Angelita Gama, primeira mulher titular em cirurgia da USP, é conhecida como uma das maiores especialistas em câncer de intestino do mundo. Hoje, mantém uma rotina de três dias por semana dedicados integralmente à cirurgia. Mas não opera à toa.

  A médica paraense, nascida na ilha de Marajó, desenvolveu um método que combina radioterapia e quimioterapia e substitui os tratamentos mais invasivos.

No caso do câncer de intestino, evitar o bisturi significa qualidade de vida: parte dos operados sofre de problemas como incontinência fecal.

A trajetória acadêmica rendeu recentemente à especialista o prêmio da categoria medicina da Fundação Conrado Wessel, criada pelo testamento do empresário de mesmo nome, que homenageia grandes nomes da ciência, arte e cultura.

EXAME DE ROTINA

Um dos esforços pessoais de Gama é tornar os exames de detecção do câncer de intestino mais comuns na rotina dos médicos.

De acordo com ela, ainda não é comum no Brasil que seja solicitado aos pacientes o exame de sangue oculto nas fezes ou colonoscopia (endoscopia que permite a visualização do interior do cólon).

“A anemia em adultos, por exemplo, pode ser um sintoma de câncer de intestino. Poucos médicos fazem essa associação”, diz Gama.

O câncer de intestino, que afeta 28 mil brasileiros por ano e já é uma das principais causas de morte de mulheres na região Sudeste, depois do câncer de mama, pode ser evitado com exames preventivos e com boa alimentação.

Mas, de acordo com Gama, “concorrer” com dengue e malária é difícil, já que o país ainda é carente no tratamento de doenças tropicais.

“A quantidade de pacientes com câncer de intestino deve aumentar no futuro. As pessoas estão se alimentando muito mal. Há corantes em tudo, desde a mamadeira.”

O trabalho de conscientização de Gama incluiu até a criação de uma associação em 2004, a Abrapreci (Associação Brasileira de Prevenção do Câncer de Intestino).

Entre as atividades, mantidas com dinheiro privado, está o “intestinão”, como Gama gosta de chamá-lo.

‘INTESTINÃO’

É uma réplica gigante de um intestino que permite que o visitante visualize pólipos (“calombos” na parede intestinal), doença inflamatória e câncer nas paredes do órgão.

“Toda vez que o ‘intestinão’ viaja, leva conhecimento. Já tivemos mais de 100 mil visitantes”, explica.

Hoje, há um exemplar do “intestinão” no Catavento Cultural e Educacional, uma espécie de museu de ciências que fica em São Paulo.

“Quando a gente opera um doente, cuidamos de um por um. Mas quando fazemos um trabalho preventivo amplo, o alcance é muito maior.”

A sala do consultório da cirurgiã da Faculdade de Medicina da USP é repleta de mimos. Um dos que ela mais gosta é uma miniatura de gato de cristal com um colar que imita pérolas -item fundamental da sua vestimenta.

“Ganhei de um paciente”, diz a médica. Ele teve câncer de intestino recentemente e foi operado por Gama.

“Sou amiga dos meus pacientes. Saio para jantar com eles e com meu marido.”

(Folha Online)

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