Sejamos sinceros: sempre que postamos alguma matéria sobre a Sony, são travadas pequenas batalhas entre amantes de consoles comercialmente “opostos”. Uma leva de Nintendistas batem o pé para defender a companhia das espetadas da gigante eletrônica Sony. Não digo que eu não o faria também, mas é claro que num padrão justo de diálogo — ou seja, sem xingar a companhia adversária sem ter argumentos o bastante ou olhando somente para um lado da situação. A essa lealdade irracional, fanatismo excessivo por determinada franquia, empresa ou marca, é dada a denominação “fanboyismo” — palavra derivada do inglês fanboy, que define um fã apaixonado por vários elementos da cultura nerd que, cego, acaba deixando seu fanatismo ultrapassar os limites do senso de julgamento, criando para si um sentimento de perfeição indiscutível sobre sua franquia favorita.

O Reino do Cogumelo espalha informações sobre a série Mario de forma enciclopédica, filosófica, mas preferimos manter o lado fanboy dentro da gaveta. É algo que deve ser sempre evitado e, quando for tarde demais, remediado. É baseado nesse tema que Eugene Kim, editor do Modojo, discute se os fanboys já nasceram assim ou se assumem esse status por meio de uma escolha consciente.

É de se ficar perplexo o modo como as pessoas ficam furiosas com relação a um sistema de video game. Como apontado por Kim, o DS nunca salvou a sua vida, e o PSP nunca assou biscoitos para você. E acredite, o fanboyismo já existe há tempos. Em 1968, dois pesquisadores, Knox e Inkster, recolheram dados de vários apostadores numa corrida de cavalos. Todos eles já haviam apostado 2 dólares em seus respectivos cavalos ou estavam prestes a apostar a quantia. Então, numa escala de 1 a 7, foi requisitado aos grupos de aposta que qualificassem a confiança que tinham na vitória dos cavalos escolhidos; a estimativa geral foi de 4.81. Muitos estudos subsequentes confirmaram este fenômeno, e os resultados são assustadores: algo acontece na mente das pessoas fazendo com que elas fiquem mais confiantes sobre suas escolhas após terem feito essas escolhas.

As pessoas sempre querem ter várias opções, mas fazer escolhas costuma ser um bicho de sete cabeças. Você pode ter muitas alternativas, mas todos sabem que, a partir do ponto em que você toma uma decisão particularmente difícil, a agonia ainda não acabou. E se eu escolher estudar num outro colégio? E se eu quisesse comprar aquele carro ao invés deste? Estes sentimentos de “o que aconteceria se…?” são chamados de dissonância pós-decisional, e a forma como seu cérebro lida com essa angústia é mudando o modo como você se sente sobre a escolha que você fez. Em outras palavras, você começa a gostar muito mais da escolha que você fez.

Digamos que você tenha juntado dinheiro para comprar um console portátil. Você fica entre o DS e o PSP, e digamos que você tenha escolhido o DS. Você o leva ansiosamente para casa, e em pouco tempo, vai ouvir sobre o leitor de vídeo do PSP e sobre sua tela widescreen de alta luminosidade e definição. Ao invés de se martirizar por ter feito uma escolha que não lhe agradou, é mais provável que você lide com isso pensando algo como “olhe para aquele maluco que pagou uma fortuna por um UMD” e postar isso na internet. É importante notar que ninguém decide ampliar o mérito de suas próprias escolhas; é o seu cérebro que faz você se sentir mais confiante com elas. Quanto mais difícil for a escolha, mais isso se faz necessário.

No fim das contas, até mesmo os defensores mais fiéis de suas marcas favoritas relutantemente concordam que todos os sistemas principais de video game na indústria são ótimos. É um momento maravilhoso para a indústria de jogos eletrônicos, e toda essa concorrência acaba dando vida a coisas inovadoras e atraentes. No entanto, enquanto existirem escolhas, vamos encarar decisões difíceis em vários momentos da vida, e para debater essas decisões, fanboys vão aparecer na internet como formigas em cima de uma jujuba. O jeito é esperar que todos tomem mais consciência e respeito sobre as decisões do próximo.

(Por Eduardo Jardim – Reino do Cogumelo)