Cinco centrais sindicais aproveitaram o Dia Nacional de Mobilização da Central Única dos Trabalhadores (CUT), nesta quarta-feira para promover em Brasília um ato em defesa da jornada de trabalho de 40 horas semanais, fim do fator previdenciário nas aposentadorias, regulamentação da terceirização e reforma agrária.

O ato reuniu Força Sindical, CGTB, NCST, CTB e UGT e estava programado para terminar no Congresso Nacional. O grupo pretendia fazer outras quatro manifestações durante o mês de julho, uma em cada região diferente do país, para pressionar os parlamentares a votarem a redução da jornada de trabalho assim que voltarem do recesso.

– Em agosto, nós vamos para o enfrentamento, faremos pressão total no Congresso. Queremos votar nem que seja para perder – diz o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho.

O presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos, não está em Brasília, junto com as outras centrais, mas no Pará. Segundo ele, a opção tem um caráter simbólico – defender um outro projeto de desenvolvimento para o Brasil fugindo do eixo Rio-São Paulo-Brasília. Mas, indiretamente, admite ele, também ajuda a marcar as diferenças entre os sindicalistas, um desejo cada vez maior da CUT.

– Temos diferenças de concepções e métodos – afirma.

O dirigente anda incomodado com o que considera uma certa diluição da identidade individual das centrais. Contribuiria para isso a tentativa das concorrentes de “pegar carona” em atos da CUT. A mobilização desta quarta-feira seria um exemplo. Em maio, a cúpula cutista decidiu organizá-la, e depois as outras centrais quiseram aderir.

– Este dia 6 é mais da CUT do que nosso, mesmo – reconhece Paulinho.

Segundo Artur Henrique, a CUT tem uma linha de atuação e uma agenda que não coincidem com as das outras entidades. Hoje, os cutistas preferem, por exemplo, deixar um pouco de lado a atuação perante as institucionalidades (governo, Congresso) para ir mais às ruas mobilizar pessoas comuns.

Quando se trata de “agenda”, o único grande tema que atualmente aglutina todas as seis centrais sindicais é a redução da jornada de trabalho. Num outro assunto importante para o setor, a existência do imposto sindical, a CUT defende sozinha sua abolição.

O mesmo vale para a regulamentação da terceirização. Enquanto as outras cinco aceitaria uma lei que daria só alguns dos benefícios tidos apelas por empregados efetivos, a CUT quer igular tudo. Neste tema, a Central inclusive faz uma acusação ao governo Dilma Rousseff, que em tese apóia. A proposta de regulmentação dos terceirizados estaria sendo discutida dentro de um ministério do Trabalho que estaria “aparelhado” pela Força Sindical. O ministro Carlos Lupi pertence ao PDT, mesmo partido do presidente da Força Sindical.

Presença do MST

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) vai engrossar os atos populares programados pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) para esta quarta-feira (06/07) em todo o Brasil. A intenção é tentar reacender a chama das lutas sociais no país, que teriam sido abandonadas pelos partidos políticos.

– Na eleição de 2010, percebemos que as propostas das centrais sindicais eram mais avançadas do que a dos partidos. E muito mais avançadas ainda do que o programa da candidata Dilma – diz o coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile.

Para Stédile, este tipo de mobilização é necessário para pressionar o governo Dilma Rousseff a adotar um “projeto de desenvolvimento nacional” que atenda os interesses dos trabalhadores.

Leia a íntegra da entrevista exclusiva concecida por Stédile à agência de notícias Carta Maior.

– Por que o MST decidiu unir-se à CUT na mobilização?

– O MST apoia a todas as lutas sociais do povo brasileiro. E ficamos muito contentes quando a CUT nos procurou com seu programa de mobilização. Realizamos reuniões com os demais movimentos socais, da Via Campesina e urbanos, para que todos, de alguma forma, pudéssemos nos somar a essa jornada. O movimento sindical é a principal força organizada da classe trabalhadora brasileira. E por isso tem muita responsabilidade para a retomada das lutas sociais e para conseguir, através das mobiliações, arrancar da classe dominante as melhorias das condições de vida para todo povo.

– Do ponto de vista do MST, qual a reivindicação mais importante a ser lançada nas mobilizações?

– A CUT tem apresentado uma pauta muito importante que interessa à base dela mas tambem a toda classe trabalhadora. Nós do MST e da Via Campesina temos nossa pauta específica que tem alguns pontos emergenciais, como anistiar as dívidas dos pequenos agricultores no Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), acelerar o assentamento de 80 mil famílias acampadas e implementar programas estruturantes de distribuição de renda e desenvolvimento no meio rural.

– A pauta geral divulgada pela CUT parece “à esquerda”. O MST acha que está faltando quem defenda, no cenário político, uma agenda com esta característica?

– Estamos enfrentando um enorme desafio: os partidos políticos ditos de esquerda não têm conseguido apresentar programas da classe trabalhadora. Como fruto da derrota dos países do leste, da crise ideológica e da ofensiva do capital, os partidos priorizaram a luta institucional e se descaracterizaram do ponto de vista ideológico e de classe. Basta ver a forma como os parlamentares votam em questões que interessam aos trabalhadores, no Congresso. Na eleição de 2010, percebemos que as propostas das centrais sindicais eram mais avançadas do que a dos partidos. E muito mais avançadas ainda do que o programa da candidata Dilma.

O governo Dilma está precisando ser puxado mais para a esquerda?

– O governo Dilma é resultado de uma composição de classes sociais, diversas e até antagônicas, que foi possível e necessária para ganhar as eleições frente ao projeto neoliberal representado pelo (tucano José) Serra. No entanto, falta ao governo Dilma um projeto de desenvolvimento nacional a partir dos interesses populares. Administrar o Estado, para que haja crescimento econômico com distribuição de renda, é insuficiente como projeto de nação.

– Qual projeto o MST defende?

– Um projeto de desenvolvimento que seja nacionalista, justo socialmente, ambientalmente sustentável e hegemonizado pela ótica dos interesses populares. Mas isso não depende da vontade do governo ou dos partidos de sua base. Será necessário um verdadeiro mutirão social para construir uma unidade de forças em torno deste projeto e isso leva tempo. Esperamos que esta jornada seja apenas o incío da retomada de muitas mobilizações.

(Correio do Brasil)