Considerado o todo-poderoso ministro do governo Dilma, Antonio Palocci (Casa Civil) está na mira da grande mídia e da oposição. Cinco dias depois da divulgação, pela Folha de S. Paulo, de que seu patrimônio cresceu 20 vezes em quatro anos, o chefe da Casa Civil continua nas manchetes dos jornalões.Palocci

A artilharia começou no domingo, na principal matéria de capa da Folha. De acordo com o jornal, Palocci adquiriu, em 2009, um escritório em São Paulo por R$ 882 mil. No ano seguinte, pouco antes de assumir o ministério, comprou um luxuoso apartamento no valor de R$ 6,6 milhões. As aquisições só teriam sido possíveis devido aos lucros da Projeto Administração, aberta em 2006 por Palocci e por sua mulher.

Embora não faça acusações diretas ao ministro, a reportagem é cheia de insinuações. “Segundo os registros da Junta Comercial, a Projeto foi criada como consultoria e virou administradora de imóveis dois dias antes de Palocci chegar à Casa Civil”, diz a Folha, sem dar mais detalhes. “Na autobiografia Sobre Formigas e Cigarras, lançada em 2007, Palocci se descreveu como um homem de ‘poucos bens’ e manifestou ‘indignação’ com ‘boatos’ que circularam sobre suas finanças pessoais no passado”, provoca o jornal.

Não há uma denúncia direta, mas foi o estopim para que lideranças da oposição passassem, com os dias, a pôr Palocci no “olho do furacão”. Já na terça-feira, DEM e PPS ingressaram com pedidos de abertura de inquérito na Procuradoria-Geral da República, questionando o faturamento da empresa no período e quais foram os seus clientes.

O tom da mídia

Palocci argumentou que, como consultor, contava com o trunfo de ter vivido “uma experiência única que dá enorme valor a esses profissionais no mercado”. A experiência a que se referia era sua passagem pelo Ministério da Fazenda de 2003 a 2006, no primeiro mandato do governo Lula. Aliados do PT e do Planalto, invariavelmente de forma tímida, saíram em defesa do ministro.

Mas, a partir de terça-feira, enquanto a oposição tentava levá-lo à Câmara para depor, Palocci voltava a ser, dia após dia, exposto nas manchetes dos jornais, sobretudo os paulistas. Abandonando a cortesia habitualmente dispensada ao ministro, Folha e Estadão avançavam no tom das chamadas de capa.

Terça-feira, 17 de maio
Folha: “Comissão de Ética diz que Palocci não relatou bens”
Estadão: “Dilma blinda Palocci e oposição reage com cautela”

Quarta-feira, 18 de maio
Folha: “Ex-ministro vale muito no mercado, diz Palocci”
Estadão: “Cinco ministros de Dilma têm empresas de consultoria”

Quinta-feira, 19 de maio
Folha: “Ação do Planalto barra convocação de Palocci”
Estadão: “Negócio feito por empresa de Palocci é suspeito, diz Coaf”

Sexta-feira, 20 de maio
Folha: “Empresa de Palocci faturou R$ 20 mi no ano da eleição”
Estadão: “Palocci trabalhou para 20 empresas”
Sem força no Congresso, a oposição dificilmente conseguirá emparedar Palocci e emplacar um processo de desestabilização do governo. Depois de uma série de iniciativas desarticuladas, o PSDB tomou a decisão de buscar uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito).

Para tanto, é preciso reunir 27 assinaturas no Senado e outras 171 na Câmara – algo improvável, a não ser que parte da base aliada ao governo mude de lado. Na quarta, ao levar ao plenário da Câmara sua proposta, a oposição sofreu uma derrota vexatória: 72 a 266. Um dia depois, o DEM foi a cinco comissões permanentes para protocolar uma Proposta de Fiscalização e Controle (PFC) contra Palocci.

Quebra de sigilo?

Da parte do governo, a defesa do ministro se fortaleceu. O líder Cândido Vaccarezza (PT-SP) lançou a suspeita de violação do sigilo de Palocci. “Para ter esse tipo de informação, tem que ter quebra de sigilo. Pode ser que tenha havido quebra de sigilo ilegalmente”, sustentou. “Tem que ver de onde saiu essa informação. Na lei que existe no país, o Palocci cumpriu todas as questões. Até aqui, com todos os dados que temos, não tem nenhum descumprimento legal feito pelo Palocci.”

Mas a oposição, ao menos nas declarações à imprensa, procura demonstrar otimismo. “Há gente constrangida dentro do governo, o que pode ajudar na investigação”, declara o líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO). “Acreditamos em defecções dentro da base governista”. Já o líder do PSDB, Álvaro Dias (PR), afirma que “fazer tentativas de investigar também é uma forma de pressão para que o governo tome providências”.

Em artigo para o blog Luis Nassif Online, a jornalista Maria Inês Nassif opina que a situação de Palocci “pouco contribui para a discussão de sistema político” do Brasil. “Um debate de reforma política que abrir mão de entender por que é tão normal ex-dirigentes governamentais da área econômica acumularem fortunas depois que saem de cargos públicos será uma discussão sobre miçangas.”

(Correio do Brasil)