Alguns discursos se tornam marcantes em função de seus autores. Outros, pelo seu conteúdo. Ainda há aqueles que marcam nossas mentes em função do contexto histórico no qual estão inseridos. Pode-se dizer do discurso proferido pela professorinha potiguar Amanda Gurgel durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, que reúne estas três características. Além de uma figura humana incrível, a pequena servidora pública também soube construir um texto impecável no pouco tempo que teve, em um momento que não poderia ser mais significativo na história brasileira.

Foi na internet, entretanto, que o vídeo da fala de Amanda ganhou o apoio que merecia, ao contabilizar – somente no YouTube – mais de um milhão e trezentas mil visualizações.

Certamente ao discursar de maneira firme e decidida em frente à secretária de Educação e de deputados de seu Estado, justificando a greve no Estado e criticando o ônus histórico imputado à classe de professores, sem um bônus equivalente, Amanda não previa que se tornaria mais uma celebridade instantânea das mídias sociais. Aliás, uma das características marcantes da internet é justamente saber pinçar de forma democrática os vídeos que irão se tornar tendência, muitos dos quais são produzidos de forma totalmente despretensiosa, num efeito colaborativo respaldados por retuites, curtidas e compartilhamentos, os quais às vezes nem mesmo os mais experientes usuários conseguem também antecipar.

Quem navegar pela internet há mais tempo, irá lembrar que o discurso de Amanda lembra em sucesso e impacto, o da garota Severn Suzuki, durante a Rio 92 no Brasil, o qual deixou abobalhados vários conferencistas e até hoje é um “hit” na internet e para qualquer ambientalista que se preze. Ambos os discursos têm a mesma jovialidade e coragem e materializam muito da rebeldia incontida nas mídias sociais. Via de regra, sim, estas mídias são contraventoras, se comparadas com anos recentes, onde o único reflexo em massa da nossa brasilidade era visto quase que exclusivamente pela televisão e quando esta se dignava a ouvir as vozes dissonantes das ruas. Até mesmo na linguagem própria, diversos signos novos e díspares da chamada norma culta, podem ser encontrados a cada dia no Twitter, Facebook, blogs e afins, os quais não podem ser desprezados em sua nova forma de protesto e discurso.

Ao “adotar” a voz de Amanda como mais uma bandeira, é dado outro recado. O enfoque dado por Governos sucessivos à educação já parece ter cansado a todos. O discurso da Professora não poderia ser mais providencial. Justamente quando governo e oposição travam batalhas homéricas concernente a números e metas frias, a voz da professora em sala de aula pede um basta e mais respeito com a educação no Brasil. Cansada de ser tratada como ícone de abnegação e plano secundário ela pede a repartição e aumento do bolo (ou, melhor dizendo, do cuscuz), com a classe dos professores.

#DezporcentodoPIBJa – Amanda, dias após deixar o “anonimato”, foi convidada para diversos programas de tv, mais uma prova inequívoca de que a televisão também é pautada diversas vezes pelas mídias novas. Esteve inclusive no último Domingão do Faustão da Rede Globo, onde insistiu na sua luta e lançou a hashtag #DezporCentodoPIBJá, pedindo que o percentual da riqueza do País seja efetivamente destinado à educação, a qual alcançou o primeiro lugar nos TT (trending topic) do Twitter brasileiro no mesmo dia. Como não poderia deixar de ser, gerou também vários protestos de inúmeros teóricos, a questionar desde o alicerce constitucional até a viabilidade prática de tal “projeto”. Muitos desses críticos parecem cegar ao caráter emblemático da proposta, mormente em um País tão dado a explicar com números e leis o que não se consegue explicar pelo exercício lógico. Aliás, é praxe até de quem se acha elitista criticar qualquer protesto por sua aparente falta de supedâneo culto (algo que não falta às palavras de Amanda, registre-se), provavelmente uma defesa preparada quando argumentos próprios tornam-se frágeis.

Se o grito de Amanda, multiplicado por milhões de outros brasileiros, irá causar um efeito concreto no trato da educação no Brasil, ainda é cedo para se dizer. Mas se o poder público continuar desprezando tais protestos, é certo que terá ainda mais trabalho para explicar os revezes da educação. Não se sabe em quem terá apoio para dividir as responsabilidade. Certo, é que não será mais com a classe representada por Amanda Gurgel, que já está cansada de ser, em suas próprias palavras, “a redentora do País“. A quem caberá tal incumbência de super-herói, então?

(Emerson Damasceno – Portal Terra)

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