados subnormais se concentravam nas Regiões Metropolitanas (52 municípios).

(G1 CEARÁ)