Em dezembro de 2001, Osama bin Laden vestia uma jaqueta camuflada e tomava chá de hortelã numa caverna em Tora Bora. Era uma forma de amenizar o frio, que chegava a 20 graus negativos naquela região inóspita, na fronteira do Paquistão com o Afeganistão. Ele estava ali escondido porque semanas antes fora identificado como o autor intelectual do terrível atentado do dia 11 de setembro, em que dois aviões de passageiros foram lançados contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, Estados Unidos. Guerrilheiros depois interrogados pelo serviço secreto americano disseram que se algo diferenciava aquele homem de 44 anos dos demais terroristas ali reunidos era a tranquilidade. Bin Laden já estivera escondido naquela região afegã entre 1996 e 1997, logo após ter sido expulso do Sudão, cujo governo era pressionado pelos Estados Unidos a não dar guarida para um homem já então perseguido por ações terroristas. Ele e suas então três mulheres e 18 filhos (no fim da vida, esses números subiriam para cinco mulheres e pelo menos 24 crianças) moraram em casebres que serviam antes para abrigar gado. Os seis pequenos quartos foram erguidos com blocos de rocha tirados do granito do morro. O telhado era de madeira e palha, e as portas e janelas eram apenas buracos na pedra, cobertas por peles de animais. Com comida escassa, as crianças passavam os dias com fome. Sem eletricidade para ligar uma geladeira, a primeira mulher de Osama, Najwa, tentava conservar alimentos perecíveis colocando-os sob uma corrente de água fria que vinha da montanha. Na falta de água encanada, o banho era feito com potes de metal. Para um dos principais herdeiros de uma das maiores fortunas da Arábia Saudita, parece desapego demais. Por que alguém tão privilegiado optou pelo caminho do ódio?

Osama bin Mohamed bin Awad bin Aboud bin Laden foi o 17º dos 54 filhos de Mohamed Awad bin Laden. Cego de um olho, Mohamed migrou do Iêmen para a Arábia Saudita, no começo do século passado, para trabalhar como pedreiro em obras de empresas de petróleo americanas. Eficiente, logo passou a comandar canteiros de obra. Ao perceber que as construtoras tradicionais estavam ocupadas com as obras das petrolíferas, fundou sua construtora. Ganhou contratos com o governo saudita e a amizade do rei Abdulaziz. Em 1955, chegou a ministro de Estado. Segundo um relatório da embaixada alemã de 1958, a Mohamed Bin Laden Organization era a empresa mais rica do país, com bens mais valiosos que os do próprio Estado. A família Bin Laden era a elite da Arábia Saudita, e ao mesmo tempo não era. Num país de tradição familiar profundamente enraizada, Mohamed sempre seria visto como estrangeiro. Teve 22 esposas, mas nenhuma nobre: era-lhe vedado casar com alguém de outra linhagem.

Alia al-Ghanem, mãe de Osama, nasceu na Síria e vinha de família pobre. Tinha 15 anos quando o filho nasceu. Aos 18 já estava separada. Foi repassada para um funcionário de Mohamed, com quem teve mais quatro filhos. Naquela casa simples, Osama era um estranho. Era herdeiro de um homem muito rico, a quem raramente via. Sua única referência era Alia. Um antigo vizinho conta que, mesmo aos 18 anos, Osama se deitava aos pés da mãe e os afagava. “Se soubesse que ela estava magoada, nem conseguia dormir.” Mohamed morreu em 1967, quando seu helicóptero, pilotado por um americano, caiu. O pequeno Osama, então com 10 anos, herdou US$ 80 milhões.

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Os Bin Ladens na Suécia, em 1971. Osama não estava nessa viagem e depois se afastou da vida luxuosa dos outros parentes

O irmão mais velho de Osama, Salem, assumiu os negócios da família e os aproximou do Ocidente. Criado por duas décadas na Inglaterra, tinha cabelos longos e era fã dos Beatles e dos Rolling Stones. A Arábia Saudita enriqueceu depressa, com a crise do petróleo de 1973, e Salem soube tirar proveito. A lei do país estabelecia que empresas estrangeiras precisavam se associar a um intermediário local. Assim Porsche, Volkswagen e General Electric foram representadas pela Bin Laden Brothers. Playboy internacional, Salem conversava com suas namoradas na Inglaterra e nos Estados Unidos por telex. Quando pilotava algum de seus aviões, conversava com amigos e parentes espalhados pelo mundo graças a uma intrincada e caríssima ligação via rádio e centrais telefônicas montada por ele. Quando não tinha a quem ligar, passava o voo tocando gaita para as telefonistas. Sob o comando de Salem, cerca de um quarto dos 54 filhos de Mohamed bin Laden estudou nos Estados Unidos. Osama não estava entre eles.

Depois da morte do pai e durante a adolescência, Osama estudou na Escola-Modelo Al-Taghr. Era uma instituição de elite na Arábia Saudita criada para propagar uma filosofia de ensino europeia, dentro do projeto de secularização do país empreendido pelo rei Faissal. A escola tinha orientação ocidental, mas dentro dela surgiu um grupo de estudos islâmicos, organizado por um professor de educação física sírio. Bin Laden gostava de esportes e, para poder jogar futebol, passou a frequentar as reuniões do professor. Com o passar dos meses, as reuniões foram tomando todo o tempo do jogo. Da mera leitura do Alcorão, livro sagrado do islamismo, as aulas do professor enveredaram para o antissemitismo. “As histórias eram realmente violentas. Comecei a pensar nas desculpas que poderia arranjar para nunca mais voltar”, disse um aluno da escola que abandonou o círculo. Bin Laden ficou. E tornou-se um radical.

