O surgimento dos bancos

A história bancária brasileira foi impulsionada no Maranhão pelo governador Diogo de Souza, em 1799, com a tentativa de criação de um banco com espírito nacional. Foi um fracasso, pois a rentabilidade de operações comerciais era superior àquela das aplicações financeiras.

No começo do século XIX, capitalistas reúnem-se e fazem nascer um banco que teve até certa desenvoltura. Junto a isso, uma agência de seguros também é aberta. São sinais claros de que o país necessita de uma organização bancária de verdade. A transferência da Coroa ao Brasil, em 1808, faz aumentar a circulação da moeda. No mesmo ano é criado o Banco do Brasil.

São Paulo entra em cena
Em 1820, o Banco do Brasil instala uma filial em São Paulo. Quando retorna a Portugal, em 1829, D. João VI causa constrangimentos, por levar consigo os saldos-ouro do banco. Somente em 1923, após várias crises, o Banco do Brasil chega à sua forma definitiva. Nascem outros bancos que não chegam a vingar. Em 1878, dos 17 existentes no Brasil, seis estão em São Paulo, respeitando uma tendência que seria observada após a virada do século XX.
Os bancários começam a se unir
No final do século 19, após a abolição da escravatura, os trabalhadores começam a buscar meios de defesa frente aos patrões. A primeira grande organização é a de socorro mútuo (chamado mutual), como uma resposta à ausência de normas institucionais nas relações de capital/trabalho. Denúncias de exploração de mão-de-obra são intensas. As entidades são assistencialistas e também proporcionam atendimento médico e até funerais. No caso dos bancários, a mutual mais antiga é a Sociedade Beneficente dos Funcionários da Caixa Econômica de São Paulo, surgida em 1907. Um dos problemas enfrentados pela categoria nesse período é a falta de distinção entre bancários e comerciários.
Nasce a Associação

Desde 1922, já se discute uma forma de agregar bancários. Em 1923, somam em São Paulo 18 agências, empregando 1.800 trabalhadores. Em 14 de abril daquele ano, uma reunião com a presença de 84 bancários aprova os estatutos da Associação dos Funcionários de Bancos do Estado de São Paulo, a primeira do país.

A entidade procura evitar desconfianças dos patrões, chegando a oferecer sua direção aos banqueiros. João Neves Lobo, do Banco Hipotecário, aceita o cargo de diretor, mas o entrega logo em seguida. A preocupação principal é o desvinculação dos bancários dos comerciários.

A associação nasce com fins beneficentes e recreativos. Além disso, somente funcionários superiores e contadores têm voz nas assembléias. Contínuos e funcionários considerados inferiores só começam a participar da entidade em 1930. Nos anos 20 são criados também o Clube dos Bancários e o jornal Vida Bancária.
Vargas e a Revolução de 30

O ano de 1929 é um momento de grande crise no capitalismo mundial. Ocorre o crack de Nova Iorque e as bolsas de valores despencam no mundo inteiro. No Brasil, há café de sobra e pouca exportação. Getúlio Vargas encabeça a recém-criada Aliança Liberal e, derrotado, executa o golpe de Estado em 1930.

Vargas fecha o congresso e nomeia interventores nos estados. A Associação dos Bancários em São Paulo ganha força e já tem sede na rua Conselheiro Furtado, no Centro. A categoria junta-se ao movimento paulista pedindo a deposição de Getúlio, em 1932. Um ano depois, vem a Constituinte como uma faca de dois gumes: os movimentos populares aumentam, mas a classe dominante une-se entre os setores autoritários e liberais e a ditadura Vargas ganha o controle do país a partir de 1937.

O período serve de experiência para a Associação dos Bancários, que até então não tinha postura política tão clara. Paralelamente, consegue reconhecimento, incentiva uma equipe de esportes e arrecada verba para abrir uma biblioteca.
Ministério do Trabalho

Em 1930, Vargas cria o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. O governo começa a ter controle sobre trabalhadores. Surgem as caixas de aposentadorias e normas para o reconhecimento sindical. Nesse primeiro momento, os bancários paulistas não se opõem ao controle do Estado e reelaboram seus estatutos a fim de enquadrar a associação nas normas criadas pelo decreto.

O ministro do Trabalho, Lindolfo Collor, recebe duas reivindicações importantes dos bancários: aposentadoria compulsória aos 55 anos (ou 25 de serviço) e caixa de aposentadoria única. Funcionários do Banco Comercial de São Paulo manifestam-se contra as más condições de trabalho e surge na categoria um boletim, tido como clandestino, chamado O Bancário.

A publicação intitula-se “órgão real de defesa da classe dos infelizes proletários de colarinho e gravata” e exige participação nos lucros, jornada de trabalho de seis horas diárias e regras claras de aposentadoria.

Em 1932 surge a primeira grande greve da categoria. A filial de Santos do Banco do Estado de São Paulo pára e consegue adesão dos funcionários da matriz, na capital. A greve reivindica, entre outras coisas, duas horas livres para almoço e pagamento das horas extras noturnas. Os grevistas saem vitoriosos e o assistencialismo da Associação é colocado em xeque, já que, durante todo o movimento, a entidade limita-se a soltar comunicados à imprensa. Em 1934, uma facção ligada ao Partido Comunista do Brasil ganha a direção da associação e dá início a uma atuação mais radical, superando a postura passiva.
Seis horas
Em 1933 é convocada a Assembléia Nacional Constituinte e os bancários ganham a chance de eleger, com outras categorias, representantes no Congresso para cuidar de seus interesses. Enquanto isso, a Associação reformula seus estatutos. Uma das idéias é transferir ao Estado a responsabilidade assistencial da categoria, que até então consumia 60% das verbas das entidades de classe, que passaram a ser chamadas de sindicatos, em lugar de Associação. Ainda em 1933, a batalha pela jornada de seis horas, que vinha se desenrolando há um ano, é encampada pela diretoria.
Álvaro Cechino, diretor da entidade na época, vai ao Rio de Janeiro exigir do governo provisório a assinatura do decreto das seis horas. O decreto é assinado, com algumas modificações que deixaram a categoria descontente. Os bancários não querem 36 horas semanais e sim 32, nos moldes da semana inglesa.
Greve Nacional

No Brasil de 1934 aumentam os movimentos organizados de trabalhadores. O setor de serviços se fortalece e os bancários conseguem desencadear uma greve nacional, diante da intransigência do governo em negociar algumas reivindicações da categoria. A greve acontece nos dias 5, 6 e 7 de julho.

