Foto: Deivyson Teixeira / O POVO

Ela mirou no canto do olho e pensou um instante, ainda que o som do trio elétrico e o empurra-empurra tentasse se impor a qualquer reflexão. “Aqui a gente se sente bem”. Pode beijar, andar de mão dada, ficar abraçadinho, se protegendo da onda de gente que vem e vai, descreveu Natália, 16 anos, sobre a Parada pela Diversidade Sexual no Ceará, que ontem marchou sua 12ª edição pela avenida Beira Mar. Natália dançava com a amiga Flávia, 17, o batidão do trio capitaneado pela Associação de Travestis do Ceará (Atrac). No colégio, as amigas preferem que os colegas as conheçam primeiro pelas qualidades, e, não, pela opção sexual.

Natália, Flávia e cerca de um milhão e duzentas mil pessoas prestigiavam o evento de ontem. O trio da Atrac era um dos seis que desfilaram – o público viu ainda o carro do Grupo de Resistência Asa Branca (Grab), um da Coordenadoria Estadual LGBT, o trenzinho do projeto Arte de Amar e dois trios de boates. “A parada é irreverente também, mas nosso objetivo é que ela seja um evento de visibilidade, que as bandeiras das lutas sejam mais visíveis”, frisou Francisco Pedrosa, presidente do Grab. E lembrou: o tema deste ano é Unidos e unidas somos mais fortes, pela aprovação do PLC 122/2006 Já!. Segundo o Grupo de Resistência Asa Branca, que organiza a Parada pela Diversidade Sexual desde a sua primeira edição, só em 2010 foram assassinados 260 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no Brasil, em crimes motivados pela orientação sexual ou identidade de gênero das vítimas.

O PLC 122 versa sobre a criminalização da homofobia, fazendo dela crime assim como o racismo. Além da festa, a parada é também um ato político. “Ah, eu acho que é tudo: festa, pra dizer que a gente é homossexual”, englobou Michelle Victor, 32. Cabeleireira, ela se traveste de dia e de noite, coragem que nem todo mundo tem. “Olha, eu fico indignada com quem discrimina a gente”, lamentou Suelle Victória, 29. “Alguns amigos meus queriam vir montado, mas foram influenciados por outros”. Já Michelle trocou a Parada de São Paulo por Fortaleza, que neste 2011 aconteceram, por coincidência, no mesmo dia. “Lá é mais gente, mais homem. Mas eu estou adorando porque gosto mesmo do babado”.

Foto: Deivyson Teixeira / O POVO

Pouco à frente dela, um rapaz magrinho se abaixava e protegia os cabelos. “Ai minha escova!”. Do outro lado, uma fileira de homens e mulheres de branco e rosas na mão: com elas jogavam água de cheiro nos passantes. “A água é para abrir os caminhos de todos aqueles que estão aqui”, explicou Emerson Caetano, umbandista. Este é o Ano Internacional dos Afro Descendentes, e por isso o convite. Aliás, não só: “Na umbanda, não tem preconceito. Somos humanos antes de sermos brancos, pretos, gays, heteros, baixos ou altos. Não vai ser eu que vou julgar”, explicou a Mãe Índia, responsável pela casa Cabocla Jurema, no bairro Itaperi. Do alto do trio elétrico da Atrac, a mestre de cerimônia gritava: “Um beijo no coração da cidade, enfim, de um modo geral”.
QUANDO

ENTENDA A NOTÍCIA
A Parada pela Diversidade Sexual acontece sempre no último domingo de junho, pela proximidade com o dia 28, Dia Mundial da Consciência Homossexual. A data foi motivada pela reação de um grupo norte-americanos de homossexuais contra a violência, no episódio conhecido como Levante de Stone Wall. Isso aconteceu
há 42 anos.

1,2
MILHÃO DE PESSOAS
Segundo a Polícia Militar, esse foi o total de pessoas que acompanharam a 12ª Parada pela Diversidade Sexual do Ceará na tarde de ontem na avenida Beira Mar. Júlia Lopes

(O Povo Online)