No ano passado, o influente crítico americano Roger Ebert escreveu um manifesto contra o uso do 3D nos lançamentos comerciais – não pela banalização da tecnologia, que vinha sendo empregada pelos estúdios em fitas que não requeriam esse suporte apenas para engrossar o custo dos ingressos, e sim pelo fato de que ela em nada favorecia o tratamento da imagem.

A ele se juntaram outros profissionais de renome – incluindo diretores de fotografia, as sumidades no assunto – alegando que o espectador estava (e ainda está) sendo logrado: paga mais caro para ver um filme em qualidade inferior.

Última tecnologia: a complexa câmera 3D usada nas filmagens de Hugo Cabert, de Martin Scorsese

Por outro lado, o cineasta Martin Scorsese enxergava possibilidades criativas na tecnologia. Ele defendeu que até mesmo filmes dramáticos deveriam explorar a terceira dimensão, então resguardada à animação, aventura e ação – genêros mais visuais, enfim.

O próximo filme do diretor, “Hugo Cabret”, está sendo rodado em 3D, e a indústria tem muito que torcer por essa e tantas outras empreitadas. O 3D é, afinal, a sua arma mais concreta contra a pirataria. É uma sensação exclusiva das salas de espetáculo, que não pode ser reproduzida em casa numa cópia de baixa definição.

As câmeras 3D de Jeffrey Katzenberg, James Cameron e Steven Spielberg

Pois esse às na manga pode não ser o suficiente para virar o jogo. Ao menos, é o que comprovam as bilheterias americanas de 2011.

Com abril quase no fim, foi-se um quarto do ano – e um dos piores quartos de ano para o cinema em muito tempo. “Rio”, a animação em 3D do brasileiro Carlos Saldanha, beirou os US$ 40 milhões em seu fim de semana de estreia no território americano. Foi a primeira rajada de ar fresco em uma temporada gélida. A Fox, que produziu o desenho, comemora. Mesmo assim, o filme ficou abaixo da arrecadação de estreia de “Como Treinar o Seu Dragão”, lançado na mesma época no ano passado (US$ 43 milhões). O detalhe é que, após o estouro de “Alice no País das Maravilhas”, a bilheteria do “Dragão” chegou a ser considerada um sinal amarelo para o formato.

James Cameron (de camisa azul) promove Santuário 3D: “maior que Avatar”.

Até o momento, apenas dois filmes ultrapassaram a marca dos 100 milhões nas bilheterias ianques: a comédia “Esposa de Mentirinha”, com Adam Sandler e Jennifer Aniston, e a animação “Rango”, dublada por Johnny Depp – ambos lançados nas tradicionais duas dimensões. E o filme em 3D que melhor faturou nos EUA foi o de Justin Bieber, que faria sucesso em qualquer formato entre as fãs do cantor.

Em compensação, o 3D conheceu fracassos clamorosos em 2011: “Marte Precisa de Mães”, animação da Disney com verba de US$ 150 milhões e arrecadação de US$ 20 milhões, “Santuário 3D”, produção de James Cameron que somou só US$ 23 milhões nos EUA e não se pagou, e o recente “Fúria Sobre Rodas”, ação com Nicolas Cage que não passou dos US$ 11 milhões domésticos para um custo de US$ 50 milhões.

Fracasso recorde: Marte Precisa de Mães

“O público está cético com relação ao 3D”, disse Michael Bay, o diretor de “Transformers”, ao jornal USA Today. “E ele tem razão para estar”.

O 3D perdeu a novidade, e o fato consumado de que a tecnologia nem sempre é empregada de maneira que valha os dólares extras no ingresso tem afastado os espectadores ocasionais. De fato, segundo análise do site especializado Box Office Mojo, a arrecadação do primeiro quarto do ano é a pior desde 1995, pesando-se ainda o aumento no custo dos ingressos, trazidos pelo 3D, nessa equação. Com os percalços que a economia americana enfrenta, o público está mesmo fechando a mão – e na fase da pirataria e do download crescentes, os estúdios devem se sentir inclinados a congratular aqueles que conservam o costume de ir ao cinema.

Consumidor insatisfeito: “eu quero meu dinheiro de volta” em 3D

Nesse período crítico, os filmes devem potencializar seus atrativos. Não é o que acontece. Brandon Gray, presidente do Box Office Mojo, comenta que “os próprios filmes são os principais culpados [do desempenho fraco]. Eles continuam a inspirar indiferença”. “Rio” pode não ter sido unanimidade entre a crítica, especialmente nos EUA, mas agradou ao público com a execução criativa de sua trama não muito original. Tudo o que o filme tem de melhor e de pior, ele tem de único.

O mesmo não pode ser dito sobre grande parte dessa safra, que investe pesado nas sequências. Uma continuação não é, por definição, o epítome da inventividade, mas costuma se pagar nas bilheterias. Dentre as animações, a Dreamworks chega com “Kung Fu Panda 2″ e a Pixar com “Carros 2″. E se há muita expectativa para “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2″, que foi convertido para três dimensões, ninguém sabe o que esperar do terror “Premonição 5″.

Justin Bieber impressiona-se com o óculos 3D

Ainda é cedo para atestar a morte do 3D. A tecnologia continua viva e sendo utilizada cada vez em Hollywood. Porém, a ganância dos estúdios e redes de cinema em cobrar ingressos mais caros e multiplicar a quantidade de estreias em 3D já está exibindo seus efeitos colaterais.

A análise de uma empresa financeira americana (BTIG) deduziu que elevar o preço dos ingressos para exibir filmes em 3D começa a se provar uma estratégia perigosa. “As pessoas estão se cansando de serem exploradas e não receberem aquilo pelo qual pagaram”, resumiu o diretor Ben Stassen, que rodou em 3D “As Aventuras de Sammy”, ao jornal britânico The Independent. “O público pode acabar rejeitando todo a tecnologia 3D e dizer que está se lixando para ela”.

Jogando o óculos fora: “Resident Evil 4: Recomeço”

Como confiar no formato, se até James Cameron, diretor do graal dos filmes em 3D, veio a público dizer que “Santuário 3D” superaria “Avatar”? A tal aventura B marinha foi arpoado pela crítica e afogou nas bilheterias.

Mais uma vez, o público teve que pagar para ver e não gostar. Não é à toa que não quer pagar de novo. O chefe da Fox, Tom Rothman, sintetiza o impasse ao dizer que o público “está mais esperto. Não dá para apressar e empurrar um monte de filmes e achar que as pessoas vão vê-los só por causa da tecnologia”.

Público de cinema 3D é morto em Premonição 4

Nos EUA, a temporada de grandes lançamentos de 2011 ainda não começou. Ainda há mais de 30 lançamentos em 3D programados até o fim do ano, entre eles produções caríssimas como “Piratas do Caribe 4″ e “Transformers 3″, além da primeira animação 3D de Steven Spielberg: “As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne”.

Os resultados de suas bilheterias serão acompanhados com bastante interesse pela indústria e poderão sinalizar se o 3D realmente veio para ficar, como se imaginava na época de sucessos como “Avatar”, “Alice no País das Maravilhas” e até “Resident Evil 4: Recomeço”, ou se, como a febre 3D dos anos 1950, foi só um modismo passageiro do começo do século 21.

(Pipoca Moderna – MTV Uol)