A paralisação visa estabilidade no emprego, aposentadoria aos 30 anos de serviço ou nos 50 de idade e criação de uma Caixa Única de Aposentadorias e Pensões dos Bancários. O governo aceita, entre outras reivindicações, a aposentadoria voluntária aos 30 anos de serviço ou com 50 de idade. Mesmo assim, a categoria deflagra a greve, participando dela oito dos dez sindicatos de bancários espalhados pelo país. Em São Paulo, metade da categoria pára.
O ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, intermedia as negociações diretamente com o presidente da República. Um termo de compromisso do governo, em criar a caixa única, é assinado. Bancários são demitidos e readmitidos em seguida. Dois meses depois é editado o Decreto Lei 54 que regulamenta o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários (IAPB) dando o direito de pensão alimentícia à família. Pelo decreto, os empregados devem contribuir à caixa com 9% do salário. Há também o direito de estabilidade após dois anos de trabalho, do auxílio-enfermidade e maternidade e da Carteira Predial, possibilitando ao bancário comprar ou construir sua casa própria.
Os empréstimos também são possíveis sem muita burocracia. O decreto determina que o IAPB seria administrado por um presidente, nomeado por Getúlio Vargas, assistido por três representantes dos bancários e outros três dos banqueiros. A categoria, que voltou suas baterias para vigiar o governo dentro do instituto, dá assim um importante passo, girando nos três sistemas inter-relacionados: sindicatos, Justiça do Trabalho e sistema de Previdência Social.
Divergências e cisões no governo Vargas
Ainda em 1934, Vargas promulga o Decreto Lei 24.694, que liqüida a autonomia sindical e determina que as federações estaduais só podem ser formadas por grupos de sindicatos idênticos. O pluralismo sindical dá um passo atrás. O Sindicato dos Bancários de São Paulo reformula seus estatutos para adequá-los às novas regras do governo.
Em meio a este cenário, ocorrem no sindicato cisões entre grupos ideologicamente diferentes. Os grupos radicais de Álvaro Cechino e de Francisco Reimão Hellmaister já se desentendiam há tempos. Hellmaister defendia, entre outras, jornada de trabalho de seis horas e a lei de sindicalização arbitrada pelo governo. Um terceiro grupo fica sem respaldo na categoria e cria o Sindicato de Funcionários Bancários de São Paulo, fundamentalmente assistencialista e atrelado aos patrões.
Em maio de 1935, a nova entidade funda a revista Syn-diké, norteada pelo senso da ordem. O quadro geral político é de extrema tensão. Grupos fascistas e antifascistas se enfrentam na Praça da Sé e líderes dos bancários são detidos, acusados de agitadores comunistas. No mesmo ano é criada a Aliança Nacional Libertadora (ANL), formada por líderes sindicais, socialistas e pessoal da esquerda. A palavra de ordem, a favor do proletariado, é uma só: união sindical.
O governo publica a Lei de Segurança Nacional, que persegue sindicalistas, principalmente de esquerda, e coloca a ANL na clandestinidade. Em Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador e de grandes manifestações pelo país, é criada a Confederação Sindical Unitária do Brasil. Em setembro, a assembléia da CSUB é dissolvida pela polícia, que fecha o cerco aos sindicatos. Em novembro, fracassa a tentativa de “putsch” organizada pelo PCB e aumenta a repressão do governo. Os comunistas são uma pedra no sapato, tanto para o governo como para sindicatos.
A direção do Sindicato dos Bancários renuncia em dezembro, a fim de preservar a entidade. Uma junta provisória assume e, três meses depois, também se afasta por não conseguir aprovar um novo estatuto perante o Ministério do Trabalho. É a deixa para Heillmaister assumir o comando. O sindicalista tem perfil legalista, dando início a um período de conciliação, com acordos recíprocos entre empregados e patrões.
Se, no ano anterior, a greve era uma arma importante, no novo período as desavenças são resolvidas por via judicial. Para amenizar a situação, Heillmaister entrega à Superintendência de Ordem Política e Social uma lista de todos os sócios do sindicato, afugentando, assim, a ameaça de intervenção.
Em 1937, o governo fecha o Congresso e instaura o Estado Novo. Vargas passa a legislar por decretos-leis. Mesmo assim, os bancários lutam por direitos já adquiridos, como a jornada de seis horas. Os banqueiros não querem saber e rejeitam acordos. Os patrões não concordam com um anteprojeto apresentado pelos bancários.
Fusão com o Syn-diké
Em maio de 1939, novamente assume a direção do Sindicato dos Bancários de São Paulo uma junta administrativa provisória, que reúne forças com o grupo da Syn-diké. Surge então o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de São Paulo, que tem que se enquadrar às mais novas regras do governo, como apresentação de relatório anual das contas sindicais. Em novembro, o Decreto 1.761 estipula falta grave para o bancário que não paga seus financiamentos e empréstimos. A categoria defende-se e pede contrapartida ao governo, como imediato reajuste salarial e redução de juros. Em dezembro de 39, acontece o Primeiro Congresso Nacional dos Bancários, em Recife.
Em 1940, os estatutos são reformulados novamente e todas as atividades passam a gravitar em torno do Ministério do Trabalho. A conjuntura política nacional é desfavorável aos trabalhadores. O imposto sindical e o salário mínimo, instituídos naquele ano, e a criação da Justiça do Trabalho, são utilizados como instrumentos de manipulação. Em 1943 surge a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que até hoje regulamenta muitas das relações entre patrões e empregados. Algumas mudanças começam a abalar o Estado Novo, principalmente por causa da posição dúbia do Brasil na Segunda Guerra Mundial (1939-45). Explodem manifestações anti-fascistas, exigindo o rompimento de relações com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
Em agosto, o Brasil declara guerra à Alemanha e Itália. Os setores comunistas que atuam na categoria sabem aproveitar o espaço. Neste cenário ganham destaque Jorge Cardoso Máximo e Domingos Viotti. Inicia-se uma campanha nacionalista organizada pelo Sindicato, que se preocupa com os empregados dos bancos ligados ao Eixo. Começam a ser criados os Centros Democráticos de Trabalhadores, pedindo o fim da guerra. Spencer Bittencourt é eleito secretário geral do Movimento Unificado dos Trabalhadores. Ocorrem novas eleições no Sindicato, numa batalha entre esquerdistas e trabalhistas. A esquerda vence as eleições, finalizando um período de sete anos nas mãos da turma rival. A esquerda só consegue tomar posse em 45, no declínio do Estado Novo.
Democratização controlada

No Brasil de 1945, quando termina a guerra, as pressões pró-democracia se intensificam e os trabalhadores querem mais espaço e autonomia. É o início do colapso do Estado Novo e Vargas se vê obrigado a abrir o regime. A Lei Constitucional nº 9 determina eleições gerais, fim da censura e modificações na Constituição de 1937. O PCB ganha anistia e, ainda naquele ano, surgem 12 novos partidos, destacando-se o PSD (Partido Social Democrático) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), aliados de Vargas.

Surgem os opositores liderados pela UDN (União Democrática Nacional). Vargas larga o poder em outubro de 45. Não só as eleições presidenciais são mantidas, mas mantém o arcabouço corporativo sindical da era varguista.
O PCB marca presença no movimento sindical brasileiro. Em São Paulo, destaca-se o udenista Modesto Scagliuse e um grupo ligado ao Ministério do Trabalho, os ministerialistas, liderados por Memolo Neto. Nisso, finalmente toma posse a nova diretoria do sindicato paulista, eleita em 43. A nova diretoria consegue um fato inédito: o primeiro dissídio coletivo, com aumentos escalonados entre 15% e 45%.
Em 1946, após a eleição de Eurico Gaspar Dutra (PSD) para a Presidência da República, estouram várias greves e os bancários fundam as uniões sindicais municipais. A questão do salário mínimo profissional está em todas as pautas. Jornalistas e médicos já têm o benefício e os bancários também o desejam. Neste quadro, a categoria instala-se na sede da República, no Rio, à espera de uma decisão, mas acabam entrando em nova greve. Outras categorias apóiam os bancários, que querem, além do piso, critérios de promoção. Os banqueiros não cedem, mas com a posse do novo ministro do Trabalho, Otacílio Negrão de Lima, o impasse chega ao fim. Os bancários conseguem, entre outras coisas, aumento salarial e retomada das negociações. São 19 dias de paralisação, que legitimam a Lei de Greve, promulgada em março de 46.
Intervenção nos sindicatos

Começa, neste período, a polarização da Guerra Fria no mundo, dividido nos dois grandes blocos hegemônicos, o liderado pelos Estados Unidos e o da União Soviética. O processo traz ao Brasil a sensação de que as reivindicações trabalhistas são uma ameaça comunista. Os militantes do PCB passam a ser perseguidos e os sindicatos sofrem intervenções. A Confederação dos Trabalhadores do Brasil tem o registro cassado. O PCB estimula a criação de entidades civis e os parlamentares eleitos pelo “partidão” têm os mandatos cassados. A inflação sobe e são formadas comissões pró-salário entre trabalhadores, que em 49 se transformam em comissões de defesa dos bancários.

