Foram 15 dias de ensaios na Aldeia Amazônica, onde durante três horas e meia, cerca de 180 integrantes se preparavam para o maior espetáculo a céu aberto da cidade, o Auto do Círio, que leva hoje às ruas da Cidade Velha uma homenagem à Virgem de Nazaré com muita dança, teatro e música.

O tema desse ano é “Pavilhão de Flora: o teatro e suas manifestações populares”, que faz uma homenagem aos primeiros Círios. Pavilhão de Flora era o nome de um barracão, que servia de palco para apresentações folclóricas, como cordões de bichos e pássaros, apresentações de dança e teatro, localizado onde hoje é a Praça Santuário. A expectativa é que mais de 15 mil pessoas acompanhem o espetáculo itinerante de hoje.

Nos ensaios, cada grupo treina sua apresentação separadamente, já que o Auto do Círio é realizado em cinco etapas, também chamadas de estações.

Na “Concentração”, localizada na Praça do Carmo, o Anjo Anunciador noticia o início do espetáculo e um coro musical agradece a Nossa Senhora e a cidade por poder compartilhar com eles sua arte. Em seguida entra a bateria e a saída do cortejo.


Um desses anjos é interpretado pelo pedagogo e arte educador Moacir de Castro, 32 anos, que veio de Castanhal todos os dias para participar dos ensaios. “Participo do Auto há dois anos. Venho todos os dias com mais três amigos de Castanhal e vale a pena vir todo dia. Além da arte do teatro em si, poder homenagear Nossa Senhora é muito gratificante”, explica.

Na estação da “Música”, em frente à igreja da Sé, a Orquestra de Violoncelistas da Amazônia, da Universidade Federal do Pará – UFPA, se apresenta junto com Reginaldo Viana. “Esse é o momento que pedimos para a Virgem nos proteger e guardar os artistas em sua caminhada”, explica Beto Benone, diretor geral e coordenador do Auto do Círio.

Em frente à igreja de Santo Alexandre está a estação do “Teatro”, onde o cortejo é recebido por bailarinos da escola Ballare, seguido por uma apresentação dos Palhaços Trovadores. A banda Cocota de Ortega também presta sua homenagem ao Círio nessa estação, onde encontramos a historiadora Vera Brito, 47 anos, participante do Auto do Círio há 16 anos. Ela, que já perdeu as contas de quantos personagens representou no espetáculo, conta que já interpretou vendeiros, pajés, orixás e deusas. Esse ano ela vem como uma dama da Belle Epoque, representando o luxo e glamour daquele tempo. Para ela, o Auto é referência na busca pelo conhecimento. “Foi através dele que conheci muitas coisas, como as oficinas. Isso me incentivou a fazer faculdade de História, por sentir necessidade de ir em busca do conhecimento para engrandecer”, explica.

Vera também é conhecida por soltar a voz ao gritar a famosa frase “Viva Nossa Senhora de Nazaré”, que emociona todos os que assistem ao espetáculo.

“Gritei pela primeira vez em 96 e todas às vezes é com muito amor e fervor. Parece que nesse momento Nossa Senhora está comigo”, conta. Ela fala também sobre a importância dos ensaios para o grupo. “Aqui é uma família. Vai crescendo nosso ciclo de amizades. Só quem está dentro é que sabe. E é também uma oportunidade para nós, artistas, demonstrarmos nossa fé e devoção. Passo o ano inteiro esperando por essa época”, ressalta a historiadora.

A itinerância do “vai e vem da Sé”

Do bairro do Bengui, uma quadrilha junina, do Marex, o grupo de Toadas Etnias. Essa é a estação “Cultura Popular e Dança”, que fica em frente ao Instituto Geográfico do Pará e onde se concentram vários grupos de diversos lugares da cidade para mostrar sua arte. Além de quadrilhas e toadas, tem também o grupo Pará Folclore do Sesc e exibição dos resultados de duas oficinas de danças populares. A música fica por conta de um batuque feito pelo professor Edson Santana e Carla Giz.

Nessa ala, dois jovens participaram das oficinas e estão pela primeira vez do Auto do Círio. O bancário Rafael Cunha, 25 anos, tinha o costume de assistir o espetáculo e decidiu fazer parte do grupo no ano passado. “Sempre gostei de arte. Ano passado me interessei em participar e me inscrevi. Vamos apresentar coreografias de todos os aspectos que envolvam o Círio e cultura, passando da religiosidade ao carimbó”, descreve Rafael.

Já Vinícius Caravelas, 15 anos, foi incentivado pela mãe a participar dessa edição. “Decidi entrar para conhecer mais a cultura paraense e ganhar experiência em dança. Minha mãe incentivou e estou gostando muito, até porque não conhecia nada sobre o Pavilhão da Flora e aqui fazemos muitas amizades. As oficinas foram muito importantes, porque a professora trabalhou nossas dificuldades e ajudou bastante”, diz.

A “Apoteose” fica em frente ao Palácio Antônio Lemos e é lá o momento de agradecer. Nesse palco se apresentam o grupo de dança do Sesc, o cantor Arthur Nogueira, os sambistas Dominguinhos do Estácio e Meio-dia da Imperatriz Leopoldinense, e a Escola de Samba Bole-Bole, que em seu enredo de 2012 homenageia a Escola de Teatro da UFPA com o enredo “Escola de Teatro, Dança e Carnaval”.

O servidor público Anastácio Campos, 62 anos, participa há 13 do Auto do Círio e esse ano vem como Guarda Suíço (que toma conta do Vaticano). “Ele (o Auto) é um ícone na cultura de Belém. Podemos fazer uma viagem na história do Pará e já faz parte do nosso calendário. Começou com cerca de mil pessoas acompanhando, hoje tem mais de 15 mil, isso mostra como cresceu”, complementa.

Para o diretor geral do espetáculo, realizar o Auto do Círio é uma grande responsabilidade. “O Auto é da cidade, todos aguardam. Tomamos muito cuidado com cada uma das estações, coreografias, cenários, para que a população se encante e volte ano que vem. Para quem já assistiu, digo que esse ano está mais bonito que o ano passado e para quem vem pela primeira vez, espero que cada um saia com o coração cheio de fé e encanto. O espetáculo foi feito para todos”, afirma Beto Benone.

(Diário do Pará)

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