Se sair de casa e ter de enfrentar um trânsito absurdo é um transtorno para os mais jovens, imagine para quem dirige em Fortaleza ou no interior do Estado há mais dez anos. Parece que houve um inchaço populacional. No Dia Mundial Sem Carro, dados do Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran), revelam que não foi a população que aumentou significativamente, mas a frota de veículos.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2001, o número de habitantes em Fortaleza era de 2.183,612 milhões, já em junho de 2011 essa população aumentou para 2.476,589, o que representa um acréscimo de 13,2%. Por outro lado, segundo o Detran, em dezembro de 2001, o número de veículos na Capital que era de 379.408 aumentou para 742.170 em junho de 2011, o que significa um crescimento de 95,6% na frota. O crescimento da frota é, portanto, cerca de seis vezes maior que o da população.

Estado

No interior do Ceará, a situação é ainda mais preocupante. A população, que em 2001 era de 5.364,08 milhões, aumentou para 6. 053,469 milhões, representando um acréscimo de12,8%. Por outro lado, o número de veículos em 2001 passou de 319.216 mil para 1.070,176 milhões, o que concretiza um aumento de 235% em dez anos.

Somando as duas populações, no ano de 2001 o Ceará tinha 7.547.620 milhões de habitantes, já em junho de 2011 o número já era de 8.530,469 milhões. Ocorreu, portanto, um aumento de 13.02%. E o número da frota de veículos passou de 698.614 mil para 1.812,346 milhões, ou seja, 159% a mais.

Hoje, comemora-se o Dia Mundial Sem Carro, um movimento criado para refletir sobre os gigantescos problemas causados pelo uso intenso de automóveis como forma de deslocamento, sobretudo nos grandes centros urbanos, e um convite ao uso de meios de transporte sustentáveis, entre os quais se destaca a bicicleta.

Porém, não há muito o que comemorar no Ceará, pois os dados do Detran revelam que ao invés de aumentar o número de pessoas por veículo, a cada dia diminui mais. Para se ter uma ideia, há dez anos, na Capital, a proporção era de cerca de seis pessoas por carro, hoje, esse número diminuiu para três.

No interior do Estado os dados são mais alarmantes. Em 2001, a proporção que era de 16 pessoas por cada veículo, atualmente, são cinco pessoas.

Para o promotor de Justiça do Núcleo de Atuação Especial de Controle, Fiscalização, Acompanhamento e Políticas de Trânsito (Naetran), Antônio Gilvan Melo, toda essa situação é apenas um reflexo da falta de projetos na área de educação no trânsito. Segundo ele, para reverter o quadro atual, o dinheiro das multas deveria ser revertido para investimentos em áreas prioritárias, como saúde, sinalização e educação para o trânsito.

“Na minha opinião, o capital arrecadado com as multas não deve ser utilizado para custear blitz, muito menos com a diária dos agentes de trânsito”.

Soluções

Para amenizar o caos do trânsito gerado pelo aumento do número de veículos, o promotor acredita que a solução seria uma parceria dos órgãos de trânsito com os estudantes de Engenharia das universidades. “Eles são estudiosos e provavelmente possuem várias ideias é preciso parar para ouvi-los”, ressalta.

Outra solução proposta por Antônio Gilvan Melo, seria a realização de um rodízio de carros na cidade. Entretanto, o promotor afirma que não há lei que obrigue os gestores aderirem o projeto.

Conforme o promotor do Naetran, além de ser necessário um consenso na sociedade civil sobre o assunto, é preciso existir vontade política. Por outro lado, ele reconhece que a estrutura de transportes e malha viária da Capital e do interior do Estado não permite que isso aconteça. “Não temos ciclovias, metrôs, muito menos ônibus suficientes para que as pessoas deixem seus carros em casa”.

MOBILIDADE URBANA
Transporte alternativo é apontado como solução

Engarrafamentos, acirramento por espaços na via já são combinações rotineiras dos motoristas. Como resolver os problemas de mobilidade urbana nessas condições?