É criada a UBESP (União dos Bancários do Estado de São Paulo), que reorganiza o movimento sindical. Em 49, partidos rearticulam a volta de Vargas ao poder e, pouco antes de 1950, os sindicatos são autorizados a fazer eleições. Em São Paulo ganha a chapa Libertadora, liderada por Milton Marcondes. A nova diretoria retoma a prática combativa, desenvolvendo campanhas de sindicalização e unificando com dificuldade a campanha salarial de 51. Não há acordo sequer para a antiga reivindicação do piso.
A greve em caráter estadual acontece em 26 de agosto. A polícia passa a espancar e a prender sindicalistas. Belo Horizonte, que até então estava do lado de São Paulo, deixa a briga. Mas a vitória paulista vem em novembro, quando o tribunal concede reajuste de 31% à categoria. Ocorrem demissões, mais perseguições e os bancários estáveis são transferidos para o Interior do estado. Com isso, a categoria tem dificuldade para atuar nos anos 50, pois a própria Lei de Greve tinha sido desafiada e desrespeitada.
Surge a Contec
O segundo governo Vargas (1951-54) caracteriza-se pela política de massas, com conquistas de interesse popular e encorajamento à sindicalização. As entidades sindicais começam a ser padronizadas pelos funcionários do Banco do Brasil, que tinha agências em todo o território nacional. Em 52, Curitiba transforma-se na sede de novo congresso dos bancários e surge a Comissão Sindical Permanente. Vargas, pressionado a renunciar, suicida-se em 54 e Café Filho assume o governo. Os trabalhadores não gostam do novo governo, pois há dificuldades em se discutir projetos de aposentadoria e confusões no IAPB.
Juscelino Kubitschek é eleito novo presidente e enfrenta uma tentativa de golpe antes da posse. Neste cenário, os bancários ficam praticamente sem ação. Isto até 56, quando acontece outro congresso da categoria, em Porto Alegre, que reestrutura a comissão permanente. Uma das lutas é pela extinção do expediente aos sábados. Em 57, a categoria garante as seis horas semanais corridas e aposentadoria por tempo de serviço. Em 58, durante congresso em Belo Horizonte, os bancários criam a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Crédito (Contec), na época, braço forte do sindicalismo, por conseguir negociar diretamente com banqueiros. Ao mesmo tempo, a chegada dos computadores começa a preocupar a categoria.
O início dos anos 60 é marcado por greves, com exigência de 13º salário, e o cenário é de déficit público deixado por JK. Logo depois, Jânio Quadros é eleito o novo presidente, apoiado pela UDN e tendo como vice João Goulart, do velho PTB de Vargas. Com a renúncia de Jânio, em agosto de 61, abre-se uma crise institucional, mas Goulart consegue tomar posse. Logo de cara, enfrenta uma greve dos bancários, exceto dos empregados de empresas privadas. O Banco do Brasil encabeça a paralisação. Novamente, o piso salarial é a questão principal. O saldo imediato é um reajuste de 40% e datas-base unificadas em cinco Estados. Em 7 de novembro, funcionários de bancos privados decidem parar e conseguem reajuste de até 60%. A Contec sai fortalecida e Jango institui o 13º salário.
Cai a reforma bancária
João Goulart procura aliar-se a várias categorias de trabalhadores, entre o quais os bancários, para a recuperação dos poderes presidenciais. Assim, 1962 transforma-se em um ano de novas lutas, nascendo a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT). O novo braço de luta sindical pede plebiscito para discutir o futuro do país e uma greve nacional é organizada. O resultado são novas conquistas, inclusive com o fim do trabalho aos sábados. Deputados federais como Daniel Franco pedem reforma bancária, com o desmembramento do Banco do Brasil.
Com uma nova ameaça de greve, o presidente promete retirar a reforma da pauta. Movimentos grevistas pipocam pelo país, com a participação ativa de bancários paulistas, que pedem gratificações prometidas e o fim dos 30 minutos a mais para compensar o expediente dos sábados, agora extintos. Passo a passo, a categoria vai lapidando e consolidando as reivindicações. Em junho, ocorre a quinta greve nacional. Com inflação alta, o reajuste chega a 70%. Os bancários colocam em prática as grevilhas, paralisações surpresa de cinco minutos por agência. Assustados, clientes correm aos saques.
Golpe de 64
Forças de direita unem-se durante a segunda metade de 63 e, em março de 64, derrubam Jango. No poder, os militares cassam parlamentares e sindicatos. Confederações de trabalhadores sofrem intervenção. O Ato Institucional nº 1, medida da ditadura, cassa direitos políticos de 376 funcionários do Banco do Brasil. Os militares elaboram política para estabelecer acordos anuais às categorias, impedindo a livre negociação entre patrões e empregados. Em dezembro, o Banco do Brasil perde poder, pois é criado o Banco Central. Os grandes conglomerados aumentam. Os pequenos têm dificuldade para operar. Desarticulados, os bancários tentam agir fora do espaço intervencionista, mas sem sucesso. Em 66, surgem duas medidas consideradas ruins pelos trabalhadores: a instituição do FGTS, que acaba com a estabilidade, e a unificação dos fundos de previdência. O IAPB (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários) acaba extinto.
Em 67, uma eleição no Sindicato dos Bancários de São Paulo mantém a mesma diretoria no poder, que tenta evitar manifestações radicais. Mesmo assim acontece uma greve no Rio de Janeiro, onde um contínuo se suicida. Em um acordo, a categoria aceita reajuste de 30%. Em 1968, os militares fecham o cerco com a decretação do AI-5. Lideranças políticas e sindicais são presas e, várias, assassinadas. O Sindicato dos Bancários funciona apenas como máquina burocrática.
No início dos anos 70, acontece o Milagre Brasileiro, com aumento do PIB e mais concentração de riqueza. Em 74, a sociedade civil começa a mover-se para conseguir maior participação política e vota nos representantes do partido político MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Ernesto Geisel, na Presidência, promete a abertura lenta e gradual. Os bancários começam a organizar-se novamente. O clima ferve e faz o governo reconhecer, em 77, que houve manipulação nos índices oficiais de reajustes salariais. Isso faz crescer o prestígio da oposição da diretoria do sindicato.
Na campanha salarial de 78, a oposição luta pela desvinculação do piso salarial dos bancários do salário mínimo, reajustado em maio e prejudicando a categoria. Para complicar, o serviço bancário é considerado essencial. A luta por reajuste de 65% desencadeia a greve e a Polícia Federal fecha o sindicato paulista no final de agosto; bancários são presos e acabam cedendo ao acordo oficial do governo. A chapa de oposição consegue fazer suas reuniões na própria entidade, procurando mostrar que a disputa tem o objetivo de tornar a categoria mais forte e combativa. As eleições são marcadas e os bancários querem o fim do arrocho salarial. A chapa da situação pede responsabilidade nos atos da categoria. Procura, ainda, seduzir com a promessa de um clube de campo. Os ataques pessoais têm início, mas a oposição sai vitoriosa, com diferença de cinco mil votos. Começa uma nova fase na história do Sindicato dos Bancários de São Paulo.
Um novo sindicalismo
Em março de 79, toma posse no Sindicato dos Bancário se São Paulo uma nova diretoria, encabeçada por Augusto Campos, que posteriormente vem a presidir a FETEC/CUT-SP. O sindicato passa a acompanhar temas nacionais como anistia, eleições diretas e Constituinte, o que agrada a sociedade em geral. Os bancários necessitam recuperar sua identidade social, com um amplo processo de mobilização e organização. Para tanto, a diretoria cria sete regionais e os departamentos Feminino, de Imprensa, de Informação e Educação e Cultura. Também passa a defender a criação da Central Única dos Trabalhadores e o recebimento pela categoria de tíquetes de alimentação.
O índice de sindicalização aumenta, passando a 46 mil associados, dos antes poucos mais de 23 mil. A luta pela volta de diretores afastados na ditadura é outro grande embate. Nesse contexto, as greves de metalúrgicos no ABC e de outras no país mexem com os militares. Somente em 79, ocorrem 113 paralisações no Brasil, contra 24 do ano anterior. Na campanha salarial, os bancários reivindicam aumento de 50% e reconhecimento de delegados sindicais. Os banqueiros acenam com apenas 5% de reajuste escalonado, focando a greve nacional (a sexta dos bancários) em 13 de setembro. Nesse dia, São Paulo amanhece tomada pela polícia, que combate violentamente os piquetes, com quebra-quebra generalizado. Um acordo é fechado em 15% e a greve termina, meio derrotada, meio vitoriosa, já que a sociedade começa a apoiar a categoria.
1983, um ano (in)tenso

