Como já comentamos em outras colunas, o brasileiro é religioso, pois 90% da população declaram ter uma crença religiosa. Desse total, temos uma pequena parcela seguidora de religiões não cristãs como o budismo e o islamismo.

Pouco mais de 1% dos brasileiros segue essas duas religiões. Trata-se de grupos esparsos e pequenos, mas em escala mundial ocupam o segundo e o terceiro lugar entre as religiões mais praticadas no planeta, com 20% e 13% da população, respectivamente. O budismo e o islamismo estão presentes de forma predominante no Oriente Médio, Ásia e África.

No Brasil, o catolicismo foi adotado como religião oficial desde a Independência até a Constituição de 1891, que separa Estado e Igreja. A legislação brasileira é categórica ao proibir todo tipo de intolerância religiosa. No entanto, e muitas vezes de forma velada, o preconceito proveniente da ignorância e do desconhecimento da cultura alheia impera, mesmo dentro das diferentes vertentes do cristianismo.

A intolerância e o uso político da religião, justificando a falta de respeito aos direitos dos diferentes ou das minorias, é um assunto antigo e uma das grandes mazelas humanas. O tema envergonha e entristece quem busca na religião uma boa essência, que faz do homem alguém melhor, nunca pior.

O desrespeito à cultura e à religião alheia marcou de forma terrível a história da humanidade, fazendo vítimas, destruindo culturas, povos e civilizações. Das perseguições aos primeiros cristãos, feitas pelos romanos, passando pelas guerras, realizadas pelas primeiras cruzadas, as conversões forçadas (conhecidas como o Decreto de Allambra), empreendidas pelos reis da Espanha em 1492, e os terrores da inquisição, chega-se, finalmente, ao horror dos nazistas em perseguição aos judeus na 2ª Grande Guerra.

A religião de um indivíduo quase sempre interfere na sua atitude, modo de se vestir e de se portar. Reflete no comportamento e, obviamente, na maneira como o outro olha para esse indivíduo, que é diferente da maioria. Isso quase sempre gera o estranhamento, o afastamento, a indiferença e, por último, o preconceito.

Neste mês (julho de 2011), faz um ano que o governo da França aprovou uma lei que impede as mulheres, essencialmente as muçulmanas, de usarem véus e a conhecida burca (ou hijab) em lugares públicos, sob pena de pagarem uma multa de aproximadamente R$ 350.

Para a mulher da cultura islâmica o hijab é um véu do vestuário que permite a privacidade, a humildade, a moralidade e o respeito. Textualmente o Alcorão pede que as mulheres do islã escondam os seus atrativos, de modo que não fiquem visíveis, pois assim ela vai ser reconhecida como muçulmana e se preservará.

É necessário entender e respeitar a cultura do outro. Isso é tradição para o muçulmano e, como tal, precisa ser compreendida. Dessa forma, não cabe à cultura predominante impingir determinado comportamento ou proibir que determinada peça do vestuário de outra cultura seja usada.

Esse comportamento de perseguição aos povos de origem árabe, judeus ou povos semitas foi gravemente incrementado após o terrível ato terrorista de 11 de setembro de 2001, promovido pelo Al Quaeda contra as torres gêmeas em Nova York e ao Pentágono.

Mais uma vez, por atos de grupos extremistas e terroristas, toda a comunidade árabe e de muçulmanos foi perseguida e discriminada, principalmente nos EUA, mas em todo mundo ocidental.

Recentemente tive a felicidade de assistir a um filme maravilhoso que trata exatamente dessa questão (e que eu recomendo). Trata-se de uma produção indiana de 2010, com título “Meu nome é Khan, e eu não sou um terrorista”. 

Khan é um autista funcional, portador da síndrome de Asperger. Muçulmano, ele se apaixona por uma indiana em São Francisco, nos Estados Unidos, antes do fato de 11 de setembro. O que parecia ser uma história de amor se transforma radicalmente a partir do atentado e da consequente perseguição iniciada contra essa etnia.

Não vou contar o filme, para não estragar a diversão do leitor, mas é uma lição de que o amor, a caridade e a luta contra toda forma de preconceito deve prevalecer acima do credo e da religião proferida.

Por isso, quando uma pessoa testemunha de Jeová desejar conversar com você no domingo cedo, receba-a com um sorriso e com respeito. Quando algum colega de trabalho avisar que não pode ir à festa de aniversário no sábado por ser da igreja Adventista do 7ª Dia, aceite sem criticar.

Quando você avistar as mulheres crentes com longos cabelos e saias compridas, não as recrimine por essa opção. E, finalmente, quando passar por uma muçulmana usando lenço ou burca, lembre-se que o respeito, a tolerância e o amor ao semelhante deve ser a tônica de todos nós para a construção de mundo melhor.

(Ribeirão Preto Online)