Dois servidores da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) foram presos ontem pela Polícia Federal acusados de desviar cartões de crédito para um grupo de estelionatários que agia na Capital. Segundo a PF, os funcionários ficavam com os envelopes que os bancos remetiam aos clientes e, depois, repassavam para a quadrilha. Os cartões eram desbloqueados e usados na compra de produtos no comércio de Fortaleza.

Somente na Caixa Econômica Federal, o prejuízo com as fraudes foi de R$ 1,4 milhão, entre março de 2010 e setembro de 2011. “Ainda vamos apurar o prejuízo total. Somando todos os bancos, a estimativa é de mais de R$ 10 milhões”, informa o superintendente da PF no Ceará, Sandro Caron de Morais. Pelo menos cinco funcionários dos Correios estariam envolvidos no esquema. “A maioria é carteiro”, acrescenta. Todos foram identificados, mas somente dois tiveram prisão preventiva decretada pela Justiça Federal.

A operação Olho de Boi -o nome é uma referência à primeira série de selos postais emitidos no Brasil – cumpriu sete mandados de prisão preventiva, 23 de busca e apreensão e nove de condução coercitiva (quando o acusado é obrigado a prestar esclarecimentos, sendo liberado em seguida). Os nomes dos envolvidos no caso não foram revelados pela PF.

O trabalho da Polícia Federal teve início em abril deste ano, a partir de uma demanda dos próprios Correios, que suspeitaram das fraudes. Durante as investigações, a PF descobriu o esquema dos estelionatários. A quadrilha agia por etapas. A primeira era o desvio dos cartões pelos servidores dos Correios. Os funcionários receberiam entre R$ 100 e R$ 150 por cada cartão desviado.

Depois, a quadrilha providenciava os dados dos titulares dos cartões de créditos. Pesquisando em banco de dados, os estelionatários conseguiam o número do RG, do CPF, a data de nascimento e outras informações necessárias para o desbloqueio do cartão pelo telefone. “Eles obtinham de maneira ilegal esses dados, faziam contato com as operadoras e conseguiam desbloquear”, afirma o superintendente da PF.

Umas das pessoas acusadas de obter esses dados é um policial civil, que, segundo a PF, utilizava o banco de dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). O policial receberia entre R$ 20 e R$ 25 por cada pesquisa realizada. Também eram feitas buscas no cadastro da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL).

Após o desbloqueio dos cartões, um outro grupo ficava responsável por falsificar documentos de identidade. Com isso, conseguiam realizar compras no comércio de Fortaleza. “Adquiriam mercadorias de alto valor, principalmente, eletrodomésticos. Depois, esses produtos eram vendidos no mercado clandestino por valores menores, muitas vezes, pela metade do valor real”, explica Caron.

ENTENDA A NOTÍCIA

Foram os próprios Correios que informaram à Polícia Federal sobre a suspeita de fraude. Nas investigações, a PF descobriu o esquema envolvendo funcionários da empresa. Eles teriam desviado cartões de crédito para uma quadrilha de estelionatários em Fortaleza.

 

SERVIÇO

A Polícia Federal acredita que há mais pessoas envolvidas na quadrilha.

Se você tem alguma informação, pode ajudar nas investigações

Telefone: 3392 4900

Para entender

A quadrilha agia de forma organizada. Cada integrante tinha uma função.

Os carteiros eram responsáveis por desviar os cartões de crédito.

Com os cartões em mão, um outro grupo providenciava dados cadastrais dos titulares. As informações eram obtidas em bancos de dados de órgãos como a Secretaria da Segurança Pública e a Câmara de Dirigentes Lojistas.

Os dados eram usados para desbloquear os cartões por telefone. A quadrilha dava preferência aos cartões sem chip (que não precisam de senha).

Depois, outros integrantes da quadrilha falsificavam documentos de identidade. Os dados eram dos titulares, mas a foto e a assinatura eram de outras pessoas.

Com o cartão e o documento de identidade, a pessoa ia no comércio e comprava produtos, principalmente eletrodomésticos. Depois, esses produtos eram revendidos a preços menores.

A PF acredita que esse golpe vinha sendo praticado há pelo menos três anos.

O POVO entrou em contato com o Sindicato dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos e Similares no Ceará (Sintect), mas a coordenadora geral, Maria de Lourdes Félix, preferiu não comentar o assunto.

(Tiago Braga – O Povo Online)