Este foi um ano intenso, ou tenso para os trabalhadores. O arrocho aumentava, somando-se a isso o empobrecimento da população. O desemprego também crescia, produzindo ondas de saques. No cenário político, prevalecia o pensamento ortodoxo dos banqueiros e um bate-rebate entre o Fundo Monetário Internacional e o governo brasileiro.

Um acordo com o FMI, fez o governo militar baixar o Decreto-Lei 2.012, impondo reajuste de até 100% do INPC, no entanto, de maneira escalonada para as diferentes faixas salariais.

Era a época dos pacotes econômicos e os militares desencadeavam uma luta social-democrática sem precedentes.

Os trabalhadores de todo o país se mobilizavam deflagrando uma greve geral de 24 horas. Como resposta, o governo militar interveio em diversos sindicatos e determinou a cassação de várias lideranças sindicais.

Em 20 de julho de 83, a PF invadiu o Sindicato dos Bancários de São Paulo e prendeu oito diretores, além do jornalista responsável da Folha Bancária e de mais quatro ativistas. A diretoria da entidade conseguiu manter a Folha Bancária livre e passou a organizar rifas e festas para angariar fundos de resistência contra a intervenção.

A campanha pelas Diretas-Já está em pleno vapor e, certo dia, os bancários de todo o país se organizam para vestir qualquer peça na cor amarela. No caso do Banespa, os bancários conseguem impor-se na diretoria do banco paulista. Em setembro, os bancários promovem uma passeata e decretam estado de greve.
Outros manifestos, como o uso de uma fita verde-amarela, e interrupção do trabalho por 15 minutos são realizados. Os banqueiros recuam e propõem pagamento integral do INPC. O acordo é aceito, com validade para todos. O Ministério do Trabalho opera com autoritarismo, determinando nova eleição ao sindicato bancário paulista e a única chapa inscrita é a de Luiz Gushiken. A chapa toma posse em 8 de março de 85 e uma intervenção de oito meses é interrompida.
Nasce a CUT – Central Única dos Trabalhadores durante o Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, realizado em São Bernardo do Campo, no ABC (SP). Milhares de delegados estão presentes, dos quais muitos trabalhadores rurais, e Gilmar Carneiro é eleito membro da Executiva da nova central, a qual representa a ruptura do sindicalismo corporativista e atomizado.
Desde 79, a Oposição Bancária, do sindicato paulista, defende ser necessária a luta da categoria para sair de uma espécie de ostracismo. Com a posse de Gushiken, no Sindicato dos Bancários de São Paulo, a categoria passa a se solidarizar com as greves do ABC. A idéia é reunir forças, como já tinha sido confirmado na 1º Conclat (Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras), realizada na Praia Grande, em 1981, com forte presença dos bancários.
Com o nascimento da CUT, os bancários pautam-se pela autonomia, independência e democracia, com trabalhadores em sintonia com as bases sindicais, além de se formar um bloco bastante combativo.

Os anos seguintes são de mobilização pelas Diretas Já.

