Os brasileiros conviveram, há quase uma década, com um lema que mudou a história do país. Sob o slogan “a esperança venceu o medo” e calcado na chamada “Carta ao Povo Brasileiro”, Luiz Inácio Lula da Silva virou presidente da República após 13 anos de tentativas frustradas. O mesmo expediente agora se repete num país vizinho, o Peru.

Neste domingo (5), Ollanta Humala vai ao segundo turno das eleições presidenciais em uma reedição da campanha que levou o petista Lula ao poder. Ex-comandante do Exército peruano e nacionalista ao extremo, dificilmente Humala era visto com os ternos bem cortados que desfila atualmente pela campanha.

O discurso agressivo, que por muitas vezes foi comparado ao do presidente venezuelano Hugo Chávez, deu lugar a um tom digno de “Humala Paz e Amor”. Ele até mesmo reeditou um expediente brasileiro e divulgou uma “Carta de Compromisso Com o Povo Peruano”.

A dupla responsável por essa transformação é formada por dois petistas: Luís Favre e Valdemir Garreta. Favre é ex-marido da senadora petista Marta Suplicy. Já Garreta é ex-secretário de Marta na prefeitura de São Paulo e foi um dos integrantes da coordenação da campanha de Dilma Rousseff à Presidência, envolvido no escândalo da fabricação de dossiês contra o tucano José Serra.

Desde janeiro, os dois trabalham com a campanha de Humala. A decisão partiu do comando do Partido Nacionalista Peruano, que percebeu que à medida que Humala era comparado com Chávez, perdia votos. Mas era só mostrar afinação com Lula que mais eleitores pendiam para o seu lado.

O R7 tentou conversar com os marqueteiros brasileiros, mas eles não quiserem falar sobre o trabalho político nos Andes. Humala, por sua vez, vem respondendo internamente às críticas de que estaria dando espaço ao Brasil interferir na política peruana.

Em declarações à imprensa peruana, o candidato disse que “Luís Favre e Valdemir Garreta prestam assessoria ao comando da campanha da coligação Ganha Peru, mas não diretamente ao candidato”. Ele diz ainda que mudou ao longo do tempo.

– Posso dizer que nesses anos minhas ideias políticas amadureceram bastante, especialmente na forma de transmiti-las à população.

Eleição disputada

O trabalho dos petistas não é fácil. Analistas políticos, como o diretor do Centro de Estudos de Opinião da Universidade Católica, Fernando Tuesta, afirmam que essa é a eleição mais disputada desde 1962. Naquele ano, Víctor Raúl Haya venceu Fernando Belaúnde por uma diferença de apenas 14 mil votos, mas o pleito foi anulado por suspeita de fraude e Belaúnde acabou vencendo no ano seguinte.

– O país está dividido em duas partes iguais.

Humala venceu o primeiro turno das eleições e foi para segunda fase com Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori. Apesar de conviver com o estigma de corrupção e medo que dominou o governo do pai, Keiko aparece na frente de Humala em algumas pesquisas. Em outras, lidera o esquerdista. Para analistas, há um empate técnico entre ambos.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de Literatura e que chegou a se candidatar à Presidência em 1990 contra o pai de Keiko Fujimori, deu o tom da campanha. Em artigo no jornal El Mercurio, Llosa definiu a eleição como “uma escolha entre o câncer e a Aids”. Llosa, no entanto, acabou suavizando às criticas à Humala e agora pede votos ao candidato esquerdista, para evitar o “mal maior” que seria o governo de Keiko, na sua opinião.

 

Indecisos vão dizer quem será o novo presidente

O futuro político do Peru, portanto, está nas mãos dos 20% de eleitores indecisos. Parte deles não quer ver no poder uma integrante da família cujo maior expoente encontra-se preso. Alberto Fujimori foi condenado a 25 de cadeia pelas mortes de 25 pessoas e por sequestros durante o seu governo (1990-2000).

O receio em relação a Humala, no entanto, é mais presente aos peruanos. O país vem crescendo a taxas chinesas. No ano passado, a economia deu um salto de 9%, mas o problema continua sendo a distribuição de riqueza.

Enquanto Keiko é mais bem vista pelo mercado financeiro, Humala tem um perfil mais estatista e intervencionista. Ele chegou a mudar o plano de governo do primeiro para o segundo turno, prometendo desempenhar uma esquerda mais moderada. O discurso, certamente, tem os dedos de Favre e Garreta.

(Portal R7)