A brasileira Alice Furtado, de 23 anos, recém-formada em cinema pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFF), concorre ao primeiro prêmio que o Festival de Cannes vai anunciar neste ano.

Trata-se do prêmio Cinéfondation, reservado aos estudantes de cinema, que será divulgado na sexta-feira (20) à tarde na Sala Buñuel, no Palais des Festivals.

O curta-metragem de Alice, “Duelo Antes da Noite”, foi exibido ontem no festival.

Neste ano, a seleção da Cinéfondation recebeu 1.589 filmes provenientes de 360 escolas de cinemas de 82 países. Desses, cerca de 20 foram selecionados.

Os três prêmios da Cinéfondation serão anunciados amanhã pelo cineasta e videoartista Michel Gondry (diretor de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” e “Rebobine, por Favor”), presidente do júri.

Os vencedores vão receber, cada um, 15 mil euros, 11.250 euros e 7,5 mil euros.

O júri dos curtas-metragens, em Cannes, já teve, à frente, cineastas como Atom Egoyam, Hou Hsiao Hsien, Martin Scorsese e John Boorman.

Leia a seguir, a entrevista que Alice Furtado concedeu à Folha.

  Divulgação  
Cena do filme "Duelo Antes da Noite", de Alice Furtado
Cena do filme “Duelo Antes da Noite”, de Alice Furtado, que concorre ao Cinéfondation, reservado a estudantes

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Folha Você ficou muito nervosa antes do início da sessão?
Alice Furtado – Fiquei, claro! Meu filme foi o primeiro da sessão e, para complicar, inventei de fazer a apresentação em duas línguas, então tive de me preparar bastante até me sentir segura. É bastante emocionante quando eles anunciam o filme e te convidam a falar sobre ele na frente daquela plateia enorme, com pessoas de todos os lugares do mundo.

Como são os dias de quem tem curtas na Cinéfondation? Vocês participam de entrevistas, encontraram o Gondry ou os dias são calmos?
São tudo menos calmos. Além dos quatro programas de filmes que temos que assistir, existem eventos oficiais, incluindo reuniões, sessão de fotos, jantar, festa.
Nesse meio tempo, há também entrevistas e, além disso, tenho feito o possível para conseguir ver os longas-metragens do festival.
Ainda não tivemos oportunidade de conhecer o Gondry e nem nenhum membro do júri.

Como você soube que seu curta tinha sido selecionado para Cannes? Qual foi sua reação imediata?
Ligaram lá pra casa no meio do carnaval, mas não disseram muita coisa. Eu estava viajando, num lugar onde não havia internet, telefone e nem cobertura de celular. Quando soube, fiquei bastante nervosa e, até a confirmação final da seleção, pensei em mil hipóteses para isso ter acontecido. Cheguei até a achar que eles poderiam ter se enganado de filme.
Chegando em casa, abri meu e-mail e vi que havia uma mensagem da diretora artística da Cinéfondation pedindo alguns detalhes sobre o filme. Respondi e no dia seguinte soube que ele havia sido selecionado. Não conseguia acreditar, não parecia algo possível.

Temos, este ano, outros três filmes brasileiros em Cannes. Como você, uma jovem recém-saída da faculdade, enxerga isso? O cinema autoral brasileiro está encontrando sua voz?
Não sei se o cinema brasileiro teria hoje mais espaço nos festivais internacionais que antes. Pelo menos em Cannes, tenho impressão de que ele sempre teve presença significativa.
O que acho que acontece é uma renovação dos nomes a ocupar esse espaço. Vejo a seleção do filme do Marco Dutra e da Juliana Rojas [“Trabalhar Cansa”] para uma competição importante como a Un Certain Régard como algo muito positivo.
Eles estão realizando um trabalho diferente dentro do panorama da produção nacional, tanto temática quanto esteticamente. Acho bacana que esse novo olhar no nosso cinema esteja ganhando reconhecimento fora do país.

Gostaria que você contasse como nasceu o seu filme e qual é o seu projeto estético.
Surgiu a partir de um exercício de adaptação literária para a aula de roteiro na UFF. Eu e o Calac [Nogueira, corroteirista] já tínhamos interesse em conhecer a obra do Noll, então resolvemos pesquisar.
Encontramos o “Duelo Antes da Noite”, que me interessou pelos seus personagens, pré-adolescentes em dificuldade com sentimentos recém-descobertos, e pela atmosfera de ambiguidades e estranheza.
Além de ter gostado muito da linguagem, percebi que ali havia uma história que podia se situar numa fronteira entre o real e o fantástico, na qual a indefinição interna dos personagens poderia contaminar tudo ao redor. A ideia, então, foi aproximar o espectador dessa experiência.

(Folha Online)

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