Greve de 85
Encerrando o processo de distensão lenta, gradual e segura, iniciado por Geisel, em 15 de janeiro de 85, o Colégio Eleitoral escolhe Tancredo Neves para assumir o governo federal, pela aliança PMDB/PFL, selando uma transição conservadora entre classes dominantes e a cúpula militar. Mas Tancredo morre e assume seu vice, José Sarney, em 15 de março. Resumindo, os bancários recebem Sarney com a seguinte frase: O governo que toma posse tem refletido em seu ministério o amplo espectro de aliança realizada durante a campanha junto aos poucos privilegiados que puderam votar para presidente no Colégio Eleitoral (….). O nosso sindicato está elaborando uma lista de reivindicações a ser entregue ao governo (…).
Os bancários fincam o pé contra o arrocho salarial e o custo de vida. A Nova República começa com defeitos graves e inflação ascendente. Intensifica-se a reivindicação por reforma agrária. Os bancários defendem, a exemplo de outras categorias, o reajuste trimestral, por causa do processo inflacionário. Em 24 de maio, os bancários, usando broches e participando de comícios, desencadeiam nova campanha de greve. Os banqueiros, percebendo a ameaça, recuam e oferecem 25% de antecipação, o que foi aceito. Antes disso, em abril, no Rio, a chapa cutista ganha a diretoria do sindicato dos bancários.
Realiza-se no Rio, em junho, o Encontro Nacional dos Bancários, quando se discute a campanha salarial unificada. O Dia Nacional de Luta ocorre em 28 de agosto, com 30 mil bancários agitando as ruas de São Paulo. Três dias depois, outro encontro nacional é realizado em Campinas e a greve geral é marcada para 11 de setembro, em defesa da estabilidade e da fixação do piso profissional. No dia prometido, o país acompanha a paralisação de seu sistema financeiro. Em São Paulo, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) reajusta em 90,78% o salário dos bancários, que encerram o movimento após três dias de greve. O mesmo ocorre no Rio de Janeiro. Os empregados do Banco do Brasil são os últimos a fechar acordo, com 89,55% de reajuste.
Plano Cruzado
Em janeiro de 86, o sindicato dos bancários paulista participa da elaboração do Plano de Lutas da CUT. Define-se um conjunto de reivindicações, a ser entregue ao presidente Sarney. Dentre as reivindicações estão a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, salário mínimo real e salário-desemprego. A inflação atinge índice recorde e o governo não cede ao reajuste trimestral. É nesse contexto que é decretado o Plano Cruzado I, que desindexa a economia e congela os preços no pico, enquanto os salários são congelados na média.
Em três meses de plano, 70 mil bancários são demitidos e 500 agências são fechadas. Em agosto, o Encontro Nacional da categoria define, em sua pauta de reivindicações, piso salarial unificado e 5% de produtividade. Diante da recusa dos banqueiros, nova greve acontece em 11 de setembro, que é violentamente reprimida pelo governo. Somente em São Paulo, três diretores do sindicato são presos. A greve termina sem acordo com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) e o TRT.
Logo após os resultados eleitorais de 86, com ampla vitória nacional do PMDB, o governo decreta o Plano Cruzado II, mantendo o congelamento de salário, mas criando o gatilho salarial, que só dispararia quando a inflação atingisse a casa dos 20%. Enquanto isso, os preços aumentam. A CUT marca outra greve geral para 12 de dezembro, exigindo do governo o não-pagamento da dívida externa. No dia marcado, 70% dos trabalhadores paralisam o país, com os setores de saúde e educação cessando as atividades. Os bancários fecham boa parte das agências.
No ano seguinte, a decretação do Plano Cruzado II provoca a aceleração da inflação, levando os bancários a organizarem a primeira grande greve nacional fora da data-base realizada após o golpe militar de 1964. Conhecido como “Bola de Neve”, devido ao crescimento diário de adesões, o movimento atinge 80% da categoria país inteiro. Somente as operações de overnight são mantidas, aumentando a dívida pública. A greve só começa a perder força com a volta ao trabalho dos empregados do Banco do Brasil. Ao todo foram nove dias de paralisação na categoria bancária, com exceção da Caixa Econômica Federal que, pelo elevado nível de mobilização, consegue manter o protesto durante 11 dias.
O ano de 1988 começa agitado para os bancários. Em nova eleição no sindicato paulista, Gilmar Carneiro elege-se em chapa única e a luta passa a ser pela manutenção de conquistas na nova Constituição. São confeccionados panfletos com a foto de parlamentares que votaram contra as conquistas e tem início nova campanha salarial, com reivindicação de 102% de reajuste e 26% de reposição de perdas, além da representação sindical contra a privatização de estatais. Os banqueiros apresentam contraproposta de 42,2%, que é recusada. Nova greve nacional dos bancários acontece e os empregados das agências privadas aceitam um reajuste de 53,3% e de 63,27% para o piso.
No início de 89, o governo Sarney decreta o chamado Plano Verão, implicando mais perdas salariais. CUT e CGT chamam outra greve geral para 14 e 15 de março, pedindo 81% de reajuste. Os banqueiros acenam com apenas 15%. Em abril, é fechado acordo com 63% de reajuste salarial.

O final daquele ano é marcado pelas eleições diretas para presidente, o que não ocorria desde 1960. Os bancários decidem apoiar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, mas é Fernando Collor quem vence.

Em 1990, os bancários reivindicam o pagamento semanal dos salários, a fim de repor o poder aquisitivo. Na véspera da posse de Collor, é decretado feriado bancário e surge o confisco da poupança, do over e de contas acima de 50 mil cruzados, além da volta do cruzeiro. As demissões nas agências bancárias chegam a 10% do quadro. Além disso, tem início uma confusão geral no setor financeiro, pela ausência de regulamentações sobre aspectos do pacote. Em junho, a categoria pára de novo e consegue 20% de antecipação. Outra greve de 13 dias acontece em setembro e os bancários conseguem reajuste de 105%.

 

Nasce a federação cutista

Em meio à efervência política que antecedeu a retomada das eleições diretas e o início da reestruturação produtiva no universo do trabalho, nasce a FETEC/CUT-SP (Federação dos Bancários da CUT de São Paulo). Mais precisamente, em 09 de dezembro de 1989, representantes de oito sindicatos do estado de São Paulo (Araraquara, Bauru, Bragança Paulista, Catanduva, Guarulhos, Jundiaí, Limeira e São Paulo) realizam a assembléia que aprovaria a fundação da nova entidade.

O fórum elege a diretoria provisória que, em cinco meses, implanta o processo de estruturação da federação cutista. O 1º Congresso da FETEC/CUT-SP ocorre em junho de 1990 com o slogan “Quem trabalha em banco bancário é”. O evento indica como principais objetivos o fortalecimento da organização por local de trabalho e por empresas, a luta pela prevalência do direito coletivo no campo jurídico e pelo fim da estrutura sindical fascista.

Desde então, a FETEC/CUT-SP segue com a bandeira da liberdade e autonomia sindical, dando a origem a seguidos embates, tanto políticos como jurídicos, entre a nova federação e a entidade até então existente, a Feeb SP/MS (Federação dos Trabalhadores em Estabelecimentos Bancários dos Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul).

De lá para cá, muitos dos debates que nortearam a fundação da FETEC/CUT-SP foram concretizados. Dentre eles, a estruturação da CUT, a consolidação da CNB e uma presença mais marcante das entidades sindicais nas lutas da categoria.

Em todo esse período, a federação cutista soube priorizar a organização dos bancários, reconhecendo organismos criados pela categoria e expressos nos comandos por bancos, nos delegados sindicais, nos cipeiros e nos Conselhos de Representação. Além disso, teve participação ativa na formulação de uma nova proposta para o sistema financeiro e na conquista da Convenção Coletiva Nacional.

Ao mesmo tempo em que ampliou sua base, de oito para 15 sindicatos filiados, a FETEC/CUT-SP marcou presença nos debates sobre as conjunturas nacionais, sem deixar de lado as lutas pela transformação no mundo do trabalho.

Esse intenso trabalho fez com que a FETEC/CUT-SP se consolidasse no estado de SP como uma importante entidade de organização dos trabalhadores. Atuação essa que resultou, em março de 2004, no reconhecimento oficial da entidade pelo Ministério do Trabalho e Emprego, encerrando, assim, uma pendência jurídica de 14 anos.

Na prática, a decisão do MTE representou um avanço dentro do projeto de reforma sindical. Ao consentir a existência de duas federações em um mesmo estado, o ministério sinalizou que o caminho a ser seguido é o da pluralidade sindical.

Uma eleição disputada
Em março de 91, uma nova direção assume o sindicato dos bancários paulista. Foi a primeira vez, desde 82, que duas chapas ligadas à CUT disputam. Gilmar Carneiro reelege-se presidente. Os avanços são notáveis, como o afastamento da Justiça do Trabalho nas negociações nos bancos privados. Dentre as conquistas, estão a manutenção da unificação dos pisos e a formação de comissões de segurança bancária. Os bancários passam a lançar mão da mídia, com inserções em TV e matérias pagas na grande imprensa. Criam ainda o Jornal do Cliente. Em 92, ano do impeachment de Collor, é assinado um acordo único para os bancários de todo o país, o que exige grande organização das bases de 120 sindicatos, sete federações e uma confederação nacional recém-criada.
Em 93, a luta é contra a criação da Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras, a CPMF e pelo pagamento de contas inativas do FGTS. O sindicato paulista muda para as novas instalações, no edifício Martinelli, e inaugura sua nova gráfica. Os bancários apóiam um projeto de reajuste salarial mensal apresentado pelo deputado federal Paulo Paim. Em setembro, durante a campanha salarial, bancários paulistas conseguem parar bancos como o Mercantil e Nossa Caixa. O resultado é o aumento de 37% acima da inflação aos pisos de caixa e um reajuste mensal não integral, mas superior à lei. Os bancários unem-se também à campanha Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria, de iniciativa do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.
O nascimento da CNB

Em 1992, o país sai de um período de escuridão para a vida democrática e tem início o movimento por ética e moralidade na administração pública. Nesse contexto, nasce oficialmente, no dia 20 de junho, a Confederação Nacional dos Bancários (CNB), vinculada à CUT.