O Dia Mundial Sem Carro, 22 de setembro, surgiu na França, em 1997, e desde então provoca reflexões sobre o uso abusivo de carro particular no meio urbano. É o momento em que os transportes alternativos são defendidos como possível solução para o problema.

Nadja Dutra, professora do Departamento de Engenharia de Transporte da Universidade Federal do Ceará, diz que obras de curto prazo como viadutos e alargamento de vias não são a melhor solução. O melhor a se fazer, segundo ela, é priorizar o transporte não-motorizado, no sentido de adotar políticas que valorizem a coletividade.

A professora ressalta que “resolver o problema de mobilidade não é fácil”, mas há estudos suficientes para tanto. “Existem estudos e especialistas. O que falta é vontade de fazer, porque muitas cidades no mundo já fizeram”, diz Nadja.

Na gestão pública, há uma exigência, segundo ela, de “repensar a cidade” a partir desses problemas. “Quais são as linhas de desejo da população? Alguém tem que parar e pensar nisso”, completa.

A professora Sylvia Cavalcante, coordenadora do Laboratório de Estudos das Relações Humano-Ambientais da Universidade de Fortaleza (Unifor), explica que “o carro não é simplesmente um meio de transporte”.

Segundo ela, fatores como autonomia, independência e sensação de poder e afeto são implícitos na relação das pessoas com o automóvel. “Não é fácil simplesmente deixar de usar carro. Ele está ligado ao estilo de vida das pessoas”.

As duas pesquisadoras concordam que Fortaleza precisa oferecer alternativas. A falta de espaços adequados para o tráfego de bicicletas compromete a mobilidade de ciclistas. O estudante Ricardo Tavares, 20, por exemplo, tem bicicleta, mas não costuma percorrer grandes distâncias. “O que me impede de andar mais é a falta de segurança. Além do medo de assalto, não tem muita ciclovia na cidade”, constata.

Diferentemente de Ricardo, o professor de Economia na Universidade Federal do Ceará (UFC), Josael Santos Lima, pedala bastante pela cidade. Ele enfrenta o desrespeito dos motoristas e a falta de sinalização voltada para quem gosta de bike. Apesar das dificuldades, percorre uma média de 50Km todos os dias.

De acordo com o Programa de Transporte Urbano de Fortaleza (Transfor), mais de 30 quilômetros de ciclovias serão construídos, além de bicicletários em Terminais de Integração, para atender à população que utiliza a bicicleta como meio de transporte.

FISCALIZAÇÃO
Não há educação sem municipalização

Não bastasse o aumento desenfreado dos veículos no Ceará, a falta de educação dos condutores também cresceu, principalmente no interior do Ceará. Motoristas sem capacetes, sem habilitação, veículos sem documentos, e centenas de infrações. E todo esse cenário é gerado pela falta de municipalização do trânsito.

Segundo a diretora de Planejamento do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), Lorena Moreira, a lei foi criada em 1998, mas desde então, dos 184 municípios apenas 40 municipalizaram o trânsito. “Nos municípios que não possuem órgãos de trânsito só há fiscalização quando uma equipe do Detran se desloca, mas é impossível supervisionar 135 municípios”, diz.

Porém, para o promotor de Justiça Antônio Gilvan Melo, essa municipalização não depende apenas dos promotores locais, mas também da vontade política e da situação financeira de cada município. “Os pequenos municípios não têm verba para investir na implantação desse órgão. Até porque não dá para custear o serviço apenas com as multas”, diz.

Na área da educação para o trânsito o Detran, apesar de afirmar que existem projetos pontuais voltados para a redução da alcoolemia, realização de blitz em bares da Capital, e investimentos em escolinhas de trânsito que devem inaugurar no próximo ano, uma na região Norte, em Sobral, e outra no Cariri, em Juazeiro do Norte. Não há, entretanto, nenhum projeto voltado para o incentivo ao uso de transportes alternativos.

Todavia, segundo Lorena, segundo a legislação de trânsito, 18% do total arrecadado com multas deve ser aplicado em engenharia de trânsito e educação, mas ela não soube informar quanto é investido no Ceará.

(KARLA CAMILA- Diário do Nordeste)

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