São Paulo – Com a rejeição da fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour, por parte do grupo Casino, as operações brasileiras da rede francesa voltam ao centro de disputa entre os varejistas. Os mais cotados para uma associação com o Carrefour seriam a rede americana Walmart e a rede chilena Cencosud.

O próprio Carrefour afirmou que, com o fim das negociações com Abilio Diniz, continua aberto a novas propostas. Procurados por EXAME.com, Walmart, Cencosud e Carrefour não quiseram comentar especulações de mercado. Mas é fato que o cenário vai esquentar.

“O Walmart vai partir com mais agressividade para o mercado brasileiro e o Carrefour Brasil já se mostrou instável”, avalia o consultor Eugênio Foganholo. A rede americana, a maior do mundo, elegeu o Brasil como prioridade. Em 2010, seu faturamento global foi de 420 bilhões de dólares, mais que o triplo do faturamento do Carrefour, o segundo maior varejista do mundo. No país, ocupa a terceira posição do setor. No ano passado, o Walmart também enfrentou problemas no país, com a troca de presidente.

Quem sofreria com a operação é o Casino, que lutou contra a associação entre o Pão de Açúcar e o Carrefour. “Ele enfrentaria um Walmart mais forte no Brasil e teria dificuldades para competir”, diz o consultor Cláudio Felisoni.

Azarão chileno

A Cencosud já tem participação no varejo brasileiro e afirmou que pretende aumentar essa fatia. A rede chilena é a terceira maior varejista da América Latina. Em outubro passado, desembolsou 1,4 bilhão de reais na compra da empresa mineira Bretas, então a sétima maior rede de supermercados do país, com faturamento de 2 bilhões de reais. Seis meses antes, já havia comprado a Perrini, que tem sete lojas em Salvador, por 30 milhões de reais. Sua maior operação, porém, ainda é a G.Barbosa, quarta colocada no ranking de supermercadistas do Brasil. “O bom desempenho da G.Barbosa conta à favor da Cencosud”, pondera o consultor José Lupoli Jr.

Depois das aquisições, os chilenos cresceram seu faturamento em 41%, aos 3,5 bilhões de reais em 2010. “O Walmart, no entanto, é um grupo com mais poder de investimentos, mas em termos de concentração de mercado, seria melhor com o Cencosud”, pondera Lupoli.

Apesar de não comentar o futuro de suas operações, a instabilidade do Carrefour no país veio à tona quando foi descoberto o rombo de 1,2 bilhão de reais no ano passado. O rombo aumentou a pressão de um grupo de acionistas para que o Carrefour vendesse a operação brasileira. Embora o problema seja contábil e as vendas da rede francesa, no Brasil, tenham crescido em 2010, esses acionistas desejam resgatar o dinheiro que investiram na companhia – nem que, para isso, ela tenha de vender ativos.

Entregando os anéis

Não seria a primeira vez que o Carrefour abandonaria um mercado. Para reforçar o caixa, a varejista francesa vendeu as operações tailandesas em novembro para, veja só, o concorrente Casino, por considerar que elas não eram rentáveis. Esse foi o oitavo país do qual o Carrefour saiu nos últimos sete anos.

Para justificar a decisão, a rede afirmou que sua perspectiva de crescimento no país não condizia com a estratégia de focar em países onde poderia ocupar a liderança. O caso brasileiro, no entanto, reforçaria a má gestão da empresa — um ponto criticado por analistas — e poderia colocar ainda mais em risco o futuro do Carrefour.

Ao forçar Abilio a abandonar as negociações, o Casino pode ter aberto a porta para que seus rivais cresçam no Brasil. Se isso acontecer, o grupo francês terá trocado um sócio indócil por uma concorrência feroz. Só Jean-Charles Naouri, presidente do Casino, poderá dizer qual é a melhor opção nesse caso.

(Exame)