A criação da CNB, resultante de articulações iniciadas em 1985 entre os trabalhadores de bancos, representa um importante passo nas lutas dos bancários.

Do nascimento aos dias atuais, a CNB, da qual a FETEC/CUT-SP é filiada, ajuda a construir a história da categoria. Apesar de terem sido anos de transformações no mundo do trabalho, introdução de novas tecnologias e de diferentes políticas econômicas, com dissabores e dificuldades para os trabalhadores, é um período de muitas lutas, mobilizações, greves, resistência e conquistas, dentre as quais a Convenção Coletiva Nacional.

A decisão de transformar o DNB (Departamento Nacional dos Bancários ) em CNB – Confederação Nacional dos Bancários foi tomada no 3º Congresso da entidade, em março de 92. Com participação de 415 delegados, representando 57 sindicatos e cinco federações, o evento aprovou também que a entidade deveria filiar-se à FIET – Federação Internacional dos Empregados e Técnicos, com sede em Genebra, Suíça. A decisão levou em consideração a inserção no cenário internacional para discutir temas como globalização, automação etc. No congresso, a categoria ainda decidiu lutar pela unificação de campanhas, segurança bancária e soluções para as filas dentro das agências. Também teve início uma campanha nacional de sindicalização. O sindicalista paulista Ricardo Berzoini achava que o debate político deveria centrar fogo nos desvios do governo federal, incentivando a CNB a ingressar na luta pelo impeachment de Fernando Collor de Mello.

Daí para frente foram diversas outras batalhas. Com as privatizações dos bancos estatais e fusões de bancos privados, a CNB passa a liderar seguidas campanhas contra as demissões. Nesse contexto, surge a reivindicação para redução da jornada para cinco horas diárias com instituição de dois turnos de trabalho, como forma de criação de novos postos de trabalho no setor.

Com a sensível redução do emprego na categoria, passando de 900 mil em 1993 para 380 mil em 2004, os bancários passam a conviver com o desrespeito à jornada de seis horas, ritmo intenso e imposição de metas abusivas, prejudicando as condições de trabalho e resultando na intensificação dos agravos à saúde. Diante do quadro, a CNB intensifica as pressões sobre os bancos.

Com o passar dos anos, novos temas são agregados à pauta da CNB. Tem início então as lutas pelo combate ao assédio moral e sexual e por igualdade de oportunidades no emprego. A questão da segurança também preocupa os bancários. Com a intensificação dos assaltos a bancos e o advento dos seqüestros de bancários e familiares, a confederação nacional passa a integrar a Comissão Consultiva para Assuntos de Segurança Privada, onde intensifica as denúncias contra os bancos que desrespeitam a lei de segurança bancária nº 7.102, de 1983. Em recente seminário nacional, a CNB aponta a necessidade de se modernizar a referida lei de forma a adequá-la a uma nova realidade.

 

A sociedade

Os bancários sempre tiveram participação ativa em grandes momentos de mobilização da sociedade civil. A campanha salarial de 92 corre com o debate político e as manifestações de rua. O impeachment de Collor de Mello é o centro das atenções e a categoria, com criatividade, faz manifestações e denúncias contra o presidente. Na linha de frente, os bancários, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, usam preto, numa das maiores manifestações populares daquele ano. Também são movidas ações contra os presidentes do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, acusados de utilizar dinheiro público na campanha anti-impeachment.
Em 93, com inflação galopante, os bancários iniciam campanha por reajuste mensal de salários. Fax, telefone e telegramas são os instrumentos usados para que as mensagens chegassem aos parlamentares, pressionando pela aprovação do projeto que acolhia a reivindicação. A CNB/CUT coordena abaixo-assinado, com 140 mil nomes em todo o país. Nessa época, é descoberto o escândalo dos anões do orçamento, levando a público o favorecimento de empreiteiras e lavagem de dinheiro. Nesse ano, Herbert de Souza, o Betinho, lança campanha contra a fome e a miséria. A CNB e as entidades filiadas criam comitês em todo o país para incentivar o sociólogo.
Em fevereiro de 94, o então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, que posteriormente se elege presidente, anuncia a conversão dos salários pela média dos últimos quatro meses. Com os preços no pico, os bancários realizam uma greve contra a Medida Provisória que aprovaria o plano econômico FHC-2, o sétimo plano num período de oito anos. Em 96, os bancários denunciam a existência de milhões de desempregados no país e a flexibilização dos direitos trabalhistas. Nova greve é convocada, sob a organização da CUT.
Em 97, a CUT intensifica a luta contra as mudanças da CLT. Em 17 de abril, cerca de 60 mil trabalhadores, entre eles milhares de bancários, reúnem-se em Brasília na Marcha pela terra. Já em 99, a central realiza o Dia Nacional de Lutas em Defesa do Brasil. Em agosto, ocorre o Fórum Nacional de Luta, com a realização da Marcha dos 100 mil sobre Brasília, contra a política de FHC. Em março de 2002, a Central mobiliza 200 mil trabalhadores contra as mudanças da CLT, tendo como destaque a participação dos bancários.
De volta a 97, a CNB divulga o resultado da pesquisa Perfil do Bancário, com o objetivo de conhecer a opinião do trabalhador, da população e dos pequenos e médios empresários sobre a eficiência dos bancos e do trabalho bancário. São comprovadas as denúncias de discriminação, elitização do serviço e queda do emprego no setor. Dois anos depois, a Confederação lança o manual Os Bancos e Você – Conheça seus Direitos de Consumidor, feito com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Tarifas bancárias altas e longo tempo nas filas em agências são alguns dos destaques desse manual. Em julho de 2001, o Banco Central responde, lançando o Código de Defesa do Consumidor Bancário, posteriormente, contestado pelos bancários por ter sido feito de forma unilateral.
O ano de 2001 é cheio de atividades e os bancários marcam participação no 1º Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, com mais de 2.500 pessoas ligadas a Organizações Não-Governamentais (ONGs) de todo o mundo. No ano seguinte, durante o 2º FSM, novamente na capital gaúcha, a CNB organiza a oficina Com Crédito Para Desenvolvimento Social, Um Outro Mundo é Possível. Durante o evento, representantes de 162 países falam a mesma língua em prol da democracia, meio ambiente, distribuição de riqueza etc.

Em 2002, depois de oito anos marcados por políticas neoliberais, Luíz Inácio Lula da Silva, um ex-operário e ex-dirigente sindical, é eleito presidente da República com 53 milhões de votos, reacendendo a esperança de milhares de brasileiros.

Tão logo toma posse em 1º janeiro de 2003, Lula lança o Programa Fome Zero, iniciando sua empreitada contra o flagelo que atinge 1 bilhão de pessoas no planeta. O ano é marcado por embates em torno dos debates sobre a reforma da Previdência, ao mesmo tempo em que crescem as mobilizações e as denúncias em nível mundial contra a guerra dos EUA contra o Iraque.