Ainda na escola, aos 17 anos, casou-se com sua prima Najwa, de 14. Foi a primeira de seis mulheres (um casamento foi anulado). Ele não lhe permitia falar com estranhos nem podia olhar para uma mulher que não fosse a sua. Ao visitar os irmãos, cobria os olhos se uma mulher sem véu abrisse a porta. Para Bin Laden, os filhos deveriam viver como Maomé vivera. Como no tempo do profeta não havia medicamentos, eles deveriam tomar remédios só em casos extremos. Vários eram asmáticos, mas Bin Laden lhes recomendava apenas quebrar um pedaço de favo de colmeia e respirar através dele. Treinados para ser guerreiros, eram obrigados a fazer longas caminhadas pelo deserto sem tomar um pingo d’água. Brinquedos também eram malvistos. Até gargalhar era recriminável. Não se devia demonstrar emoção à toa. As crianças podiam rir, desde que não expusessem os caninos. Bin Laden repreendia um filho de acordo com o número de dentes à mostra.

Quando concluiu o ensino médio, em 1976, Bin Laden recusou-se a aparecer na foto de formatura. Seguia a linha religiosa que considera as imagens uma forma de adoração, quando só Deus pode ser adorado. Músicas competiam com sons sagrados e com a reza. Sem espaço nas empresas da família por falhas em sua formação – cursou faculdades de administração e economia, mas não as concluiu –, destacou-se pela dedicação ao islamismo. As obras de construção civil em cidades sagradas ficaram a cargo dele.

Do ativismo religioso passou, em 1979, ao apoio à guerrilha armada. Naquele ano, conheceu seu primeiro mentor: Abdullah Azzam, um teólogo radical irado com a invasão do Afeganistão por tropas da União Soviética. “Fiquei com raiva e entrei no Afeganistão de vez”, disse Bin Laden a uma revista árabe. Para ele, sob o controle do regime Taleban aquele seria o único país fiel ao islamismo no mundo.

AFP

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Bin Laden na guerra contra os soviéticos no Afeganistão, na década de 80. Era patrocinador da guerrilha e passou a líder terrorista

Bin Laden passou os primeiros anos da guerra levantando dinheiro e máquinas da construtora da família. Em 1984, tornou-se conhecido como “Príncipe saudita”. Bem- vestido, visitava os hospitais com feridos árabes e afegãos. Anotava os nomes dos doentes e depois enviava cheques para suas famílias. Nas áreas de conflito, entregava de avião máquinas pesadas de construção para abrir caminho e demolir pontes. Eram equipamentos da empresa da família. Bin Laden também criou campos de treinamento de guerrilheiros no Paquistão. Foi o embrião de sua própria organização terrorista.

Quando os soviéticos começaram a deixar o Afeganistão, em 1988, Bin Laden fundou a organização jihadista Al-Qaeda Al-Askariya (A Base Militar, na tradução do árabe), depois chamada apenas de Al-Qaeda. Sua intenção agora era levar o islamismo a outras partes do mundo. Escolheu como inimigo principal os Estados Unidos, por seus laços estreitos com Israel e por ser a principal força do mundo ocidental.

O primeiro atentado a bomba promovido pela Al-Qaeda, em 1992, tinha como alvo um hotel no Iêmen que costumava hospedar soldados americanos. Dois turistas morreram. Em 1993, colaborou com uma milícia somali que derrubou dois helicópteros americanos (18 mortos). Em 1994, por pressão dos EUA, o governo saudita confiscou os bens e a cidadania de Bin Laden.

Nessa época, ele já fugira para o Sudão. Lá, Bin Laden fez fortuna trabalhando como construtor em obras do governo. Reproduziu em Vila al-Riade sua vida pregressa, inclusive com antigos funcionários de suas casas na Arábia Saudita. Disse ao filho Omar: “O Sudão agora é o nosso lar. Passarei minha vida nesta terra”. Pressionado pela família, ensaiou fechar a Al-Qaeda, que consumia dinheiro demais e não trouxera as transformações almejadas. Convocou o jornalista Jamal Khashoggi, que o acompanhara no Afeganistão, para gravar em vídeo sua conciliação com o governo saudita. Diante do jornalista, o desanimado Bin Laden ganhou confiança. Passou a cobrar caro por sua rendição. Em 1996, o Sudão ofereceu aos EUA capturá-lo. Sem acusação formal para prendê-lo, os americanos dispensaram a oferta.

No fim de 1996, Bin Laden fugiu para o Afeganistão. Lá, planejou bombardeios simultâneos contra as embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia, em 1998. De lá também articulou o 11 de setembro de 2001. Três anos depois, assumiu a autoria do atentado e procurou justificar o crime que traumatizou a humanidade, sem distinção religiosa: “Alá sabe que não passava por nossa cabeça atacar as torres, mas a situação se tornou inevitável”.

Desde o atentado que eternizou sua imagem como a personificação do mal no século XXI, manteve-se encurralado. Para não atrair a atenção daqueles que queriam matá-lo, isolou-se de contatos com o mundo exterior, inclusive com a maioria dos membros da Al-Qaeda. Entre os dias 16 de setembro de 2001 e 21 de janeiro de 2011, divulgou 35 gravações de áudio ou vídeo. A principal mensagem que traziam era que continuava vivo. Não estava completamente calado, mas já não era ouvido. Esperava a morte chegar.

(Epoca Online)

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