Um história ainda a ser esclarecida, principalmente para a família, envolve o travesti cearense Sérgio dos Santos Rodrigues, de 25 anos, que veio a falecer no último dia primeiro de maio, na cidade italiana de Ancona. Segundo a família, o hospital italiano Lettoreti, em que o cearense foi atendido e veio a óbito, havia informado como causa da morte, hepatite.

O dilema vivido por Edna Lourenço dos Santos e Jane Rodrigues dos Santos mãe e irmã, respectivamente, de Sérgio se prende à tentativa de poder trasladar o corpo dele para Fortaleza, de uma feita que a família, que mora no bairro Vicente Pinzón, não tem condições financeiras de custear o traslado.

“Gostaria que alguém de posse me ajudasse a trazer o corpo de meu filho para ser sepultado aqui. Não me conformo em deixar um pedaço de mim tão longe”, apelou dona Edna.

A irmã, Jane dos Santos, que está à frente do que denomina de “luta” pelo traslado, já buscou ajuda nos meios legais, no Consulado e até no Itamaraty, mas recebeu informações de que nada podia ser feito nesse sentido.

Mãe e irmã conseguiram, via empresário que não quis ser identificado, as passagens aéreas de ida e volta para Itália. Elas estão retirando o passaporte e devem na próxima quarta-feira viajar para o País. As duas também aguardam a confirmação do consulado italiano que prometeu liberar seus vistos de entrada e abrigá-las durante a estada na Europa.

“O que nós queremos é ver e, se for possível, trazer o corpo de nosso irmão, que perdeu a vida muito jovem e em circunstância que ainda não sabemos o que realmente aconteceu”, afirmou.

Segundo relato de dona Edna, Sérgio era um rapaz de vida normal, estudava e trabalhava, sempre ajudando a família. “Em 2009, ele com vontade de melhorar de vida, resolveu ir embora para São Paulo. Lá, conheceu um “amigo”, conterrâneo de nome Ione. No mesmo ano, o pai dele adoeceu e o chamamos. Ele veio, mas, por telefone, avisou que estivéssemos preparados pois, ele estava totalmente transformado. Tinha colocado silicone no corpo e era um travesti”, contou.

“Mesmo tendo avisado, quando fomos esperá-lo e o vi, senti um aperto no peito e ao mesmo tempo um alívio, pois ali quem estava era meu filho. Poucos dias, meu esposo falece e logo após ele diz que tinha recebido convite do seu amigo Ione e iria morar na Itália para ganhar muito bem”, disse.

Ione, segundo dona Edna, é um travesti cuja mãe mora no bairro Antônio Bezerra, em Fortaleza e que conheceu Sérgio ainda em São Paulo e o influenciou a se transferir para a Itália. “Ela, Ione, foi que mandou tudo para o Sérgio viajar, passagem, euros e visto de três meses. Nunca vi a Ione, só falávamos com ele por telefone”, disse.

“Nos primeiros meses na cidade italiana, ele nos escrevia dizendo que fazia shows e que estava muito satisfeito e ganhando bem”, disse a mãe. “Depois desse período, as coisas complicaram. Ele nos dizia por telefone que vivia trancado em um quarto, e dificilmente saia e quando fazia era com muito medo, pois o seu período de estada tinha acabado”.

Segundo Edna, quando ele mandava dinheiro, era por intermédio de Ione que enviava para sua mãe e a irmã de Sérgio ia ao bairro Antônio Bezerra pegar. Jane disse que o último contato de Sérgio, por telefone, se deu no dia 28 de abril, quando ele contou que estava muito doente, com dores nas pernas e que tinha caído. “Pedi para ele voltar, mas ele disse que iria procurar um médico. No domingo, 1º de maio, a primeira informação que recebemos foi do hospital italiano, anunciando sua morte. Depois a Ione ligou confirmando o sucedido”, disse Ione.

Consulado

O vice-cônsul da Itália no Brasil, Roberto Misici, disse que, antes de qualquer procedimento, é preciso saber informações da vítima, saber se estava trabalhando legalmente, se não havia irregularidade na permanência.

Ele disse conhecer o caso do travesti que foi assassinado e que foi procurado pela família. ´´Não podemos sair bancando, financiando, todos que morrem no exterior. Damos apoio, mas não há obrigação financeira com o traslado”, afirmou, ontem, o vice-cônsul da Itália em Fortaleza.

(ADALMIR PONTE – Diário do Nordeste)