O ano de 2004 surge em meio a demissões em massa no setor bancário. A categoria organiza campanha de denúncias e cobra responsabilidade social dos bancos frente aos seus sucessivos recordes nos lucros. Paralelamente avançam os debates sobre a reforma sindical, apontando para o fim do imposto e da unicidade sindical.

 

A regulamentação do sistema financeiro

Os debates no movimento sindical bancário sobre a regulamentação do sistema financeiro vêm de longa data. No entanto, no final de 91 e início de 92, é criado grupo de estudo, formado por dirigentes sindicais, economistas e parlamentares, resultando na elaboração do projeto de reforma do sistema. A ênfase do trabalho é descobrir o verdadeiro papel dos bancos públicos, a independência do Banco Central (BC), os objetivos do sistema financeiro privado e lutar para limitar a taxa de juro em 12% ao ano.

Para aprofundar o debate, em janeiro de 92, a CUT realiza seminário nacional com representantes de diversas visões. Propostas para regulamentar o sistema são reforçadas através de projeto assinado pelo deputado federal petista José Fortunati. A Câmara dos deputados constitui uma comissão específica para debater o assunto. Embora a comissão não tenha surtido efeito, o tema ganha espaço na sociedade em razão da quebra dos bancos.
Em 95, com o escândalo do Banco Econômico, os bancários cruzam os braços em todo o país e um abaixo-assinado com 50 mil nomes contra as demissões é entregue ao vice-presidente Marco Maciel.
Após idas e vindas, o Econômico é comprado pelo Banco Excel e, mais tarde, adquirido pelo grupo espanhol BBV. Em 95, o governo lança o Programa de Estímulo à Reestruturação e Fortalecimento do Sistema Financeiro (Proer), facilitando processos de fusão e incorporação de bancos. Os bancários denunciam as operações do Proer, que ao longo dos anos libera mais de 20 bilhões de reais para socorrer bancos em estado de falência. Só no Banco Nacional são gastos cerca de 10 bilhões, revoltando os bancários e a sociedade.
Para 96, a categoria define como prioridade a defesa da regulamentação do sistema financeiro, mobilizando-se pela criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista para investigar a atuação do BC na fiscalização de fraudes nos casos dos bancos sob intervenção. No toma-lá-dá-cá, o governo distribui verbas e favores para impedir a CPI.
No ano seguinte, as mudanças no sistema são aceleradas. Fusões, privatizações de bancos estatais e ampliação da presença dos estrangeiros são alguns elementos da nova face do sistema. A autorização do BC para o grupo inglês HSBC comprar o Bamerindus dá início à investida dos estrangeiros.
O ano de 97 também marca o início da privatização de bancos estaduais, partindo do Banerj, cujo controle passa a ser do Itaú. Em agosto, o Credireal é vendido ao BCN. O Produban e o Beron são liquidados e o Bemat transformado em agência de fomento. O Meridional, federalizado, é vendido ao Bozano-Simonsen. Em 19 de fevereiro de 99, o boletim sindical CNBBrasil denuncia a operação de socorro do BC aos bancos FonteCidan e Marka, com a venda de dólares abaixo do valor de mercado para evitar que os dois quebrassem. O escândalo envolve 200 milhões de reais, com prejuízo de 60 milhões calculado pelo próprio BC. Em 2000, o movimento sindical bancário volta a se empenhar na instalação da CPI para investigar as falhas de fiscalização do BC, mas o governo breca o processo novamente.
No início de 2001, há novo debate sobre o papel do BC. Enquanto o governo defende dar o controle da instituição à iniciativa privada, sem interferência do presidente a ser eleito em 2002, a CNB acha que o certo seria a sociedade controlar o órgão, cabendo ao Congresso Nacional e Poder Executivo fiscalizá-lo.

 

As negociações na virada do milênio

A década de 90 trouxe uma importante conquista para a categoria bancária. A assinatura da Convenção Coletiva Nacional em 1992 inaugurou o processo de unificação dos bancários dos bancos privados em nível nacional. Até então, eram assinados acordos por região, com conquistas diferenciadas. Com a novidade, os bancários de todos os estados brasileiros passaram a gozar dos mesmos direitos, o que contribuiu para a organização de mobilizações nacionais, o que logo de início já proporcionou a conquista do aumento real de 5%, recomposição bimestral e ampliação do auxílio-creche de 72 para 83 meses.

Em 93, a campanha salarial conclamou a categoria a entrar na briga contra o jogo dos bancos e contra a ganância dos banqueiros. Greves localizadas foram estratégias das campanhas seguintes, tendo como alvos bancos como o Real, Mercantil de São Paulo e Nossa Caixa. A Fenaban concedeu, então, aumento real de 37% para caixas e 24% para escriturários. Em 94, o tema da campanha foi Banqueiros: Sócios da Inflação, Cúmplices da Miséria; Não às Demissões e às Perdas Salariais. Em abril daquele ano, até o Exército entrou na luta contra os bancários, que paravam agências pelo Brasil afora.

Em 94, o governo lança o Plano Real e a categoria antecipa a campanha. Os salários são congelados na média e os preços disparam. Com a conversão da moeda de URV para o Real, os trabalhadores amargam perda de cerca de 9%. Com o DIEESE, a CNB faz o mapa do emprego bancário no Brasil. Enquanto isso, o Plano Real sofre sua primeira baixa, a do ministro da Fazenda Rubens Ricúpero. Ele deixa escapar, no intervalo de uma entrevista à TV, que o governo divulgava os aspectos bons do plano e escondia os ruins.
No ABC, 68 mil trabalhadores cruzam os braços contra o Real e os petroleiros fazem quase um mês de greve. O governou engrossa e a postura do Tribunal Superior do Trabalho passa a ser a de apenas homologar decisões patronais. No meio da crise, a campanha salarial dos bancários conquista um mecanismo para coibir demissões. Em 95, os debates priorizam a participação de lucros e resultados e categoria consegue R$ 200 a título de PLR.
Em 96, os bancários adotam o Plano de Ação Reage Brasil, que consistia em chamar a sociedade para discutir desemprego, latifúndio, violência, trabalho escravo, trabalho infantil, exclusão social e concentração de renda. Após uma greve de nove dias nos bancos privados, a Fenaban apresenta, entre outras coisas, aumento de 12% nos pisos salariais e PLR de 60% sobre os salários, mais valor fixo de R$ 270. Foi um grande avanço. Nos bancos federais, o governo inicia a política de congelamento salarial. Há resistência e a categoria obtém abono em lugar de reajuste. O ano de 97 foi de avanços apenas razoáveis, por causa da fragmentação dos bancos e da intransigência do governo. Mesmo assim, a PLR passa a ser de 80% do salário e tem início a concessão de auxílio para qualificação profissional. Em 98, os bancos concedem uma antecipação salarial em abril e a preservação dos empregos passa a centrar a campanha. Os cortes de pessoal aumentam. Os bancos oferecem reajuste zero e propõem a criação de jornada de oito horas de trabalho. O índice negociado é de apenas 1,2%.

Em julho de 99, ocorre a I Conferência Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, em substituição ao tradicional Encontro Nacional de Bancários. No Rio de Janeiro, cerca de 25 mil trabalhadores dos bancos paralisam o centro e, em nova proposta, a Fenaban concede reajuste de 5,5% e PLR de 80% do salário, mais R$ 400.

Junho de 2000 foi data da II Conferência, tendo como eixos: emprego, aumento real, defesa dos bancos públicos, auxílio educacional e luta contra a Resolução 2.707 do BC, que instituía o correspondente bancário, ou seja a possibilidade de qualquer estabelecimento comercial fazer a desempenhar tarefas tipicamente bancárias, com sérios riscos de fraude às leis trabalhistas. Funcionários do Banco do Brasil, Banespa e Caixa Econômica Federal cruzam os braços em 10 de novembro. No dia 25, nova paralisação no Banco do Brasil. O julgamento do TST mantém o salário congelado nos bancos federais e determina apenas o pagamento de abono salarial.

Na campanha de 2001, o tema é Agora é a Hora de Reacender a Esperança. A Fenaban pressiona para extinguir o anuênio em troca de indenização. Os bancos realizam plebiscito na categoria para definir sobre a questão. Os bancários deliberam que a decisão é individual. A campanha termina com reajuste de 5,5%, PLR de 80%, mais R$ 500 e abono de R$ 1.100.
A campanha do ano seguinte tem como tema Juntos, Conquistar e Mudar, dando início às pressões pela instituição da mesa única de negociação entre os setores privado, estadual e federal. A defesa do emprego continua no foco dos bancários, com denúncias sobre as conseqüências maléficas aos trabalhadores em situação de privatizações, fusões e incorporações. O tema ‘assédio moral’ passa a integrar a luta dos bancários.
Em 2003, os bancários usam o slogan “Que a responsabilidade social vença a ganância” e vão à luta para tentar recompor as perdas do período. Os bancos oferecem 9% de reajuste e os bancários se mobilizam para elevar o índice. A campanha salarial chega ao fim nos bancos privados com acordo de 12,6% sobre todas as verbas, abono de R$ 1.500, PLR equivalente a 80% do salário mais R$ 650 fixos (com limite de R$ 4.600) e cesta-alimentação de R$ 200.
Os funcionários dos bancos federais permanecem na luta por recomposição maior, de forma a compensar os oito anos de arrocho salarial do governo FHC. Bancários do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal vão à greve interrompendo as atividades nas capitais e diversas regiões do interior do país. Depois de três dias paralisação, BB aceita cumprir a Convenção Coletiva da categoria em sua totalidade, além de contemplar reivindicações específicas importantes para o funcionalismo. Na Caixa, movimento estende-se até o nono dia e, embora não tenha alcançado as reivindicações em sua plenitude, inaugurou um processo de negociações permanentes para tratar das questões específicas dos empregados.
Os debates em torno da campanha salarial 2004 têm início em junho com a IV Conferência Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, com participação de 1.200 delegados. O fórum elege a defesa do emprego, aumento real e PLR justa como bandeiras de luta e referenda a união entre bancários de bancos privados e estatais em torno da campanha salarial unificada, como estratégia para fortalecer a categoria nas negociações com os banqueiros.

 

Bancos públicos

Imagine os dois maiores bancos oficiais de um país serem usados para a defesa de um presidente prestes a perder o cargo. Foi o que aconteceu em 1992, com o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, que se tornaram a principal fortaleza em defesa de Collor de Mello durante seu processo de impeachment. Os escudeiros do presidente eram Lafayete Coutinho e Álvaro Mendonça, presidentes do BB e da Caixa. O governo, já sentindo a derrota, determinou que negociações salariais com os trabalhadores só fossem retomadas no mandato presidencial seguinte. Foi o que aconteceu em 93, momento em que os bancários também passaram a conviver com siglas estranhas como CCQs e TQCs (relacionadas a controle de qualidade). Nos bancos públicos, os termos usados eram NMOA, Novo Rosto, Suporte Zero, Back Office etc.
Em 94, ano eleitoral, a CNB/CUT realizou sua Plenária Nacional, tendo como foco a questão dos bancos públicos, em especial os estaduais. O pessoal do BB fez um congresso para discutir a situação de seu banco. Do encontro saiu um documento de nome Um Projeto para o BB, que foi entregue a candidatos à presidência da República. O momento era propício, pois havia a perspectiva de partidos de esquerda ganhar nas urnas. A palavra de ordem em 94 era fortalecer os bancos estaduais e federais, com gestões transparentes.

Em 95 tem início a reforma bancária, com intervenções no Banespa, Banerj, Bemat e Beron, logo após a posse de Fernando Henrique Cardoso.

Com o novo governo, a fome e a miséria, até então escondidas no país, ganham o chamado do sociólogo, Herbert de Souza, o Betinho. BB e CEF são peças fundamentais na criação dos comitês contra a fome, com ampla participação dos funcionários em todo o país.

Logo no primeiro mandato de FHC, ocorrem mudanças de gestão na CEF, dentre as quais a instituição do Programa de Reestruturação da Caixa (PRC), prevendo o retorno do banco para atuação na área comercial. Ao PRC, seguem-se três programas de demissão voluntária, resultando na saída de 11,1 mil funcionários. Na gestão seguinte, o banco cria o RH 008, instrumento que possibilita demissões sem justa causa na instituição.
Os bancários intensificam as mobilizações em defesa dos bancos estaduais. O governo enfrenta greves, manda o Exército invadir refinarias e trabalhadores são demitidos. Mais tarde, vai a cabo a privatização do Banerj e Banespa. No mesmo ano, nota técnica do Ministério da Fazenda fulmina os bancos federais e define estratégias para o BB, CEF, BNB e Basa. Os dois últimos deveriam ser transformados em agências de fomento, enquanto os dois primeiros teriam funções redefinidas e seriam preparados para possível privatização.
Nos anos 95, 96 e 97 aumentam os prejuízos, que totalizaram R$ 19 bilhões no BB. O governo então decide capitalizar o banco e esconde dívidas do Tesouro com a instituição, que tinha o papel de agente oficial no repasse de recursos. A política dos bancos continua a de enxugar o pessoal, chegando a 50 mil novas demissões. Na CEF, o arrocho é grande e seus empregados decidem se unir definitivamente com o apoio de sindicatos. Em meados dos anos 90, a Contec ainda se faz representante dos bancários da CEF, com o agravante de fechar acordos rebaixados. No banco BNB, a trajetória de funcionários derrotados frente ao governo é iminente, com milhares de demissões.
Nessa época nebulosa, a história do Banespa é um caso à parte. Seus funcionários intensificam a mobilização contra a privatização, envolvendo prefeituras, câmaras e Assembléia Legislativa. O ápice da resistência contra a venda do principal banco estadual do país é o ano de 2000. O governo luta com todas as armas, entre as quais a de manter de plantão o presidente do Superior Tribunal do Trabalho para receber recursos do Palácio dos Bandeirantes e derrubar liminares que impedissem a venda da instituição paulista. Os bancários contra-atacam, recolhendo 300 mil assinaturas da população. Através da CNB, é criado o Comitê Nacional em Defesa dos Bancos Públicos. A categoria luta contra dossiês que indicam a venda como saída para o Banespa e após inúmeras idas e vinda, em novembro de 2000, o banco é comprado em leilão pelo Banco Santander, de origem espanhola.

 

Fontes:

“A História dos Bancários – Lutas e Conquistas 1923 – 1993”

Autor: Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região

“Dez anos de lutas, conquistas e sonhos”

Autor: Confederação Nacional dos Bancários da CUT